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O tratamento comunitário dos direitos humanos

CAPÍTULO 4 – A propriedade intelectual em um ambiente multilateral

5.5 O tratamento comunitário dos direitos humanos

Em primeiro lugar, cumpre lembrar que os tratados que instituíram a União Européia não incluía, num primeiro momento, a proteção jurídica dos direitos humanos fundamentais. Não havia, no princípio, preocupação com a tutela dos direitos fundamentais no âmbito das Comunidades Européias. No entanto, a Corte Constitucional da Itália e da Alemanha provocaram profunda reflexão sobre o tema, fazendo com que a Comunidade Européia reexaminasse a sua postura diante dessa questão, uma vez que a supremacia do direito comunitário sobre o direito interno fora adotada como princípio (DAL RI JÚNIOR, 2001).

Segundo a Constituição italiana, a norma de direito interno em conflito com o Direito Comunitário seria inconstitucional. Porém, o acórdão Frontini, exarado pela Corte Constitucional italiana, em 1973, considera que a norma de direito interno deve prevalecer sobre a norma de direito comunitário se esta violar direitos fundamentais. Nessa condição, tal violação convalidaria a norma de direito interno, que passaria a ser considerada constitucional, embora contrariasse uma norma de direito Comunitário, que em princípio teria prevalência. No mesmo norte, oriundos da Corte Constitucional alemã saíram dois acórdãos emblemáticos, Solange I e Solange II (1986), com o entendimento de que o Direito Comunitário não poderia violar uma norma interna de direito fundamental. As normas Comunitárias, portanto, deveriam seguir a tradição Constitucional dos Estados-membros; por conseguinte, o respeito aos direitos humanos seria um requisito para a sua validade (DAL RI JÚNIOR, 2001).

Sob a influência das Cortes Constitucionais, o Tribunal de Justiça das Comunidades Européias passaram a seguir a tendência de humanização consagrada no Direito Internacional, reconhecendo a necessidade de se assegurarem os Direitos Humanos no âmbito da Comunidade. Com os acórdãos Stauder (1969) e Internationale

Handelsgesellschaft (1970), o Tribunal de Justiça passou a reconhecer os direitos

humanos fundamentais, como verdadeiros princípios gerais de direito e, por conseguinte, o dever de salvaguardá-los. Mas convenhamos, o Direito Comunitário não poderia seguir outro caminho, pois os Estados Europeus, na sua maioria, já se achavam irreversivelmente comprometidos com a proteção dos Direitos Humanos Fundamentais, através dos Pactos de Direitos Civis e também dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, ambos de 1966. Ademais, como ficariam as Comunidades Européias diante da ONU, tendo em vista a fase de reconstrução dos Direitos Humanos que se verificou após a Segunda Guerra Mundial. Ora, de qualquer forma, os Estados europeus, em nenhuma hipótese, poderiam apresentar uma norma de Direito Comunitário como escusa para violar direitos fundamentais da pessoa humana, consagrados no Direito das gentes (DAL RI JÚNIOR, 2001).

Os acórdãos Van Gend & Loos (1963), Costa\ENEL (1964) e Simmenthal (1978) foram importantíssimos para os cidadãos europeus, uma vez que eles podem agora invocar perante os órgãos jurisdicionais nacionais as disposições dos Tratados (SILVA, 1995).

Segundo o site oficial da União Européia, os direitos fundamentais da pessoa humana são altamente considerados:

Colocar o indivíduo e os interesses do indivíduo no centro da integração européia constitui a principal preocupação da União Européia. As instituições européias reconheceram o respeito dos direitos fundamentais como princípio geral do direito europeu e consagram vários direitos relacionados com a livre circulação na União Européia (EU, 2008)

Flávia Piovesan observa que

o Tratado de Amsterdã reitera que a União Européia deve respeitar os direitos humanos fundamentais assegurados na Convenção Européia de Direitos Humanos, bem como os direitos decorrentes das tradições constitucionais comuns aos Estados-membros, como princípios gerais de Direito Comunitário. (Piovesan; 2002; 53)

No entanto, Arno Dal Ri Júnior observa ainda existirem algumas resistências por parte da União Européia em salvaguardar os direitos fundamentais. Isso se verificou, sobretudo, com a possível adesão das Comunidades Européias à Convenção Européia dos Direitos Humanos. O parecer n. 2/94, solicitado aos juízes de Luxemburgo, reflete o receio de se submeter o Tribunal de Justiça das Comunidades Européias ao controle de um outro tribunal previsto pela Convenção Européia de Direitos Humanos, o que enfraqueceria a sua atuação. Além disso, uma vez frustrada a adesão da Comunidade Européia à Convenção Européia dos Direitos Humanos, surgiu a idéia, ainda que bem intencionada, de se elaborar uma Carta de Direitos Humanos. Foi isso o que ocorreu em dezembro de 2000, por meio do Conselho de Nice. A União Européia apresentou, portanto, a sua Carta dos Direitos Fundamentais, porém totalmente desvinculada do Tratado da União Européia, o que denota certo constrangimento em matéria de direitos humanos fundamentais (DAL RI JÚNIOR, 2001).

Cumpre ressaltar que o Tratado de Amsterdam (1997), embora desvincule a União Européia da Convenção Européia de Direitos Humanos (CEDH) e da Corte Européia de Direitos Humanos, reconhece os direitos consagrados por esse documento.

A Convenção Européia de Direitos Humanos de 1950 criou uma Comissão de Direitos Humanos e a Corte Européia de Direitos Humanos, com sede em Estrasburgo. Trata-se de uma Corte muito ativa em que os Estados europeus podem ser responsabilizados por violações de direitos fundamentais. A Corte Européia disponibiliza, por meio da internet, inúmeros julgados envolvendo o direito à liberdade

religiosa. Geralmente esses julgados envolvem um particular e um Estado, pessoa humana contra Estado. Convém, todavia, mencionar a crítica de autores europeus em relação às decisões da Corte Européia de Direitos Humanos, para quem os Estados são favorecidos por meio da utilização da doutrina da margem de apreciação em detrimento dos direitos humanos assegurados pela Convenção de 1959. Aquela doutrina será tratada em capítulo próprio (GUERREIRO, 2005).

Segundo Guido Soares, o continente europeu atingiu um excelente patamar de proteção dos Direitos Humanos, com o protocolo n. 11 de 1997, porquanto a Corte de Estrasburgo passou a ser competente para receber reclamações diretamente dos indivíduos que tivessem os seus direitos violados, contra qualquer estado-parte na Convenção Européia, o que difere do sistema americano, que, por sua vez, conforme o Pacto de San José da Costa Rica, inexiste essa possibilidade de acesso direto dos indivíduos, sendo que as reclamações devem ser dirigidas, primeiramente, à Comissão de Direitos Humanos (SOARES, 2002).

Nesse contexto de direitos humanos fundamentais, importa indicar que a propriedade intelectual tem por base teorias de políticas públicas, que reflete naqueles direitos.