Preparação, intervenção e follow up
3. rEVISÃo dE LItErAturA
3.6 Objetivos do estudo, hipóteses de trabalho e metodologia
A pergunta orientadora deste estudo procurava compreender a influência da liderança na promoção do bem- estar junto dos colaboradores da hotelaria de cinco estrelas no Algarve. Por outro lado, centrando-se o estudo em descrever o bem-estar naquela tipologia de empreendimentos turísticos através do comportamento, ou ação, das chefias promotoras de bem-estar, estabeleceu-se como objetivo genérico compreender e caraterizar a liderança que promove o bem-estar nos colaboradores. Para além destes objetivos gerais, foram definidos os seguintes objetivos especificos:
• Analisar os conceitos de bem-estar na hotelaria de cinco estrelas;
• Analisar sistematicamente o discurso dos chefes promotores e não promotores de bem-estar no sentido de diferenciar as suas autoperceções;
• Explicar a liderança promotora de bem-estar.
Após se ter definido este conjunto de objetivos, foram definidas as hipóteses que poderiam responder às questões de investigação e os instrumentos que o permitiriam alcançar. Assim, conceberam-se duas grandes hipóteses de investigação:
Hipótese 1: Os chefes promotores e não promotores de bem-estar são percebidos de maneira diferente pelos subordinados.
Para a resposta a esta primeira hipótese, fez-se uso de um questionário de liderança e bem-estar em elaboração por Sousa et al. (2013) para compreender as perceções dos colaboradores face às chefias promotoras e não promotoras de bem-estar perspetivando que os colaboradores daquela tipologia hoteleira diferenciassem as chefias promotoras e não promotoras de bem-estar.
Hipótese 2: Os chefes promotores de bem-estar têm perceções da liderança diferentes dos chefes não promotores de bem-estar. Para a definição e resposta a esta segunda hipótese, partiu-se do pressuposto de que seria possível identificar os comportamentos da liderança promotora de bem-estar, não apenas através da descrição dos próprios comportamentos das chefias mas através da relação entre estas e os seus colaboradores.
O estudo pretendeu verificar se estas hipóteses eram válidas e se as posições de chefia eram relevantes quanto ao bem-estar dos colaboradores na populacao estudada - para a presente comunicação, são os resultados que conduziram à resposta à hipótese 2 que mais nos interessam (Messias, F.B., 2014: 239-258, 265-272).
3.6.1 - População
A população do estudo foi constituída pelo total dos empreendimentos turísticos existentes no Algarve provenientes de um conjunto diversificado de grupos hoteleiros nacionais e internacionais com a classificação de cinco estrelas (Minazzi, 2010; The European Consumer Centre’s NetWork, 2009). No momento do estudo, a hotelaria de cinco estrelas estava classificada em hotéis, aparthotéis e conjuntos turísticos (resorts) apresentando a região algarvia um total de 35 empreendimentos turísticos de cinco estrelas – os empreendimentos turísticos da população foram identificados por numeração de 1 a 35, designando-os de Hotel 1 a Hotel 35.
3.6.2 - Amostra
A amostra foi constituída por um número de empreendimentos turísticos de cinco estrelas no Algarve selecionados aleatoriamente da população e desse número foi encontrado o número de colaboradores estudados (subordinados e chefias). Para selecionar a amostra socorremo-nos do método de sondagem por amostragem probabilística em duas etapas (Vicente, Ferrão and Reis, 2001). Numa primeira etapa foi calculado o número de empreendimentos turísticos que constituíram uma amostra independente. Numa segunda etapa ponderou-se cada empreendimento
com o número de colaboradores tendo em conta garantir que os empreendimentos escolhidos eram representativos. Para obter o cálculo da amostra utilizaram-se dados provenientes de um estudo anterior na hotelaria de quatro e cinco estrelas no Algarve constituído pelos empreendimentos turísticos estudados e pelo questionário aplicado (Monteiro, 2008). Utilizou-se assim o questionário e a escala de 1 a 5 tipo Lickert administado por Monteiro (2008). Para a estimativa foi utilizado o programa software SPSS Statistics vs. 21.0. Escolheu-se uma variável pedindo-se a média e a variância por empreendimento turístico.
Deste modo, o número de empreendimentos turísticos que viessem a formar a amostra e o número de colaboradores a estes correspondentes, teria de ser equivalente a uma dimensão da amostra cujo grau de confiança não fosse inferior a 90% e o erro amostral não fosse superior a 30%, que permitisse a credibilidade, validade e precisão das conclusões (Vicente et al., 2001). Assim, garantiu-se que o número de empreendimentos e o número de colaboradores a estudar não contrariasse a representatividade da amostra (Tabela 1).
Tabela 1 - Cálculo Dimensão Amostra Final
λ % Z d cV % Pr % F2 % m
90 1,64 1,16 15 30 20 6
Messias, F. B., 2014: 177.
Assim, a amostra foi constituída por 6 empreendimentos turísticos designados de Hotel 1 a Hotel 6 (Tabela 2).
Tabela 2 - Empreendimentos Turísticos da Amostra e Número de Colaboradores Empreendimentos turísticos N.º colaboradores
Hotel 1 140 Hotel 2 150 Hotel 3 100 Hotel 4 100 Hotel 5 200 Hotel 6 80 Total 770 Messias, F. B., 2014: 177.
O número de colaboradores dos empreendimentos turísticos da amostra representa 21,74% do total dos colaboradores da população (Quadro 3)
Quadro 3 - Relação Colaboradores - População e amostra
População Amostra
35 Empreendimentos Turísticos 6 Empreendimentos Turísticos N.º Total de colaboradores = 3542 N.º Total de colaboradores = 770
100% do Universo Populacional 21,74% do Universo Populacional Messias, F. B., 2014: 179.
Administraram-se 770 questionários. Com este procedimento assegurava-se que o número de colaboradores para observação em cada unidade hoteleira da amostra fosse de pelo menos 20%, como determinado pelo cálculo da dimensão da amostra pelo método da sondagem em duas etapas e igualmente expectávamos assegurar o mínimo de 100 indivíduos da amostra por fator medido (Pasquali, 1999). Desta forma, conseguindo um número de colaboradores (subordinados e chefias) em cada unidade da amostra igual ou superior a 20%, atingiu-se um duplo objetivo: garantir a aleatoriedade dos colaboradores e com esta a robustez da qualidade e representatividade da sondagem.
3.6.3 - Instrumento
Foi utilizado o método das grades de Kelly que permitiu utilizar o instrumento em elaboração por Sousa et al. (2013) adaptado ao contexto da hotelaria de cinco estrelas possibilitando a aplicação da escala de liderança promotora
de bem-estar (ELPB) ao estudo empírico.
A teoria dos constructos pessoais de George Alexander Kelly (1963) também conhecido por método das grades de Kelly (Repertory Grid) constitui uma teoria da personalidade que se foca na forma como cada indivíduo perceciona a realidade atuando como um criador de sentido (meaning maker). Uma pessoa constrói as suas teorias a partir de um sistema de constructos bipolares e opostos. Cada constructo ganha sentido em oposição a um outro constructo oposto. Esta perspetiva do mundo é efetuada através da oposição de opostos em que cada pessoa concebe a realidade como um mero conjunto interpretativo dos acontecimentos exteriores a si mesmo (Butt, 2008). Deste modo, por exemplo, apenas “faz sentido falar-se de um chefe promotor de bem-estar em oposição a um chefe não promotor de bem-estar e cada indivíduo possui a sua própria definição de bem-estar num determinado momento e contexto” (Messias, F.B., 2014: 182).
O método de Kelly foi utilizado primeiramente como método terapêutico para aceder ao sistema de constructos pessoais dos indivíduos, inicialmente concebida para ser usada nos pacientes de George Kelly. Mais tarde, foi utilizada em vários estudos, entre estes, pode apontar-se o conduzido numa investigação sobre criatividade dos professores (Sousa, 1999), num estudo sobre representações sociais (Sousa and Monteiro, 2005), num estudo em liderança e inovação no turismo (Monteiro, 2008), num estudo em liderança e bem-estar nas empresas do Algarve (Sousa et al., 2013) e no presente estudo.
A escala foi testada tendo sido sujeita antecipadamente a um conjunto de procedimentos efetuados até à implementação do estudo piloto - nomeadamente, os seguintes: procedimento preliminar de enquadramento e contextualização do estudo e elicitação dos constructos bipolares no método das grades de Kelly, procedimento de aplicação do instrumento e realização das entrevistas, procedimento de pré-teste de adaptação e apresentação dos itens da ELPB numa ou em duas colunas e, por fim, o procedimento de pré-teste para adaptação da ELPB ao estudo piloto e comparação de constructos ao estudo de Sousa et al. (2013) (Messias, F.B., 2014: 184-194) – que após foi sujeita a uma bateria de testes psicométricos no estudo de validade e consistência interna da ELPB (Messias, F.B., 2014: 194-201)