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CAPÍTULO I – SOBRE A ANÁLISE DE DISCURSO

1.5 O silêncio

Orlandi (2007b), ao tratar sobre o silêncio destaca que o ato de falar também é um ato de separar e de distinguir, que remete ao silêncio para evitá-los. Nese sentido, esse processo disciplina a significação, pois não coloca os sentidos em movimento. “A linguagem estabiliza o movimento dos sentidos. No silêncio, ao contrário, sentido e sujeito, se movem largamente.” (p. 27). Tais postulados mostram que quando o homem estabeleceu o silêncio como algo possível de ser discernido, também estabeleceu o espaço da linguagem.

Nessa esteira, mostra que há a multiplicidade entre as palavras, e, também, entre os silêncios, pois há “diferentes ordens de discurso em suas distintas propriedades e definições.” (p. 28). Orlandi (2007b) mostra que a política do silêncio remete ao silenciamento e a sua dimensão política demonstra que ele pode ser considerado, tanto na ordem da dominação, da opressão, quanto na ordem da opressão, da resistência.

Ao hipotetizar o fato de que o silêncio é fundante, Orlandi (2007b) mostra que “o silêncio é a matéria significante por excelência, um continuun significante. O real da significação é o silêncio. E como o nosso objeto de reflexão é o discurso, chegamos a uma outra a firmação que sucede a essa: o silêncio é o real da do discurso.” (ORLANDI, 2007b, p. 29).

Os sujeitos sempre produzirão sentidos, seja por meio de palavras, ou, até mesmo, sem elas, pois diante do mundo, há a interpretação, há a necessidade de que tudo faça sentido, uma vez que a constituição do homem se dá por meio da sua relação com o simbólico.

Conforme Orlandi (2007b), para que se possa pensar sobre o silêncio, é necessário que se pense em relação ao “avesso da estrutura” (p. 30), sem as oposições e regras categóricas. Deste modo, é necessário considerar “não os produtos, mas os processos de significação, isto é, o discurso”. (p. 31). Para a linguista, em oposição ao pensamento sobre o silêncio enquanto falta, deve-se considerar o pensamento em relação à linguagem como excesso. Tais postulados mostram que:

o silêncio não fala. O silêncio é. Ele significa. Ou melhor: no silêncio, o sentido é. Podemos mesmo chegar a uma proposição mais forte, invertendo a posição que nos é dada pelo senso comum (e sustentada pela ciência), na qual a linguagem aparece como ‘figura’ e o silêncio como ‘fundo’. Desse modo,

podemos dizer que o silêncio é que é ‘figura’, já que é fundante. Estruturante, pelo avesso. (ORLANDI, 2007b, p. 31).

Orlandi (2007b) mostra que o silêncio é constitutivo e tem superioridade em relação às palavras. Sobre a linguagem, a categorização do silêncio remete a um movimento periférico, um ruído. Assim, destaca que o homem é atravessado pelo desejo de unicidade que “é função da sua relação com o simbólico sob o modo do verbal.” (p. 32). Em relação à linguagem, essa é “conjunção significante da existência e é produzida pelo homem, para domesticar a significação.” (p. 32).

A fala divide o silêncio. Organiza-o. O silêncio é disperso, e a fala é voltada para a unicidade e as entidades discretas. Formas. Segmentos visíveis e funcionais que tornam a significação calculável.

Se tudo isso pode ser dito a propósito da linguagem, falar do silêncio traz, em si, uma dificuldade maior, já que ele se apresenta como absoluto, contínuo, disperso.

O silêncio não está disponível à visibilidade, não é diretamente observável. Ele passa pelas palavras. Não dura. Só é possível vislumbrá-lo de modo fugaz. Ele escorre por entre a trama das palavras. (ORLANDI, 2007b, p. 32).

Ao tratar sobre a questão do silêncio, Orlandi (2007b) mostra que ele é constituído por uma “grande extensão”, por um movimento que retorna e desloca. Assim, também é formado por algo “incalculável, disperso, profundo e imóvel em seu movimento monótono”, onde há “frestas que o tornam visível.” (p. 32). O som também é constituinte do silêncio, pois há a “repetição, não-finitude, movimento contínuo.” (p. 33).

Segundo a linguista, a matéria significante do silêncio é diferente da significância da linguagem verbal ou não-verbal. Deste modo, “ao tornar visível a significação, a fala transforma a própria natureza da significação. Essa diferença de natureza pode ser mais bem pensada se considerarmos a articulação entre gesto e silêncio, enquanto expressividade.” (ORLANDI, 2007b., p. 34).

Em relação à identidade, a linguista mostra que há a coerência, a totalidade, a unicidade produzida pela relação do homem com a linguagem e que faz com que os próprios homens sejam visíveis e intercambiáveis, fato esse que é comum à espécie humana. Entretanto, é o silencio que pode modificar a unicidade, pois é por meio do seu controle e da sua disciplina, que o homem pode fazer o silêncio falar, ou calar o sujeito. Assim, mostra que: “o homem – tendo de responder à injunção de transparência e objetividade – não se dá o tempo de trabalhar a diferença entre falar e significar.” (ORLANDI, 2007b, p. 34).

Orlandi mostra que para “nosso contexto histórico-social, um homem em silêncio é um homem sem sentido”. (p. 34). Assim, o homem deixa de lado o risco de construir significados, por isso, fala e enche o espaço com sons que criam “a ideia de silêncio como vazio, como falta.” (p. 34). A linguista mostra que o fato de o homem negar a sua relação com o silêncio, faz com que ele apague “uma das mediações que lhes são básicas.” (p. 35). Portanto, é a partir da eliminação da ideia de mediação, que são estabelecidas e desenvolvidas reflexões sobre a temática relacionada à linguagem e ao pensamento, e entre a linguagem e o mundo, a sociedade, “e que atribuem funções que confirmam a centralidade da linguagem.” (p. 35).

Orlandi (2007b) afirma que o fato dos sujeitos não falarem, mostra que eles não estão apenas mudos, mas em silêncio:

há o ‘pensamento’, a introspecção, a contemplação etc.

O nosso imaginário social destinou um lugar subalterno para o silêncio. Há uma ideologia da comunicação, do apagamento do silêncio, muito pronunciada nas sociedades contemporâneas. Isso se expressa pela urgência do dizer e pela multidão de linguagens a que estamos submetidos no cotidiano. Ao mesmo tempo, espera-se que estejam produzidos signos visíveis (audíveis) o tempo todo. Ilusão de controle pelo que “aparece”: temos de estar emitindo sinais sonoros (dizíveis, visíveis) continuamente. (ORLANDI, 2007b, p. 35).

Conforme Orlandi, há a hipótese de que há na relação com a linguagem uma progressão histórica do silêncio em direção à verbalização. Esse movimento influencia na prática geral da linguagem e no discurso da ciência. Ainda segundo a linguista, do século XIX até a atualidade, diversas linguagens foram produzidas e passaram à contenção do silêncio. As palavras, de modo indefinido, passaram a se desdobrar em palavras, “na maior parte das vezes, ecos do mesmo, sem sair do lugar.” (p. 37).

Segundo Orlandi (2007b), o silêncio media “as relações entre linguagem, mundo e pensamento, resiste à pressão de controle exercida pela urgência da linguagem e significa de outras e muitas maneiras.” (p. 37). Deste modo, essa mediação passa a ser mais um dos elementos que revelam a ilusão referencial de que o silêncio não é transparente e que a sua atuação ocorre na passagem entre pensamento, palavra e coisa.

Para Orlandi (2007b), o silêncio significa de diversos modos e é objeto de estudos de distintas teorias, como por exemplo: a filosofia, a psicanálise, a semiologia, a etnologia e a linguística que, por usa vez, enfoca-o sob a perspectiva da elipse e do implícito. Conforme a linguista, há silêncios múltiplos, como por exemplo, “o das emoções, o místico, o da contemplação, o da introspecção, o da revolta, o da resistência, o da disciplina, o do exercício do poder, o da derrota da vontade, etc.” (p. 42).

Ao considerar a dimensão discursiva, Orlandi (2007b) mostra que o sentido se faz em diversas direções, como, por exemplo, em relação aos conceitos discursivos: interdiscurso, intertexto e relação de sentidos.

Sobre o desenvolvimento da significação, essa não se desenvolve sob uma perspectiva reta, mensurável, calculável e segmentável, pois os sentidos estão na dispersão, “eles se desenvolvem em todas as direções e se fazem por diferentes matérias, entre as quais se encontra o silêncio.” (p. 46). Nesse sentido, sobre a materialidade do sentido, essa não é indiferente aos processos de significação e a seus efeitos: “o silêncio significa de modo contínuo, absoluto, enquanto a linguagem verbal significa por unidades discretas, formais. Eis uma diferença que é preciso não apagar.” (ORLANDI, 2007b, p. 46-47).

Sobre as noções de completude e de incompletude, a linguista mostra que:

já tivemos ocasião de observar em diversas ocasiões que a incompletude é fundamental no dizer. É a incompletude que é fundamental no dizer. É a incompletude que produz a possibilidade do múltiplo, base da polissemia. E é o silêncio que preside essa possibilidade. A linguagem empurrar o que ela não é para o ‘nada’. Mas o silêncio significa esse ‘nada’ se multiplicando em sentidos: quanto mais falta, mais silêncio se instala, mais possibilidades de sentidos se apresentam. (ORLANDI, 2007b, p. 47).

Ao tratar sobre a não-completude, que é inerente ao processo discursivo, Orlandi (2007b) mostra que a questão do silêncio é considerada da seguinte maneira: o silêncio, enquanto constituinte do sujeito, rompe com postura plena do eu, pois há a “asfixia do sujeito, já que o apagamento é necessário para sua constituição” (p. 49), pois o silenciamento constitui a identidade, uma vez que constitui o processo de identificação e lhe possibilita o processo de movimento; o silêncio, enquanto fator de constituição do sentido, produz o espaço em que há o movimento da materialidade significante, “o não-dito necessário para o dito”. (p. 49).

Em relação ao silêncio, destacamos que essa categoria de análise remete aos não-ditos, pois um dizer sempre silenciará outros dizeres que não foram proferidos. O silêncio estabelece uma ampla rede de significados que por questões institucionalizadas e ideológicas, acabam sendo apagadas. Os sentidos silenciados acabam por emergir por meio do discurso dos alunos e do discurso do MEC e é por meio do dispositivo analítico da Análise de Discurso que são revelados deslizes que representam o que não foi dito, mas que, por sua vez, por meio da memória discursiva e do arquivo, acabam se mostrando e se abrindo a novos sentidos.

Desse modo, o não-dito acaba por emergir a ampliar uma teia de significações que historiciza e atualiza as diversas representações sobre a EJA no país. Esse movimento acaba

por instaurar a necessidade de inovações e a ampliação no sistema educacional brasileiro para que, a história não se repita, não se atualize em conformidade com o arquivo e a memória, pois a exclusão marca a sociedade e impede a escolarização das minorias que, muitas vezes é obrigada a abandonar os estudos para constituir a força produtiva e trabalhar para se sustentar. A inoperância ou a inexistência de políticas públicas que promovam a escolarização na idade regular acaba por constituir o futuro cenário de exclusão constituído por jovens e adultos não- escolarizados e que, muitas vezes, mesmo na vida adulta, ainda não podem frequentar a escola e acabam sendo silenciados.