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OS ARQUIVOS (MORTOS) DA REDE MUNICIPAL DE ENSINO DE PORTO ALEGRE

No documento O RENDIMENTO DA ESCOLA BRASILEIRA EM QUESTÃO (páginas 134-137)

A informação escolar do aluno tem seu início no momento da matrícula, com o preenchimento da ficha cadastral, constituindo-se em uma peça-chave na relação entre a escola e o aluno. Após a realização da matrícula, esse aluno é enturmado e, portanto, aparecerá numa lista vinculada a uma turma, fazendo parte da lista de chamada na qual será contabilizada sua frequência. Esses são os primeiros passos realizados na escola até esse aluno se transformar em número para as estatísticas educacionais. Para fazer a mensuração dos alunos classificados como matriculados, frequentes ou outra situação relacionada ao afastamento, bem como para os resultados finais de aproveitamento escolar, até a primeira metade dos anos 1990, havia a confecção de quadros estatísticos com contagem realizada manualmente. Esse procedimento foi sendo aperfeiçoado e, aos poucos, os nomes começaram a ser contados pelo Sistema de Informações Educacionais (SIE)30 e os quadros passaram a fazer parte de relatórios produzidos pelo próprio sistema informatizado.

Para exemplificar essa sistematização de dados, a Figura 1 abaixo mostra o Quadro Demonstrativo do Movimento Geral da Rede Municipal de Ensino, produzido pela Secretaria Municipal de Educação (SMED), na qual é possível visualizar o movimento do alunado ocorrido ao longo do ano. Assim, no ano de 1988, os eliminados correspondiam ao somatório dos Transferidos, Evadidos e Mortes e o número de suficientes, estava classificado entre Diurno e Noturno, além do cálculo percentual de suficientes que foi realizado sobre a Matrícula Real.

30 SIE – Sistema de Informações Educacionais – sistema informatizado implantado na RME na década de

1990, com funcionamento em todas as escolas para alimentação das informações. Espelhou-se na estrutura do Censo Escolar (INEP), com objetivo de viabilizar a migração de dados.

Figura 1: Quadro Demonstrativo do Movimento Geral da Rede Municipal de Ensino - 1988

Fonte: PIE/SMED – Caixa: Quadros Censo 81 a 99; Acervo da autora (2016).

Ao analisar esse Quadro em diferentes anos foi possível comparar os termos utilizados para sistematizar os dados educacionais. Chamam a atenção os dois termos empregados: os alunos que deixaram de frequentar a escola são tratados como eliminados, e os alunos que avançaram para a série seguinte são os suficientes. São termos que exprimem a relação entre a classificação utilizada nas estatísticas e o pensamento pedagógico vigente naquele período. A palavra “eliminar” tem sua origem do latim eliminare, composto pelo prefixo ex que significa fora e a raiz limen, que significa limite (pensado como o limite da casa), ou seja, “se colocar fora de casa”31. Assim, pode-se interpretar que a utilização do adjetivo “eliminado” na educação tem o sentido de se colocar para fora da escola, “fazer sair, tirar, suprimir, excluir” 32 da sala de aula. O termo “suficiente” vem do latim sufficiens, significando “aquilo que basta” 33, que para educação seria classificar os alunos suficientes como aqueles que atingiram o bastante para poder avançar. Já o contrário seria o insuficiente, aquele que não atingiu o mínimo.Esses termos

31 Disponível em: <http://etimologias.dechile.net/>. Acesso em: 20 jul. 2017. 32 Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, 1986 (p. 627).

foram substituídos nos quadros, a partir de 1991, por Alunos Afastados e por Aprovados/Reprovados, sendo tratados assim até os dias de hoje.

Observa-se ainda que, a partir dos anos 1990, a categoria Cancelamento foi incluída no Quadro e já representava um número significativo, certamente absorvendo situações que antes eram classificadas como Evasão. Em 1989, apresentava 1.912 alunos evadidos, enquanto que no ano de 1990, esse número passou para 1.307 evadidos e 323 cancelamentos e, em 1994, 1.207 evadidos e 467 cancelados, com as duas situações classificadas como alunos afastados.

Nesse trilhar, ficaram algumas perguntas: Qual a diferença conceitual entre evadidos e cancelados? Como as escolas classificavam os alunos afastados e quais os critérios? Procurou-se, então, as definições sobre esses termos em documentos oficiais. Entretanto, há de se considerar a possibilidade de uma classificação ambígua sobre os termos evasão e cancelamento. Segundo Gil e Caldeira (2011, p. 168), “[...] a ambiguidade das categorias é um elemento que precisa ser levado em conta quando da análise das estatísticas oficiais”, podendo haver “equívocos” nas suas interpretações para classificar uma situação ou outra.

O que difere Cancelamento de Evasão? Verificou-se que essa pergunta foi realizada pela rede municipal, de tal forma que a SMED emite um Parecer Nº 01/93 para responder à consulta sobre evasão escolar e cancelamento de matrícula. Nesse documento, é feita a distinção entre a Evasão imediata e mediata. A primeira é “[...] aquela que ocorre durante o ano escolar. Indica a diferença que se verifica entre a matrícula inicial e a matrícula final” (SMED, 1993). Já a evasão mediata é caracterizada por ocorrer “[...] após o término do ano letivo e se expressa pela diferença entre o número de aprovados e reprovados de um ano e a matrícula nova do ano seguinte” (SMED, 1993). Assim, o cancelamento compulsório da matrícula para o aluno infrequente se refere à evasão imediata. Entretanto, o documento responde ainda se é de competência da escola cancelar compulsoriamente a matrícula do aluno evadido? Segundo o documento, pelos dispositivos legais existentes, não é permitido à escola o cancelamento compulsório da matrícula do aluno evadido.

Tanto na evasão imediata quanto na mediata. Ao invés de fechar suas portas ao evadido devem as administrações criar mecanismos que possibilitem controlar o cumprimento da obrigatoriedade escolar, através do esforço de reconduzir à escola os alunos que se evadem. [...] Assim, em vez de ao arrepio da lei, afastar da escola o aluno

infrequente, faz-se mister a busca de novas alternativas para evitar a evasão, a procura de novos caminhos que tragam de volta o que já se evadiu, para que em futuro próximo possamos substituir a expressão “meninos-de-rua” por “meninos-de-escola”. (SMED, 1993).

AS DEFINIÇÕES SOBRE O AFASTAMENTO ESCOLAR E O DEBATE SOBRE

No documento O RENDIMENTO DA ESCOLA BRASILEIRA EM QUESTÃO (páginas 134-137)

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