CAPÍTULO III – DISPOSITIVO METODOLÓGICO
3.3. Objeto e Objetivos do Estudo
A adoção de tecnologias, revela-se crucial para o aumento da produção e produtividade agrária. A presente pesquisa vai se centrar na análise dos desafios que a rede de extensão pública enfrenta no desenvolvimento sustentável em Moçambique. Desafios na ótica do presente estudo, são limitações da área que devem ser ultrapassadas. Em geral constituem ameaças ao planeamento estratégico convencional. São importantes, devendo ser enfrentados, ainda que sejam obstáculos ou temas de difícil resolução (Perez, 2012). O enfoque da análise será dado aos aspetos metodológicos e tecnológicos utilizados pelos agentes de extensão pública no seu relacionamento com os intervenientes agrários, sobretudo produtores, e com o meio ambiente. Serão analisadas duas metodologias participativas nomeadamente a EMC e o PITTA, descritos em detalhe no Capítulo 2.
O Plano Director de Extensão Agrária (2007-2016) agrupou as tecnologias disseminadas pelos serviços de extensão pública em 9 categorias a saber: (i) Tecnologias apropriadas para a agricultura intensiva; (ii) Irrigação de pequena escala; (iii) Produção pecuária; (iv) Tecnologias pós-colheita e de agro-processamento; (v) Gestão de recursos naturais como as floresta, conservação dos solos e gestão da fertilidade dos solos; (vi) Piscicultura; (vii) Controlo integrado de pestes e doenças; (viii) Multiplicação de fruteiras e (ix) Mitigação
Fonte: Figura de Hay, 2002, adaptada pela autora
95 dos efeitos do Vírus de Imunodeficiência Humana e Síndroma de Imunodeficiência Adquirida (HIV e SIDA) (DNEA, 2007; Alage, 2014).
O Sistema Unificado de Extensão (SUE) foi introduzido em Moçambique nos finais dos anos 90 e alicerça no fato de o extensionista ser generalista, passando a divulgar mensagens tecnológicas incluindo outras áreas de especialidade, como florestas e pecuária e não apenas agrícolas. Nesta base o extensionista deve ser regularmente treinado e apoiado pelas instituições de especialidade do Ministério da Agricultura para poder difundir melhor as tecnologias nessas áreas específicas e com forte apoio da investigação (DNER, 1997; DNEA, 2005, 2007).
O SUE pressupunha a racionalização de recursos humanos e materiais do Ministério da Agricultura, pois as várias instituições de especialidade deixaram de ter seus próprios extensionistas, passando todos a serem adstritos à Direcção Nacional de Extensão Agrária (Gêmo, 2006). Para além da racionalização de recursos do Ministério, o SUE implicava melhor atendimento do produtor agrário, ao dotar o extensionista capaz de lidar com o sistema de produção na sua plenetude e não apenas conhecedor da sua área de formação (agrícola e/ou pecuária). Deste modo um produtor deixava de ser assistido por vários extensionistas do Ministério da Agricultura, para lidar apenas com um só e de algum modo aumentar-se a cobertura para mais produtores.
A análise das tecnologias disseminadas pela extensão agrária na presente pesquisa será feita em termos de seu perfil no contributo para a Sustentabilidade, nessas categorias definidas. Os aspectos a considerar em termos de perfil serão os seguintes: adequação técnica e social para a sua aplicação (Alage, 2014) e contribuição para o aumento da produção e produtividade, disponibilidade e acesso aos produtores e conservação ambiental. Este perfil adequa-se as dimensões do desenvolvimento sustentável: económica, social e ambiental (WCSD, 1987).
3.3.1. Formulação da Questão e Objectivos da Pesquisa
A Ciência é a busca de conhecimento24 da realidade e da verdade (Almeida, 1989) e nesse processo é importante a definição de um problema ou questão que deve ser explicado ou compreendido (Gomides, 2002). Pesquisas feitas permitiram explorar o conceito de problema tendo constatado que Problema é dizer de maneira explícita, clara, compreensível e operacional, qual a dificuldade com a qual nos defrontamos e que pretendemos resolver (Gomides, 2002: 7). Esta definição pressupõe não ser tarefa fácil definir o problema ao destacar o aspecto da necessária qualidade do mesmo no tocante à objetividade e clareza.
Um problema de pesquisa é uma limitação teórica ou prática no conhecimento que está relacionada com algo importante para qual se deve encontrar uma solução (Hill & Hill, 2002; Marconi & Lakatos, 2007). Deste modo, o valor ou a prioridade do problema a investigar deve ser equacionado de modo a justificar a opção por um dado assunto a pesquisar num certo momento e contexto, avaliando os recursos subjacentes.
Para o presente estudo foi formulada uma questão geral à volta da preocupação com o grau de envolvimento dos serviços de extensão no desenvolvimento sustentável. Foram igualmente formuladas duas questões específicas, derivadas da questão geral, uma ligada às preocupações de índole metodológica enquanto a outra de âmbito das tecnologias disseminadas pela extensão. Foram definidos subsequentemente um objetivo geral e cinco objetivos específicos, sendo dois por cada questão e uma comum às duas questões específicas e ligada à busca de solução às limitações identificadas. Segundo Gomides, (2002: 7), o objetivo da formulação do problema da pesquisa é torna-lo individualizado ou específico. Para o efeito foram definidas as seguintes questões e objetivos, geral e específicos:
24
Conhecimento é informação associada a uma experiência, que compreende uma estratégia, uma prática,
um método ou uma abordagem. (...) Saber ou sabedoria exprime um princípio, discernimento, costume ou arquétipo, correspondendo a uma dada competência. É neste quadro semântico que se afirma que o investigador tem de transformar informação em conhecimento (Dinis, 2005: 23).
97 Questão Geral do Estudo
Que desafios limitam a extensão agrária pública a contribuir para o desenvolvimento sustentável e quais são as estratégias para supri-los?
Questões Específicas
Será que as metodologias de extensão agrária pública contribuem para o desenvolvimento sustentável? Em que medida as tecnologias disseminadas pela extensão agrária contribuem para o desenvolvimento sustentável?
Objetivo Geral
Identificar os desafios que a rede de extensão agrária pública enfrenta no desenvolvimento sustentável em Moçambique, com enfoque nos aspetos metodológicos e tecnológicos utilizados pelos agentes de extensão no seu relacionamento com os atores agrários, sobretudo produtores e com o meio ambiente.
Objetivos Específicos
a) Descrever as metodologias de extensão agrária aplicadas;
b) Identificar as lacunas dessas metodologias de extensão agrária face aos princípios do desenvolvimento sustentável;
c) Descrever as tecnologias disseminadas pela extensão agrária;
d) Identificar as deficiências dessas tecnologias no contexto do desenvolvimento sustentável e
e) Indicar elementos para adequação das metodologias e das tecnologias ao Desenvolvimento Sustentável (DS).
As metodologias selecionadas para este estudo foram a da Escola na Machamba do Camponês e do Programa integrado de Transferência de Tecnologias Agrárias, por serem de aposta para o Ministério da Agricultura, as mais recentemente introduzidas em Moçambique e aplicadas em todos as Províncias do País. Deposita-se grande expectativa dessas metodologias na resposta ao produtor agrário e existe pouco conhecimento e compreensão sobre a sua aplicação no contexto moçambicano.
A Figura 3.2. representa o mapa conceptual da questão de estudo e objectivos, servindo-se do diagrama de Joseph Novak, um psicólogo defensor da corrente construtivista da Universidade de Cornell, Estados Unidos da América. Segundo este autor, o mapa concetual é uma ferramenta de representação de conhecimento, que num diagrama procura mostrar as relações entre os conceitos numa certa área de conhecimento (Novak e Gowin, 1999; Novak, 2000; Carmo e Ferreira, 2008). A Figura 3.2. desempacota a extensão agrária nas suas três dimensões: a informativa, relativa a partilha de inovações ou outras informações uteis; a comunicativa mediante utilização de meios adequados de comunicação e a dimensão educativa induzindo mudança de atitudes (Swanson, 1981).
Figura 3.2. Mapa concetual da questão e objetivos do estudo
Fonte: figura elaborada pela autora