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Os objetivos de Desenvolvimento do Milénio

1.2. Do Desenvolvimento Ao Desenvolvimento Sustentável

1.2.5. Os objetivos de Desenvolvimento do Milénio

Foi em Setembro do ano 2000, em que 191 Estados Membros da Organização das Nações Unidas (ONU), incluindo 147 Chefes de Estado, assinaram a Declaração do Milénio, considerado o mais importante compromisso internacional em prol do desenvolvimento e da eliminação da pobreza e da fome no mundo (PNUD, 2000).

O tema “Desenvolvimento e erradicação da pobreza” discutido durante a Cimeira, constituiu um dos elementos fundamentais para a formulação desses ODM (ONU, 2010). Cientes da necessidade de redobrar esforços conjugados para o desenvolvimento e combate a pobreza no mundo, os países desenvolvidos e os países em desenvolvimento, consideram a Estratégia dos ODM um instrumento que deve orientar os países através de parcerias criando um clima favorável, tanto a nível nacional como internacional.

A Declaração do Milénio surgiu, portanto, como um culminar de debates anteriores onde os líderes mundiais reafirmaram a responsabilidade, como parceiros, em relação aos princípios de dignidade humana, igualdade e equidade a nível global (Annan, 2007; MPD, 2010) e teve mérito em consolidar várias metas estabelecidas nas conferências mundiais ocorridas sobretudo ao longo dos anos 90. A Declaração do Milénio representa a promessa mais importante jamais feita às pessoas mais vulneráveis do mundo (Sha

Zukang, 2010: 5) pela sua orientação preocupação e reconhecimento das pessoas como protagonistas e beneficiárias do desenvolvimento sustentável. Nesses termos, os ODM, pelo sua abordagem sobre desenvolvimento sustentável, podem conduzir à melhoria das condições de vida das pessoas, entanto que direitos humanos.

A Declaração do Milénio deu origem a oito objetivos abaixo indicados, batizados como (ODM) compostos por 21 metas e 60 indicadores mensuráveis com a maioria das metas a serem cumpridas até 2015 (ONU, 2010):

(i) Erradicar a extrema pobreza e a fome; (ii) Atingir o ensino básico universal;

(iii) Promover a igualdade de gênero e a autonomia das mulheres; (iv) Reduzir a mortalidade infantil;

(v) Melhorar a saúde materna

(vi) Combater o HIV e SIDA, a malária e outras doenças; (vii) Garantir a sustentabilidade ambiental e

(viii) Estabelecer uma parceria mundial para o desenvolvimento.

Estes objetivos estão interligados e servem de base para uma agenda de desenvolvimento global, que orienta as nações nos seus planos nacionais sobre Desenvolvimento Sustentável.

O balanço dos ODM feito em 2010, mostra de um modo geral, houve progressos no alcance de metas, mesmo nos casos de previsão de incumprimentos. Por exemplo a esperança de alcançar o ensino primário universal até 2015 esmorece, apesar dos avanços enormes de muitos países pobres 4 (ONU, 2010: 15). Os progressos no alcance dos ODM têm sido desiguais entre países e regiões, conferindo desvantagens aos países em desenvolvimento; é manifesto que as melhorias na vida dos pobres têm sido inaceitavelmente lentas e que há alguns avanços duramente conquistados (Ban Ki-moon, 2010: 3).

4 Para se alcançar o ensino primário universal até 2015, todas as crianças com idade legal de ingresso no

ensino primário já deviam estar a frequentar a escola em 2009, tendo em conta a duração do ensino primário e a capacidade das escolas para manter os alunos a frequentar as aulas até ao final do ciclo (PNUD, 2010).

31 Associado ao ODM 8, o da parceria mundial, os países desenvolvidos empreenderam esforços em termos de fortalecer a coordenação, como por exemplo, a Declaração de Paris sobre a Eficácia da Ajuda e o Programa das Nações Unidas Deliver as one (Annan, 2007). Mencione-se que quanto ao apoio financeiro aos países mais pobres houve programas de apoio directo a orçamentos contribuindo para alavancar o desenvolvimento sustentável nalguns países incluindo Moçambique (MPD, 2010; IPEA, 2010). No processo de combate à pobreza foi crescente o alívio de dívida externa dos países mais pobres, (PNUD, 2011); o crescimento de exportações para os países em desenvolvimento aumentou em 49% em 2009, incluindo redução de taxas, uma medida de políticas macroeconómicas.

Esses esforços estão de acordo com o prescrito na Declaração do Milénio, que, reconhece que os países em desenvolvimento possuem fragilidade na implementação dos ODM e por isso deviam ser apoiados pelos desenvolvidos. PNUD (2000) destacou que os países em desenvolvimento não conseguiriam atingir as metas dos objetivos sem o apoio da comunidade internacional, apelando para que fossem firmados novos compromissos de ajuda, de regras comerciais equitativas e do alívio da dívida

O apoio financeiro dos parceiros de cooperação evoluiu desde o ano 2000, mas as cifras de doações ainda se mantinham abaixo dos compromissos assumidos (ONU, 2010). Este fato foi agudizado pela crise mundial de 2008, que obrigou a que muitos países em desenvolvimento aplicassem um adicional de 1.5% dos seus PIBs em ações relacionadas com os ODM.

Se bem que a atitude desses países em desenvolvimento, em buscar soluções internas, se pode considerar positiva, o fato é que tal medida influenciou o cumprimento de planos nacionais de desenvolvimento (PNUD, 2011). Apesar dessas contribuições, a avaliação que se faz desde a assinatura dos ODM mostra que a questão da parceria efetiva, sobretudo entre países do Sul e do Norte e o grau de apoio aos primeiros pode não ter sido suficiente ou adequado. Uma responsabilidade limitante dos progressos é atribuída para além da crise alimentar, económica e financeira mundial, às mudanças climáticas, aos desastres sociais e naturais que afetam o ritmo das intervenções bem assim a disponibilização de recursos financeiros.

Quanto as parcerias entre os países em desenvolvimento e a cooperação Sul-Sul, atingiu em 2008 cerca de 15 bilhões de dólares americanos, o que representou um aumento de 78% em dois anos. As iniciativas deste género continuam aumentando, com maior destaque da China cuja economia está em transição (PNUD, 2011). De acordo com a literatura, o continente africano, a Sul do Sahara teve um desempenho mais baixo em vários de seus indicadores, devido à pobreza e à fatores correlacionados. Todavia existem bons exemplos de países que revelaram bom desempenho, como Burkina Fasso, dentre 98 nações e territórios, apresentou progressos em 91,3% de 23 indicadores analisados Tsukada e Hailu (2010).

A interligação entre os ODM exige dos implementadores uma abordagem intersectorial muito forte, a qual nem sempre existe. Por exemplo, a pobreza (ODM 1), segundo a UNESCO (2005) contribui para baixos índices de escolaridade (ODM 2), com os quais as mulheres tornam-se mais propensas a fazer o aborto não seguro com implicações na mortalidade materna (ODM 5). Assim a abordagem multissectorial coordenada entre os sectores económicos como agricultura e pescas, a educação e a saúde é preponderante para melhor cumprimento de metas sectoriais que engrandecem o conjunto das metas estabelecidas para o cumprimento dos três ODM referidos.

Em Moçambique, o Governo em parceria com a Organização para Alimentação e Agricultura (FAO), o Fundo Internacional para o Desenvolvimento da Agricultura (FIDA) e o Programa Mundial de Alimentação (PMA) está a implementar o Programa Acelerar o Progresso para se Atingir os ODM 1C em Moçambique (2013-2017) visando contribuir na aceleração do progresso para atingir o ODM 1, reduzindo a fome. Esta iniciativa implementada com fundos do Governo e da União Europeia, constitui um exemplo de uma abordagem multissectorial a nível do Governo e das Organizações das Nações Unidas, atuando como deliver as one, visando expandir um conjunto de intervenções de sucesso e, assim, maximizar os seus resultados (Diehl, 2001; GoM et al., 2013). Outros desafios do País no alcance dos ODMs incluem os seguintes (ONU, 2010; MPD, 2010):

 Dar continuidade aos êxitos alcançados e expandir intervenções positivas;

 Continuar a colocar a questão dos Direitos humanos como alavanca do desenvolvimento sustentável;

33  Fortalecer o compromisso das lideranças internacionais e dos países mais ricos no

apoio aos mais pobres;

 Persistir na implementação de planos de acção numa parceria efetiva e

 Fortalecer a capacidade de intervenção em termos de capital humano, financeiro, físico, social e natural para uma implementação, monitoria e avaliação efectivas. Para acompanhar o processo de implementação e alcance das metas dos ODM, várias ações tiveram lugar em vários países e a sua divulgação célere e ampla impõe o uso de instrumentos adequados de divulgação para gestão do volume de informação. Nesse contexto as Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) são cruciais para monitoria e avaliação dos processos e criação de base de dados para partilha mais rápida e ampla (MPD, 2010; ONU, 2010). Conforme frisou Lobo (2001: 249) as TIC facilitam a vida melhorando a qualidade e capacidade de comunicação, mas exigem muito dos técnicos de comunicação que se vêem a braços com responsabilidades e novos desafios neste novo mundo. Tais desafios também se colocam sobretudo ao nível dos Países através de investimentos necessários para a inovação tecnológica e custos operacionais, para que os utentes de informação a tenham em tempo útil e de modo conveniente (Giddens, 2000; Ostrom & Hess, 2006; Gates, 2012).

Lobo (2001) ressalva que apesar desses avanços tecnológicos, a comunicação humana, portanto sempre foi e continuará a ser eficaz desde que sejam seguidos os princípios básicos de comunicação. Os desafios devem ser colocados aos vários atores a nível do mundo, nações e a todas as intervenções independentemente da sua dimensão (à nível macro e micro) para se atingir mais progressos em prol dos ODM.

O Desenvolvimento Sustentável nas suas dimensões pressupõe ações dinâmicas que suscitam discussões entre vários especialistas como ambientalistas e economistas na sua interpretação e formas de implementação (Ayres, et al., 2001; Baker, 2006). Como mencionou Lago (2006: 226) é necessário, mesmo assim, maior estímulo às instituições existentes para pesquisa científica e tecnológica, para o maior debate acadêmico e para a maior participação da sociedade civil. As análises desses especialistas devem ter em conta as dimensões económicas, ambientais e sociais, as mais consensuais emanadas no relatório de Brunstland (WCSD, 1987).

A partir de 2015: iniciou a fase de transição dos ODM para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentáveis (ODS). Toma-se a liberdade de se considerar esta fase de transição como o marco de uma nova fase na história de Desenvolvimento Sustentável no mundo, pelas mudanças que se esperam do documento aprovado a 25-27 de Setembro de 2015: Transformando Nosso Mundo: A Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, traduzidos em 17 ODSs e 169 metas (ONUBR, 2016: 1). Enquanto decorre o balanço final do desempenho dos ODM, o mundo decidiu iniciar um processo intergovernamental inclusivo e transparente que fosse aberto a todos através dos ODS. Com os ODS o mundo decidiu de forma considerada ambiciosa enveredar numa perspetiva de acabar com a pobreza em todas as suas vertentes, cimentando portanto os seus alicerces nos ODM. A era dos ODS inicia com um pentágono de 5 Ps traduzidos em determinação com Pessoas (determinação para uma ação), Progresso (determinação para que todos possam usufruir de uma vida próspera), Planeta (determinação na proteção do planeta para hoje e futuro), Parcerias (mobilização global de recursos para implementar a agenda em solidariedade entre nações) e Paz (sociedades pacíficas, justas e inclusivas e livres de medo) como um modelo a seguir para o sucesso de intervenções de desenvolvimento (ONUBR, 2016). A Conferência do Rio+20 teve lugar na Cidade de Rio de Janeiro, Brasil, marcando assim uma fase de reflexão para o Desenvolvimento sustentável, tomando em consideração os progressos dos ODMs (2010-2015). Para além do combate a pobreza os ODS compreendem as seguintes áreas temáticas diversificadas, como as seguintes:

[…] erradicação da pobreza, segurança alimentar e agricultura, saúde, educação, igualdade

de gênero, redução das desigualdades, energia, água e saneamento, padrões sustentáveis de produção e de consumo, mudança do clima, cidades sustentáveis, proteção e uso sustentável dos oceanos e dos ecossistemas terrestres, crescimento econômico inclusivo, infraestrutura e industrialização, governanção e meios de implementação.

(MRE-Brasil, 2015: 1) Depois de variadas discussões sobre o desenvolvimento sustentável, os três pilares (natural, económico e social) continuam válidos, sem descorar as várias opiniões sobre o aumento de pilares, devendo haver forte interligação entre os mesmos. Os analistas e os atores de desenvolvimento devem prestar atenção aos aspetos a seguir descritos por pilar (Sequinel, 2002; Mikhailova, 2005; Lago, 2006):

35 No pilar de desenvolvimento económico, deve-se priorizar uma abordagem integrada, promovendo um crescimento responsável de longo prazo elevando todos os sistemas aos vários níveis, desde a comunidade até global. O pilar de conservação de recursos naturais e meio ambiente dá ênfase a necessidade de reduzir o consumo de recursos, deter a poluição e conservar os habitats naturais, através de soluções economicamente viáveis. O pilar de desenvolvimento social atribui as necessidades das pessoas em todo o mundo em termos de emprego, alimento, educação, energia, saúde, água e saneamento ao mesmo tempo que se assegura o respeito pela diversidade sócio-cultural e os direitos laborais. Nestas recomendações, segundo ONUBR está evidente a preocupação com a plenitude das pessoas; as regiões geográficas no global e a preservação de recursos naturais e da diversidade social, ao mesmo tempo que se cria o bem-estar de todos:

Em nome dos povos que servimos, nós adotamos uma decisão histórica sobre um conjunto de Objetivos e metas universais e transformadoras que é abrangente, de longo alcance e centrado nas pessoas. Comprometemo-nos a trabalhar incansavelmente para a plena implementação desta Agenda em 2030. Reconhecemos que a erradicação da pobreza em todas as suas formas e dimensões, incluindo a pobreza extrema, é o maior desafio global e um requisito indispensável para o desenvolvimento sustentável. Estamos empenhados em alcançar o desenvolvimento sustentável nas suas três dimensões – econômica, social e ambiental – de forma equilibrada e integrada. Também vamos dar continuidade às conquistas dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio e buscar atingir suas metas inacabadas.

(ONUBR, 2016: 2) A extensão agrária é também um processo dinâmico que é influenciado por vários contextos (Swanson, 1981). O presente trabalho deverá considerar os mecanismos de envolvimento ativo dos beneficiários de extensão agrária para a melhoria da qualidade de vida dos cidadãos. Esta é a retórica dos analistas de desenvolvimento que reconhecem que nos anos 2000 houve ganhos em termos de melhorias na organização e fortalecimento de instituições, monitoria dos processos e a participação dos protagonistas de desenvolvimento.