7. Conversando sobre escolhas
7.1. Organizando os temas
Os temas foram definidos a partir de explanações que se organizavam em níveis padronizados e recorrentes dentro do conjunto de referências sobre a questão do orgânico. Organizei a congruência dos temas orientada pela definição de percepção por Ittelson (1978) e acompanhando as inferências que os próprios relatos traziam. De acordo com a exploração,
seria incoerente tratar algumas categorizações em classes isoladas (Social, Histórico, Cultural e Físico). Então, aspectos sociais e culturais foram agrupados em uma única categoria, a do eixodas implicações socioculturais. Segui o mesmo raciocínio com os aspectos históricos e culturais, que igualmente foram difíceis de serem dissociados. Assim, estabeleci o eixo das implicações histórico-culturais. As análises demandaram a formação do eixo do tempo na experiência ambiental, devido a recorrência prevalente e importante da questão temporal na forma que o orgânico era percebido pelos seus produtores e consumidores. A partir desse encadeamento, foram estabelecidos sete eixos temáticos que estruturaram as análises finais: eixo das experiências com a natureza; o da ambiência; da resiliência e afeto; das
implicações histórico-culturais; do valor do produto; do tempo na experiência ambiental
e da escolha ambiental.
O eixo da experiência com a natureza foi organizado a partir da prevalente ocorrência de relatos que referiam experiências de contato direto ou contemplativo com a natureza, bem como falas que remontavam à prática de atividades no ambiente natural, em diversas fases da vida dos entrevistados. De acordo com Diniz (2015), as experiências de vida e a formação do compromisso pró-ecológico estão interligados. Segundo a autora, práticas de compromisso pró-ecológico são marcadas por experiências com a natureza, sejam estas de contemplação de cenários de paisagem natural, conhecimentos tradicionais agrários, contato com o estilo de vida rural e experiências religiosas e espirituais com elementos da natureza. Dos oito entrevistados, sete participantes referiram experiências de práticas com a natureza em algum estágio da vida. A única entrevistada a não referir nenhumaexperiência de contato direto com a natureza, a Consumidora 02, também foi a única participante que estabeleceu como exclusiva motivação para aquisição do orgânico, questões individuais de saúde biológica (é compradora de orgânico há 17 anos).
O eixo da ambiência direcionou a compreensão não somente para aspectos físicos que pudessem influenciar a maneira como o orgânico era compreendido no contexto produtivo/comercial das feiras. Nessa direção, a ambiência foi considerada como qualidade da situação. Thibaud (2018) falando sobre a ambiência, enquanto qualidade da situação, cita Dewey (1938/1993) afirmando que, a situação opera como um mundo ambiental experienciado. Assim, a situação não é definida exclusivamente com formação de julgamentos a propósito de objetos ou de acontecimentos isolados, mas em conexão com um todo contextual. Para operacionalizar esse entendimento sobre situação, separei relatos que sinalizaram a globalidade da situação percebida. Ela deveria tratar de um contexto coerente e unificado, associado ao que Thibaud (2018) definiu por capacidade de agir ou plano de movimento. Segundo o autor, a ambiência é um conceito que trata de sensibilidade e motricidade.
A construção do eixo da resiliência e afeto estruturou-se a partir de diversos relatos relacionados à intensa dificuldade e renúncias decorrentes do comprometimento da escolha do alimento orgânico. Por parte dos entrevistados foi prevalente a disposição de se opor a um
sistema culturalmente padronizado de relações sociais superficiais, de pouco
comprometimento com questões ambientais e um tempo acelerado. Vale ressaltar que entre consumidores, por exemplo, procurei entrevistar pessoas que consumiam há mais de 5 anos o alimento orgânico no espaço das feiras. Os produtores entrevistados trabalhavam com a produção orgânica, entre 8 a 20 anos. Relembrando, de acordo com Bomfim, Delabrida e Ferreira (2018), a relação entre afetividade e percepção mostra que as emoções podem ser mediadoras da integração da realidade imediata e Russell e Lanius (1984) apontam que todo ambiente físico provoca emoções e uma avaliação afetiva, influenciando escolhas e explorações.
O eixo das implicações histórico-culturais foi organizado a partir de aspectos que sinalizaram identidades culturais estabelecidas socialmente no decurso do tempo, e que forneciam instruções para atuação nas feiras. De acordo com Maciel (2005) e Daniel e Cravo (2005), a cultura deve ser considerada como o conjunto de hábitos e tradições de um grupo social, associado a um programa, planos, regras e um sistema simbólico que orienta o comportamento. As autoras defendem que, por meio de espaços diferenciados, as pessoas apreendem determinados processos, por meio dos quais os grupos sociais marcam sua distinção, se reconhecem e se veem reconhecidos. Elas citam como exemplo, rituais envolvidos no preparo dos alimentos, as formas de disposição de utensílios à mesa e a aquisição de produtos em mercados como feiras.
A partir dessas compreensões, Maciel (2005) e Daniel e Cravo (2005) defendem que os espaços e as maneiras escolhidas pelas pessoas para se alimentar neles, participam de suas identidades sociais. Nesta categoria, os temas foram organizados a partir de sinalizações que atuaram como um programa de instruções, rituais e memórias que orientaram o comportamento das pessoas. Essas orientações carregavam referências a normas sociais predominantes no trabalho cooperativo das feiras e as maneiras pelas quais o alimento orgânico era adquirido pelos seus compradores.
Em relação ao contexto histórico considerei relatos dos produtores, os quais envolviam aspectos sobre a evolução histórica do modo produtivo do orgânico e dos aspectos organizacionais das feiras. Para o contexto do consumidor, acatei os relatos que sinalizavam maneiras de organização pessoal que transcorreram com passar dos anos que de alguma forma traziam ênfase no consumo de orgânico (questões individuais, coletivas e de interação).
Como referência para essa síntese histórico-cultural em sistemas alimentares, Dahlberg (2001) ressaltou a importância das transformações nas organizações alimentares com o passar do tempo. O autor relata que mudanças estruturais na forma de produzir e
comercializar alimentos pelos anos, não só alterou questões organizacionais de práticas agrícolas ou de aquisição de produtos, mas que interferiram em relações de status social, em aspectos ritualísticos e práticos. O autor afirma que as evoluções históricas nos sistemas alimentares interferiram em valores culturais e nos sistemas de conhecimento das pessoas, citando como exemplo, as grandes revoluções agrícolas no mundo.
O eixo do valor do produto trata da forma comque o orgânico era percebido por seus produtores e consumidores em relação a valor das implicações positivas que sua produção e o seu consumo expressava, e não em relação a valor monetário. Segundo Azevedo (2012), para consumidores de orgânico, o preço não é empecilho para a aquisição, uma vez que a aquisição é mediada pelo conhecimento sobre o produto, seus aspectos de saúde fisiológica, qualidade de vida para futuras gerações, preservação de ecossistema naturais e impacto social nos processos de trabalho. A autora posiciona que para produtores existe uma dignificação do trabalho pela produção de um alimento ajustado ambientalmente, que em questões de associativismo estimula o desenvolvimento local, permite rede de comercializações e promove a saúde do trabalhador. Ela sintetiza que esses modos de compreensões atuam como formas de se perceber o orgânico como um produto de “valor inestimável” (p.165).
No eixo do tempo na experiência ambiental considerei aspectos relatados que abrangessem decisões em torno do orgânico por meio de processos dinâmicos, de sequência, ritmo e duração, para consumidores e produtores. De acordo com Pinheiro (2018) e Pinheiro e Gurgel (2011), a participação do tempo nas relações das pessoas com o ambiente, permite reações a processos, eventos, permanências e mudanças. Em abordagens ecológicas, a dimensão temporal integra a pessoa, como um elemento subjetivo, faz parte da interação pessoa-ambiente e participa do ambiente físico externo aos indivíduos. Pinheiro e Gurgel (2011) declaram que é a partir da perspectiva temporal que o foco de análise se amplia para além da pessoa, em direção ao contexto.
E, por fim, o eixo da escolha ambiental, o qual foi formado a partir de relatos prevalentes da escolha do orgânico por questões socioambientais. Compuseram esse eixo relatos que remetiam esta escolha por processo intuitivo e racional, baseadas nos níveis individuais de análise. Para entender a relação entre o individual e o grupal, no que diz respeito a escolhas que envolvem a relação entre pessoa e o ambiente sociofísico, Delabrida e Almeida (2018) apontam a premissa de Bonnes e Bonaiuto (2002), que afirmam que:
Escolhas comportamentais pró-ambientais se referem não apenas ao problema da intenção intra-individual e relacionada à típica escolha comportamental individual do comportamento de ajuda altruísta, mas predominantemente ao problema da convergência versus divergência entre a escolha individual e a escolha coletiva a respeito da mesma necessidade ambiental percebida. (p. 40)
Esses foram os eixos temáticos que nortearam as análises e, na sequência, descrevo as informações exploradas nas entrevistas tratando de aspectos do contexto produtor e consumidor.