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CAPÍTULO III – A RESPONSABILIDADE DO FORNECEDOR DE PRODUTOS E

3.1 O PRINCÍPIO RESPONSABILIDADE

3.2.2 – A publicidade como vínculo de oferta ao público. 3.2.3 – A atividade publicitária e os princípios constitucionais dos valores sociais da livre iniciativa, da livre concorrência e da liberdade de expressão. 3.2.4 – O regime de autorregulamentação publicitária no Brasil e sua (in)compatibilidade com o direito à informação. 3.2.5 – A oferta de produtos e serviços de crédito. 3.3 – Os contratos de crédito ao consumidor. 3.3.1 – A (des)informação nos contratos de crédito ao consumidor. 3.3.2 – O regime das cláusulas abusivas nos contratos de crédito ao consumidor.

3.1 O PRINCÍPIO RESPONSABILIDADE

O tema da responsabilidade será tratado neste capítulo apresentando certo distanciamento do sentido comum que lhe empresta o direito civil, o de imputação do dever de reparar danos, de conteúdo relacional, ligado ao direito das obrigações. Não que o instituto da responsabilidade civil seja desimportante para um trabalho que versa sobre direito contratual, crédito e inadimplemento. No entanto, o locus da perspectiva a ser abordada é o campo da ética, com consequências na seara do direito.

O Código de Defesa do Consumidor, com sua vocação vanguardista, reduziu a complexidade e a consequente dificuldade de enfrentamento do problema da responsabilidade civil à luz do modelo tradicional em que a vítima carregava o duplo ônus de provar a culpa e o nexo de causalidade, evoluindo e optando por um sistema solidarista em que a finalidade principal é a restituição do lesado ao estado anterior. Esse sistema solidarista se volta para a proteção da pessoa humana e está mais vinculado às exigências de uma igualdade material, promovendo assim uma releitura do instituto sob os valores que preenchem regras e princípios do texto constitucional. A opção do CDC traçou novos rumos à disciplina e facilitou sobremaneira a defesa da vítima, que nas relações de consumo são em sua quase totalidade a parte mais vulnerável.

A responsabilidade civil, enquanto obrigação de indenizar, vem avançando nitidamente em relação à desvalorização da culpa, caminhando em direção à consideração do dano. Na mesma toada, é possível verificar tendência a aproximar os regimes de

responsabilidade contratual e extracontratual, o que aponta para uma nova denominação do instituto, que se vem chamando de “direito de danos”.

Rodrigo Xavier Leonardo, por exemplo, afirma que se hoje o elemento basilar ao dever de indenizar é o dano e não a culpa, como outrora, melhor referir-se à disciplina como um direito de danos (2010, p. 397).

Como salienta Marcos Erhrardt, no sistema da culpa, de matiz individualista, obter êxito em uma ação de responsabilização por danos na prática era o mesmo que vencer uma corrida de obstáculos, já que uma vez verificado o dano, competia à vítima a prova da culpa e do nexo de causalidade (2014, p.55). O sistema atual da responsabilidade civil abandona, ao menos no Código de Defesa do consumidor, quase que por completo a subjetividade na aferição de culpa, que fica restrita aos casos de prestação de serviços por profissionais liberais (art. 14, § 4°). A responsabilidade civil dos fornecedores de produtos e serviços é, em regra, exclusivamente objetiva.

Assim sendo, em se tratando de uma relação de consumo, responde o fornecedor de maneira objetiva – desconsiderada a culpa – pelos danos que causar ao consumidor.

A inovação no Código de Defesa do Consumidor se deu bem antes da promulgação do Código Civil em 2002. Adotou-se como regra a responsabilidade objetiva do fornecedor de produtos e serviços, quer pelo fato do produto ou serviço (defeituosos por não oferecerem a segurança que deles se espera – arts. 12 a 17), quer por vício do produto ou serviço (vício de qualidade ou quantidade ou ainda decorrente de disparidade com as indicações neles constantes ou em sua oferta ou mensagem publicitária – arts. 18 a 25), tendo por exceção, como visto acima, unicamente os serviços prestados por profissionais liberais, quando a responsabilidade pessoal será apurada mediante a verificação de culpa.

E ainda que a responsabilidade civil se faça concretizar nos casos em que o fornecedor induz o consumidor a adquirir produtos e utilizar serviços de qualquer natureza, inclusive os de crédito, pelo que responde também o agente publicitário, assim como em tantas outras situações, é da responsabilidade no campo da ética que o presente capítulo versará.

O marco teórico é o filósofo alemão Hans Jonas, cujo pensamento de um modo geral é essencial para a compreensão dos fundamentos da presente tese e deste capítulo em especial.

A abordagem que se quer desenhar é a da responsabilidade que se apresenta para além da relação obrigacional típica. De fundamento ético mas conteúdo jurídico, a responsabilidade a ser tratada é a que corresponde à teoria desenvolvida por Hans Jonas, uma concepção voltada a um novo agir humano, afastada como apontado, da ideia tradicional de direitos e deveres. Trata-se do princípio responsabilidade, que surge a partir da necessidade de uma ética para a civilização tecnológica, dado o distanciamento entre os avanços tecnológicos e a reflexão ética.

O conceito responsabilidade na teoria de Jonas expressa o que ele chama de dever recém-surgido. Com o avanço tecnológico, o poder e o conhecimento que antes se concentravam no ato momentâneo, já que eram limitados para incluir o futuro em suas previsões, passaram a projetar a ética em relação ao porvir. Os impactos causados pela tecnologia desloca a responsabilidade para o centro da ética:

[....] O Princípio Responsabilidade contrapõe a tarefa mais modesta que obriga ao temor e ao respeito: conservar incólume para o homem, na persistente dubiedade de sua liberdade que nenhuma mudança das circunstâncias poderá suprimir, seu mundo e sua essência contra os abusos de seu poder (2006, p. 23).

A Constituição brasileira bem traduz esse princípio responsabilidade em seu artigo 225, cujo caput, ao tempo em que garante o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, impõe ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as “presentes e futuras gerações”. O parágrafo primeiro do mesmo artigo se desdobra em obrigações atribuídas ao Poder Público para assegurar a efetividade do direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado. E é no inciso V desse parágrafo primeiro do artigo 225 da Constituição que se encontra o núcleo do forte elo que une a preservação ambiental ao direito do consumidor. O mencionado dispositivo impõe ao Poder Público o dever de “[...] controlar a produção, comercialização e emprego de técnicas, métodos e substâncias que comportem risco para a vida, a qualidade de vida e o meio ambiente”.

Essa disposição normativa se reflete diretamente na ordem econômica do Estado brasileiro onde, em conjunto com a defesa do consumidor, a defesa do meio ambiente é oferecida como princípio geral da atividade econômica, devendo se dar inclusive “[...]

mediante tratamento diferenciado conforme o impacto ambiental dos produtos e serviços e de seus processos de elaboração e prestação”. A salvaguarda desses direitos e deveres se dá sob a forte influência da funcionalização do direito de propriedade expresso e garantido no inciso XXII do artigo 5°.

Com esse prolegômeno, é possível investigar a responsabilidade que o fornecedor de produtos e serviços tem para com os consumidores presentes e futuros. Responsabilidade por uma melhor qualidade de vida, pela defesa e preservação do meio ambiente, com desestímulo ao consumo exacerbado – que é exercido muitas das vezes de maneira inconsciente – ou o descarte de produtos pela obsolescência típica do tempo atual que Gilles Lipovetsky chama de hipermoderno, tempo em que a sociedade vive de excessos e paradoxalmente descarta e desperdiça o que pode (2007, passim).