Como comentado, a desarticulação com a política urbana tem sido uma das críticas apontadas ao PMCMV237. Segundo Rolnik (2015, p.243), com base nos dados da
Rede de Pesquisa Cidade e Moradia, “todos os municípios pesquisados abandonaram suas políticas para ‘rodar’ o programa”. Isso representa um retrocesso frente ao período que precede a criação do MCMV, em que as políticas habitacionais vinham sendo construídas com base nos princípios da função social da propriedade – ou, ao menos, caminhando para tal – e na tentativa de implantação dos instrumentos do Estatuto da Cidade238, conforme os objetivos iniciais do Ministério das Cidades.
O que temos, portanto, de apontamentos sobre o resultado da implantação do PMCMV no país representa a inclusão da população de média e baixa renda no circuito de capitais por meio do endividamento com a provisão de casas e apartamentos de baixa qualidade construtiva e espacial, localizados em áreas periféricas com infraestrutura e equipamentos precários que não garantem cidade e moradia digna, mas garantiram a lucratividade e a sustentação do setor da construção civil. Foi observado em diversas cidades que o programa serviu para justificar a remoção de ocupações irregulares e favelas e, em alguns casos, para liberar áreas para grandes obras239.
sistema altamente burocrático de registro de imóveis ao mesmo tempo em que a grilagem de terras e a produção de títulos “frios” ou “documentos de gaveta” seguem como práticas frequentes na ocupação dolo urbano e rural.
237 Rolnik (2015); Cardoso e Aragão (2013); Santo Amore (2013); Santo Amore (2015). 238 Santo Amore (2015).
239 Rufino (2015). No Rio de Janeiro, o trabalho de Magalhães (2013) mostra que a implantação dos
Conjuntos do PMCMV legitimou a remoção de um grande número de famílias de favelas localizadas em regiões que passaram pelo processo de valorização do solo urbano devido às intervenções decorrentes dos megaeventos.
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O PMCMV nas margens da legalidade
Para compreender o andamento da política habitacional que antecedeu o início do Programa de Regularização Fundiária, apresento alguns dados e análise sobre a implantação do Programa Minha Casa Minha Vida em Londrina. Estas informações revelam algumas características referentes à localização dos empreendimentos; datas dos contratos, valores e quantitativos gerais de cada empreendimento; dados sobre as remoções, como a definição das áreas de origem e a quantidade de famílias. Detalho dois casos (Residencial Vista Bela e Residencial Cristal I e II) para possibilitar uma análise mais profunda sobre a execução do programa no que se refere à gestão das ocupações irregulares.
O convênio firmado para realização do Programa Minha Casa Minha Vida em Londrina foi assinado durante a gestão do prefeito Barbosa Neto (PDT). Como nas demais cidades, o esboço da política habitacional que começava a ser desenhado pela elaboração do Plano de ZEIS foi interrompido para dar lugar à implantação do PMCMV. Como mostrarei adiante, o processo de implantação do programa foi permeado por práticas que extrapolam os limites da legalidade. Foram previstos empreendimentos em diferentes regiões da cidade de Londrina, todos eles nas franjas urbanas. O Residencial Vista Bela merece destaque pois concentrou em um mesmo terreno dez contratos (com três construtoras diferentes), totalizando 2.812 unidades240.
O objetivo deste tópico é compreender a mecânica do procedimento da remoção das famílias residentes em ocupações irregulares realizado pela Cohab-LD na destinação das unidades produzidas pelo PMCMV. De acordo com as informações coletadas e do que considero relevante para alinhavar a argumentação da tese, utilizo informações de procedimentos sobre diferentes Conjuntos Habitacionais do PMCMV, a saber: Residencial Vista Bela I ao X, Residencial Cristal I e II, e Residencial Flores do Campo241.
240 Dado obtido no site da Caixa Econômica Federal.
241 O caso do Residencial Flores do Campo corresponde a um conjunto que não teve sua construção
finalizada e foi ocupado irregularmente por cerca de 400 famílias em 2016. Até hoje [2019], foram suspensas três reintegrações de posse e está em trâmite um acordo de realocação das famílias para outras
Também interessa compreender os critérios que embasaram as decisões. Para isso, utilizo dados quantitativos obtidos em pesquisa no site da Caixa Econômica Federal, dados quantitativos e qualitativos obtidos na pesquisa documental realizada no Setor Social da Cohab-LD e entrevistas com funcionários da Cohab-LD (inclusive ex- funcionário) que participaram diretamente destes procedimentos.
Tabela 4 – Empreendimentos FAR - PMCMV faixa 1 em Londrina
Fonte: Caixa Econômica Federal
áreas fornecidas pela prefeitura por meio da Cohab-LD. Detalharei este caso adiante, no tópico “A ocupação insurgente do Residencial Flores do Campo”.
Empreendimento Nº Unidades Valor Contratação Construtora Modalidade Faixa
C H CRISTAL I 232 R$ 10.593.553,95 30/12/2009 SIAL FAR Empresas Faixa 1
C H CRISTAL II 248 R$ 11.324.167,19 30/12/2009 SIAL FAR Empresas Faixa 1
CJ RES MARAVILH 60 R$ 2.496.415,26 30/12/2009 SIAL FAR Empresas Faixa 1
FLORES DO CAMPO 1218 R$ 77.952.000,00 24/07/2013 FORMULA ENGENHA FAR Empresas Faixa 1
JD COLUMBIA I 21 R$ 860.808,31 24/05/2010 BONORA E COSTA FAR Empresas Faixa 1
NOVA ESPERANCA 50 R$ 2.049.999,87 30/06/2010 BONORA E COSTA FAR Empresas Faixa 1
NOVA ESPERANCA3 61 R$ 3.171.792,41 27/01/2012 BONORA E COSTA FAR Empresas Faixa 1
QUATRO BAIRROS 230 R$ 14.720.000,00 09/04/2013 TERRA NOVA FAR Empresas Faixa 1
RES ALEGRO VILL 144 R$ 9.216.000,00 20/12/2013 G.FERDINANDI CO FAR Empresas Faixa 1
RES ANATERRA 85 R$ 3.190.939,18 13/10/2009 BONORA E COSTA FAR Empresas Faixa 1
RES ELIZABETH 32 R$ 1.311.193,18 08/07/2009 BONORA E COSTA FAR Empresas Faixa 1
RES N ESPERANCA 100 R$ 4.099.997,58 30/09/2009 BONORA E COSTA FAR Empresas Faixa 1
VISTA BELA I 305 R$ 13.053.365,60 30/09/2009 ARTENGE FAR Empresas Faixa 1
VISTA BELA II 208 R$ 9.406.284,76 30/09/2009 ARTENGE FAR Empresas Faixa 1
VISTA BELA III 208 R$ 9.407.083,54 30/09/2009 ARTENGE FAR Empresas Faixa 1
VISTA BELA IV 431 R$ 18.725.178,20 30/09/2009 TERRA NOVA FAR Empresas Faixa 1
VISTA BELA IX 224 R$ 10.750.008,42 12/03/2010 ARTENGE FAR Empresas Faixa 1
VISTA BELA V 224 R$ 10.130.526,30 30/09/2009 TERRA NOVA FAR Empresas Faixa 1
VISTA BELA VI 536 R$ 23.269.591,33 30/09/2009 PROTENGE FAR Empresas Faixa 1
VISTA BELA VII 144 R$ 6.512.448,33 30/09/2009 PROTENGE FAR Empresas Faixa 1
VISTA BELA VIII 224 R$ 10.749.715,73 12/03/2010 PROTENGE FAR Empresas Faixa 1
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Figura 11 – Localização dos empreendimentos FAR - PMCMV faixa 1 em Londrina
Observando a localização dos empreendimentos na Figura 11, é possível dizer que apenas o Jd. Elizabeth se destaca pelo aproveitamento de uma gleba vazia integrada à malha urbana. Os demais empreendimentos foram localizados em frentes de expansão na periferia, nos limites da malha urbana. Eles caracterizam-se pela localização periférica, como frentes de expansão urbana, pelas grandes glebas com muitas unidades habitacionais, ausência de equipamentos públicos, construções geminadas e apartamentos que criam uma paisagem profundamente homogeneizada reforçando seu aspecto segregador territorial e social.
A implantação do PMCMV em Londrina seguiu a mesma lógica de operação apontada anteriormente, destinando parte das unidades produzidas para famílias removidas de ocupações irregulares de diferentes partes da cidade. O procedimento da “mobilização” das famílias removidas será analisado destacando as escolhas das áreas de origem. O caso da zona leste de Londrina nos permite compreender a articulação do programa com o mercado de terras.
A localização do Residencial Vista Bela no limite da malha urbana, cercado por terrenos rurais e futuras áreas industriais evidencia a periferização e o papel de frentes de expansão provocadas pela implantação dos empreendimentos. Foi possível compreender o processo de escolha do terreno a partir de entrevista242 que recupera
detalhes da implantação do empreendimento.
Além da localização periférica, o porte do empreendimento e a ausência de equipamentos públicos também são relevantes para compreender os efeitos socio- territoriais do programa. Estas características são resultado do estudo de viabilidade realizado pelas construtoras quando tiveram notícia da liberação de recursos pelo Governo Federal. O estudo de viabilidade não é exigência do PMCMV e foi iniciativa independente das construtoras locais que levantaram terrenos, contataram os proprietários e fizeram estudos quantitativos visando ter o controle sobre os contratos.
242 Entrevista realizada com funcionário da Cohab-LD – cargo comissionado – que trabalhou no
Departamento de Programas Habitacionais no período de 2009 a 2016. Esse funcionário é engenheiro, participou da concepção do projeto do parcelamento do solo do terreno quase dez anos antes e foi contratado para participar das negociações para implantação do Programa MCMV em Londrina.
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Desse modo, o estudo foi apresentado para a Caixa Econômica após a negociação com a proprietária do terreno, uma empresa paulista. No procedimento padrão para a contratação do empreendimento do PMCMV a Caixa Econômica faz a triangulação entre proprietário e construtoras.
O terreno do Res. Vista Bela possuía um projeto aprovado em 2002, o que agilizaria o processo de implantação tendo em vista a demora para aprovação de projetos na Secretaria de Obras e Pavimentação de Londrina e também baratearia o empreendimento já que não há previsão de doação de terrenos para implantação de equipamentos públicos243.
Como as normativas do PMCMV exigem a implantação dos equipamentos no caso da ausência ou insuficiência na região de implantação, essa questão foi solucionada no caso do Vista Bela com a assinatura de um Termo de Compromisso em que a Prefeitura liberou as construtoras da responsabilidade de prover os terrenos para esse fim, se comprometendo a implantar os equipamentos nas áreas do entorno do empreendimento e, como contrapartida, as construtoras ficaram com a responsabilidade de construir uma ponte na transposição de um Fundo de Vale no acesso sul do terreno, tendo em vista que o terreno encontrava-se isolado da malha urbana. Entretanto, logo após os trâmites do empreendimento, durante as obras, o prefeito foi cassado e apenas uma creche foi entregue, e após seis anos da entrega do
243 Nas diretrizes de parcelamento do solo de 1998 há a exigência de doação de 3% da área parcelável da
gleba para implantação de equipamentos públicos. No entanto, em 2018 foi denunciado um esquema de corrupção nos procedimentos de aprovação de loteamentos em Londrina, que era uma das causas da demora dos pareceres da SOP. A investigação do Ministério Público sobre o caso, chamada Operação ZR3, envolveu a Secretaria de Obras e Pavimentação, o Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Londrina, o Conselho Municipal da Cidade, a Secretaria de Meio Ambiente e a Câmara de Vereadores, e empresa privada de Planejamento Urbano que desenvolvia Estudos de Impacto de Vizinhança. Por meio de Lobby, era cobrada propina dos incorporadores para garantia dos projetos aprovados em tempo reduzido. O pagamento garantia alterações de zoneamento, agilidade na aprovação dos projetos, aprovação do Estudo de Impacto de Vizinhança, dentre outras coisas. Mais informações sobe esta operação, intitulada de Operação ZR3, pode ser acessada em: https://24horas.com.br/politica/operacao- zr3-completa-um-ano-relembre-o-passo-a-passo-da-acao/; https://paranaportal.uol.com.br/politica/vereador-afastado-e-preso-por-ameacar-testemunha-da- operacao-zr3/; https://cbnlondrina.com.br/materias/justica-comeca-a-ouvir-testemunhas-da-operacao- zr3; https://www.folhadelondrina.com.br/politica/justica-marca-segunda-fase-de-depoimentos-da- operacao-zr3-1026725.html; https://www.folhadelondrina.com.br/politica/operacao-zr3---empresario- achacado-denunciou-suposta-organizacao-criminosa-na-camara-de-londrina-999042.html.
empreendimento foi construída a primeira escola (entregue em 2017). Isso gerou uma grave situação na região devido à sobrecarga dos equipamentos públicos de bairros vizinhos, com vagas insuficientes e falta de atendimento para grande parte da população do Res. Vista Bela, considerando que o bairro possui mais de duas mil unidades residenciais onde residem mais de 12 mil pessoas.
Figura 12 – Residencial Vista Bela
Fonte: Zanon, Cordeiro e Araujo Junior (2015).
Devido ao porte do terreno e os limites dos contratos da CEF foi feita uma espécie de consórcio entre três construtoras locais que assinaram dois contratos cada uma. Depois foram incluídos mais contratos, totalizando dez contratos referentes ao Residencial Vista Bela (Vista Bela I ao X). Na divisão, as construtoras menores ficaram responsáveis pela construção das casas, enquanto as construtoras maiores foram responsáveis pela construção dos prédios.
A operacionalização do Programa MCMV prevê que o município – em Londrina, a Cohab-LD – é responsável por fazer a distribuição das unidades para as famílias cadastradas. Na Lei nº 11.977/2009 não estava previsto atendimento prioritário, que foi
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posteriormente incluído pela Lei nº 12.424/2011 para famílias residentes em áreas de risco (relacionados a acidentes) e priorizar o atendimento em nome da mulher. A Cohab- LD definiu seus próprios critérios priorizando o atendimento de famílias residentes em favelas, seguindo a lógica do desfavelamento.
Uma prática chamada remoção de favela
A palavra utilizada para os procedimentos das remoções de favelas é a “mobilização” das famílias residentes em ocupações irregulares244. Esse procedimento
é de responsabilidade do Setor Social da Cohab-LD, que é gerido por uma diretora (assistente social), onde trabalham duas cientistas sociais, e mais dois assistentes sociais, dois cargos de indicação política e aproximadamente quatro estagiários por período. Quando há reintegração de posse, envolve outros setores também, e para gestão de programas financiados pode haver terceirização de outros profissionais.
O processo de seleção do PMCMV realizado em Londrina adotou como prioritárias as remoções de famílias ocupantes de Fundos de Vale/ocupações irregulares, seguindo a proposta de desfavelamento vista nas décadas anteriores245.
A equipe que fez a mobilização para o Res. Vista Bela não está mais na Cohab- LD, somente a diretora do Setor continua. Segundo ela, a seleção das famílias e das ocupações irregulares que deveriam ser removidas para o Vista Bela foi feita com base em informações contidas no PLHIS (2011) e no PEMAS (2002) já mencionadas,
244 Em primeiro lugar, importante diferenciar as remoções que são decorrentes de reintegração de posse
dada em favor do proprietário, das remoções quando não há o respaldo da decisão judicial. Quando há reintegração de posse, a responsabilidade da desocupação é da polícia, mas a Cohab-LD, em alguns casos, participa fazendo uma ponte com a população para viabilizar a desocupação de forma “pacífica”. Houve situações em que a Cohab-LD se responsabilizou em levar as famílias removidas pela reintegração de posse que foram instaladas em assentamentos em terrenos da companhia ou que estavam sendo adquiridos pela Cohab-LD. Mas o foco aqui são os procedimentos das remoções que não são resultados de reintegração de posse, que foram planejadas pela Cohab-LD com atendimentos das famílias pelo PMCMV.
245 Informações obtidas na entrevista concedida por uma funcionária que participou da seleção das
priorizadas as famílias que residiam em áreas de risco246. Segundo ela, o critério da
territorialidade foi utilizado considerando Zona Norte como região para origem-destino das famílias, e no Cristal (I e II), Região Sul, principalmente, a porção do Jd. União da Vitória.
Para o trabalho de mobilização, por falta de profissionais no setor social, as equipes foram formadas contando com profissionais da Cohab-LD e profissionais de assistência social terceirizados. No caso do Res. Cristal I e II, foram formadas três equipes de mobilização. Para isso, foram contratadas três assistentes sociais terceirizadas que integraram estas equipes.
Segundo a entrevistada (e que pude confirmar durante minha permanência neste setor), as informações recebidas pelas equipes sobre o trabalho que será realizado são pontuais e objetivas e não possibilitam a interpretação da situação de forma mais ampla. As equipes recebem informações mínimas só para ir a campo coletar informações. Para a entrevistada “isso torna o trabalho penoso”. É passado para a equipe o conjunto de critérios em que devem ser enquadradas as famílias e os documentos que devem providenciar para atender à solicitação da Caixa Econômica. O material utilizado para a mobilização consiste em um checklist de informações sobre as famílias e acompanha um “relatório social” com as observações do assistente social.
A ficha de atendimento do “Cadastro de Atendimento Social” solicita dados pessoais como: nome, data de nascimento e sexo, números dos documentos, estado civil, escolaridade, ocupação e renda do titular do cadastro e companheiro(a). Solicita também informações dos dependentes como nome, data de nascimento, parentesco, escolaridade, estado civil, ocupação e renda. Indica, no final, a somatória do total da renda familiar.
Com relação ao checklist, se algum membro da família tem problemas de saúde, se algum membro possui algum tipo de deficiência, e se algum membro da família utiliza algum equipamento especial (como cadeira de rodas ou muletas, por exemplo).
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Quanto às características do domicílio e infraestrutura verifica-se a situação da posse/propriedade da moradia (comprada, alugada, cedida, ocupada irregularmente). Esta não é uma informação precisa, tendo em vista que alguns declaram que a casa é comprada, mas ela está localizada em área irregular, outros, mesmo tendo pago pela casa, declaram como ocupação irregular. Também é levantado o tempo de residência no local, se possui água encanada e energia elétrica e valores pagos mensalmente (não consta rede de esgoto), tipo de material da construção, tipo de material do piso da residência e uma classificação sobre a habitabilidade. Também identifica serviços públicos de saúde e assistência social onde a família é atendida, se recebe benefícios municipais ou federais e o número do cadastro de beneficiário. Por último, são levantadas as despesas mensais da família e o confronto com o valor total da renda. A essa ficha podem ser anexados relatórios do CRAS nos casos de famílias encaminhadas para atendimento prioritário.
Nas observações, o assistente social anota o que considera relevante complementar ou reforçar sobre a família. Na análise das fichas de cadastro das famílias atendidas no Res. Vista Bela, a quantidade e o tipo de informação colocada nas observações varia muito conforme o assistente social. Algumas fichas contam sobre aspectos da condição de vulnerabilidade da família em relação à mobilidade, violência, dificuldade de inserção no mercado, reclusão de membros da família, relação com tráfico de drogas, etc. Outras detalham alguns aspectos econômicos, como as fontes de renda formais/informais, condição dos móveis da família, etc. Algumas vezes aparecem informações complementares como a suspensão de algum benefício, ou problemas de despejo. As fichas vêm acompanhadas por um relatório fotográfico da casa.
Nos casos de ocupações em fundos de vale, o setor social estabeleceu como condição para o atendimento das famílias a autorização para a demolição do barraco assim que a família recebesse a casa no conjunto habitacional, portanto essa informação também constava nas fichas. Como não havia a reintegração de posse, a demolição foi negociada como uma forma de impedir a ocupação do fundo de vale após as remoções. Porém, algumas casas foram novamente ocupadas antes da demolição.
Voltando ao trabalho da mobilização para a remoção para o conjunto habitacional, a entrevistada afirmou que se incomodava com a abordagem superficial e incompleta sobre o trabalho que seria desenvolvido, então procurou se informar por conta própria. Buscando novas informações descobriu que é opção da família sair da ocupação ou não, já que não houve reintegração de posse. Porém, ela afirmou que essa informação não foi passada à equipe e que na abordagem da diretoria foi indicado que a família deveria sair já que a área foi ocupada de forma irregular e que o município não fará a regularização naquele local. Sendo assim, quem escolhesse não sair para ir para os conjuntos do PMCMV, poderia vir a ter que sair em outro momento em que não seriam disponibilizadas vagas em conjuntos habitacionais e, nesses casos, a Cohab-LD não se responsabilizaria e a família teria que encontrar outro lugar sozinha.
Esta forma de colocar a questão, além de ocultar a informação de que existe a possibilidade de regularização fundiária ainda que ela não seja praticada em Londrina, mas que a reivindicação da usucapião é um direito das famílias que estão há mais de cinco anos e que existe a possibilidade legal de supressão da área de preservação permanente para viabilizar a regularização fundiária, a forma como a necessidade de sair do local “uma hora ou outra”, sem o “apoio” da Cohab-LD tende a coagir as pessoas a aceitar a oferta. Assim, em nenhum momento estão claros os direitos e deveres e há uma distorção para convencer as famílias a concordarem com as remoções.
De acordo com a entrevistada, houve de fato alguma resistência em sair por parte de famílias que possuíam mais informações sobre o direito à moradia e os termos da usucapião. No caso do Jd. União da Vitória, algumas famílias tinham conhecimento de que parte da área ocupada irregularmente é de propriedade da Cohab-LD, que estava removendo as famílias sem reintegração de posse se beneficiando do seu papel de