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CAPÍTULO IV – O SUPERENDIVIDAMENTO DO CONTRATANTE

4.5 SUPERENDIVIDAMENTO E PRODIGALIDADE

Questão relevante e que não pode deixar de ser abordada em uma pesquisa sobre a prevenção e o tratamento do superendividamento é a que diz respeito ao consumidor compulsivo, aquele que compra para satisfazer a necessidade de consumir não o que efetivamente necessita mas tudo que o seu desejo consciente ou inconsciente determina. Muitos podem ser os vazios que o consumidor precisa preencher, as ausências que necessita suprir do ponto de vista psicológico, o que pode ser satisfeito – e geralmente o é – através de bens materiais, com a aquisição de produtos e a utilização de serviços. E isto se dá porque o consumo é uma satisfação imediata que não alivia a causa mas somente os sintomas. Acontece que muitas vezes o consumidor não tem condições de controlar seu impulso, que é demasiadamente estimulado pela indústria publicitária. A compulsão pode ser um distúrbio de ordem apenas psicológica mas também uma doença psiquiátrica, e de uma maneira ou de outra deve ser tratada.

No campo da psiquiatria, a enfermidade antes conhecida como Psicose Maníaco Depressiva (PMD) se desenvolveu de modo a atingir número não desprezível de pessoas neste início do século XXI. A doença é hoje identificada como transtorno bipolar. Nela o paciente alterna momentos de depressão com outros de grande euforia. Nestes últimos, essas pessoas são tomadas por uma sensação de empoderamento que, entre outros comportamentos, é capaz de fazê-las acreditar que podem adquirir o que desejarem, sem qualquer preocupação com as consequências de seus atos, que os podem levar à ruína financeira.

Uma linha tênue separa os portadores do transtorno bipolar do pródigo, que tem sua capacidade reduzida à prática de atos de natureza patrimonial (art. 1782, CC). O diagnóstico é dificultado porque nem sempre a família ou terceiros podem identifica-los.

Por outro lado, a concepção jurídica de prodigalidade não se renovou e não absorveu os valores do tempo presente. A realidade atual nos apresenta essa massa de cidadãos com um acúmulo insuportável de dívidas, os superendividados, que podem ser privados de seu patrimônio. E se a proteção jurídica dessas pessoas tivesse que se dar pela interdição, como acontece com o pródigo, o tráfico jurídico restaria interrompido.

De uma maneira geral, o pródigo é aquele que se desfaz de seu patrimônio pessoal ou o compromete de forma descontrolada, sem critério. Alguns autores defendem que a prodigalidade não deveria estar incluída entre os tipos de incapacidade relativa, por prestigiar o patrimônio em detrimento da autonomia, e até mesmo da dignidade da pessoa. Paulo Lôbo lembra o caso emblemático de São Francisco de Assis, que se desfez de seu patrimônio em benefício dos pobres, como manifestação de sua autonomia e opção de vida (2009a, p. 122). A interdição por prodigalidade está ligada a um período da história em que o direito civil era impregnado pela concepção burguesa de vida, em que se privilegiava o patrimônio. É em verdade um recurso que somente deve ser utilizado em caso de ausência permanente de discernimento, considerando que a interdição do pródigo está a proteger o seu patrimônio e não necessariamente a sua pessoa.

A prodigalidade chega ao Brasil através das Ordenações Filipinas, que no Livro IV, Título 103, § 6°, trata da pessoa que desordenadamente gasta e destrói sua fazenda. O Esboço de Teixeira de Freitas não trata da prodigalidade no rol das incapacidades (arts. 41 e 42). Nem o faz o Código Civil argentino que, como é consabido, foi inspirado em sua obra.

Já durante a elaboração do Código de 1916, ocorreram grandes discussões sobre a permanência da interdição nos casos de prodigalidade. O próprio Clóvis Beviláqua defendeu a supressão do instituto afirmando que “[...] ou a prodigalidade é um caso manifesto de alienação mental, e não há necessidade de destacá-la para constituir uma classe distinta de incapacidade, pois entra na regra comum; ou tal não é positivamente, e não há justo motivo para feri-la com a interdição” (1949, p. 202). O Código de 2002 manteve a interdição do pródigo.

Não é possível descurar dos casos em que o indivíduo acometido de algum tipo de alienação, como o portador do transtorno bipolar, dissipa seus bens de modo totalmente descontrolado. Mas esses casos somente ratificam o que Beviláqua afirmava no início do século passado, quando defendia a supressão do instituto do Código Civil.

A prodigalidade não constitui necessariamente causa incapacitante. Não há sentido na privação da capacidade jurídica de uma pessoa que se desfaz de seu patrimônio. Está na seara da autonomia do sujeito de direito a manutenção de seu patrimônio ou o seu desfazimento. O que se amealhou durante uma vida pode ser utilizado da maneira que aprouver a seu titular, que pode mantê-lo intacto ou gastar por exemplo com o intuito de bem viver a última fase de sua existência. O instituto da prodigalidade não pode ser utilizado como instrumento de garantia da herança.

E não se deve olvidar que parcela ínfima da população brasileira tem possibilidade de se comportar com prodigalidade.

Se o reconhecimento da prodigalidade dependerá de sentença proferida em ação de interdição, deverá o intérprete vê-la como uma excepcionalidade, observando sempre que a prodigalidade não diz respeito ao interesse do núcleo familiar mas sim da dignidade do próprio titular.

É necessário muito cuidado por parte do julgador no reconhecimento da causa geradora dessa incapacidade. É imperioso atentar-se para o fato de que a decisão judicial de interdição atinge direitos e garantias fundamentais do cidadão e há de estar fundada na proteção da dignidade da pessoa do interditando, não de terceiros, quer sejam parentes ou não.

4.6 O SUPERENDIVIDAMENTO DAS FAMÍLIAS FRENTE ÀS ESCOLHAS DE