2. Da problemática aos objetivos
3.3. Os contextos e as técnicas de investigação
Os locais abaixo referidos destacam os principais espaços onde o Tiago se movimenta. Por essa razão, foram os selecionados para a recolha de informação mais pertinente para este estudo de caso. Foram realizadas observações ao Tiago, registadas em notas de campo, nos escuteiros, em atividades do âmbito familiar, entre outras (Tabela 7). Algumas das fotografias recolhidas nos contextos observados encontram-se no Anexo 2.
Tabela 7 - Contextos de pesquisa e técnicas utilizadas
Contextos Pesquisa Técnica utilizada
Casa do sujeito Recolha de documentos médicos
Acesso a fotografias e registos familiares
Levantamento das estruturas facilitadoras arquitetónicas
Entrevista
Escuteiros Atuação do sujeito em grupo/ interpares
Observação Registo Fotográfico
Paróquia Observação
Escola Recolha de testemunho da progenitora
Entrevista Espaços públicos Acessos na via pública
(Multibanco, ruas, lojas)
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3.3.1. A entrevista
A Entrevista é um método de recolha de dados individual ou em grupo, com pessoas previamente selecionadas. A entrevista é uma conversa intencional entre duas ou mais pessoas com o objetivo de dela extrair informações.
Foram realizadas entrevistas a três pessoas mais próximas do Tiago: a progenitora, a irmã e o seu primo direito.
3.3.1.1. As vantagens e desvantagens da entrevista
A entrevista tem grandes vantagens. Uma delas é a sua adaptabilidade. Um bom entrevistador é capaz de adaptar o seu discurso ao entrevistador sem perder o seu fio condutor, mas aproveitando todas as oportunidades de reunir os detalhes importantes à recolha de informação que pretende fazer junto do seu entrevistado. A entrevista permite uma recolha de um grande número de dados, apresentando algumas desvantagens, já que requer pessoal especializado. Existe um custo elevado inerente à realização de uma entrevista, podendo estar envolvidas deslocações e disponibilidade de tempo. Podem ainda existir problemas de fiabilidade na codificação da mensagem (Bogdan & Biklen, 1994).
Na realização das entrevistas, para este estudo, foi possível ir adaptando as perguntas inicialmente delineadas, ao discurso do entrevistado, sendo que algumas surgiram sem que estivessem delineadas. Este aspeto enriqueceu a entrevista já que possibilitou a recolha de mais informação.
3.3.1.2. Os diferentes tipos de entrevista
Existem vários tipos de entrevista: estruturada, semiestruturada ou não estruturada. Numa entrevista não estruturada, é feita a exploração e o aprofundamento das questões através de perguntas abertas. Normalmente, não é elaborado um guião e o entrevistado não é objeto de manipulação. Numa entrevista estruturada, a conversa é sistemática ou estandardizada. As perguntas estão previamente definidas através de questões fechadas. Este tipo de entrevista facilita a análise de dados, mas por outro lado retira espontaneidade e
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flexibilidade ao discurso, não permitindo o aprofundamento das questões. Existem ainda as entrevistas semiestruturadas. Neste modelo há flexibilidade na exploração das questões. Podem utilizar-se diferentes tipos de pergunta ao longo de uma entrevista, mas um bom entrevistador comunica ao sujeito o seu interesse pessoal e incentiva a que se exprima livremente até com as suas expressões faciais (Bogdan & Biklen, 1994).
Neste estudo de caso foram utilizadas as entrevistas semiestruturas já que o entrevistador tem espaço de manobra na conversa para acrescentar detalhes que considere relevantes para a caracterização da situação.
3.3.1.3. A imparcialidade
Como os entrevistadores são seres humanos, existe sempre o perigo de se influenciar os entrevistados. Não podem ser descurados os aspetos não-verbais que podem ainda influenciar a resposta do entrevistado. Se por exemplo, o entrevistador estiver com uma expressão pesada, pode dar a entender que não era a resposta que estava à espera. O tom de voz também pode trazer alguma ansiedade à conversa. A mesma pergunta feita com enfases distintos podem resultar em duas respostas diferentes. É preciso procurar a máxima objetividade e imparcialidade (Estrela, 1994).
3.3.2. A observação
No estudo de caso, uma das possíveis técnicas que o investigador poderá utilizar para a recolha de dados é a observação. Esta técnica tem desempenhado um papel muito relevante em processos de diagnóstico e avaliação (Estrela, 1994).
Simpson e Tuson (1997) referem que o observar passa a ser considerado uma técnica de investigação quando registamos e interpretamos o que vemos; quando decidimos que informação queremos recolher e como vamos recolhê-la.
Quivy e Campenhoudt (1998) referem-se à observação como “etapa intermédia entre a construção dos conceitos e das hipóteses e o exame dos dados utilizados para as testar” (p.155) e ainda como “o único método de investigação social que capta os comportamentos no momento em que eles se produzem e em si mesmos sem a mediação de um documento ou de um testemunho” (p.196).
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Lessard-Hébert, Goyette e Boutin (2008) salientam a observação como um processo seletivo, uma vez que não é possível observar toda a realidade e referem-se à observação enquanto conjunto de utensílios de recolha de dados e enquanto processo de tomada de decisão: o quê ou a quem observar? Como observar e registar os dados? Quando? Onde? Por quem?
A observação e o seu registo, constituem-se assim como formas importantes de recolher informações. Segundo Patton (2001), a técnica de observação é um trabalho de campo que implica descrição de atividades, comportamentos, ações, conversas, interações interpessoais, processos organizacionais ou de comunidade ou qualquer outro aspeto observável pela experiência humana. Esta técnica permite que o investigador compreenda determinado contexto e fenómeno, promove uma abordagem indutiva, possibilita que se vejam as coisas que não poderiam ser vistas de outra forma, possibilita ainda a descoberta de aspetos espontâneos não captados numa situação de entrevista e possibilita o acesso direto ao conhecimento pessoal (Cohen, Manion, & Morrison, 2000).
A observação pode ser estruturada ou naturalista. Para Cohen, Manion e Morrison (2000) na observação estruturada, o investigador deverá saber anteriormente o que vai observar devendo estar essa informação organizada em categorias. Neste tipo de observação, as hipóteses já estão definidas e os dados obtidos pela observação vão servir para confirmá-las ou refutá-las. Na observação naturalista não está tão claro o que se vai observar, dando-se atenção aos acontecimentos antes de decidir sobre a sua relevância para o estudo.
Neste caso concreto foi utilizada uma observação naturalista porque se pretendia recolher dados que caraterizassem a atuação do sujeito, no quotidiano. O registo das observações foi feito através de protocolos e de notas de campo. Para que as anotações estejam de acordo com o objetivo da pesquisa é necessário um planeamento prévio do que deve ser anotado e observado, delimitando claramente o foco da investigação para não desviar da proposta inicial da pesquisa.
Autores como Ludke e André (1986) e Bogdan e Biklen (1994) apresentam várias sugestões sobre o que deve ser incluído nas notas de campo. O conteúdo das observações deve conter uma parte descritiva e uma reflexiva: a parte descritiva compreende um registro detalhado do que ocorre no campo:
descrição dos sujeitos: sua aparência física, seus maneirismos, seu modo de vestir, de falar de agir;
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reconstrução de diálogos: utilizar as próprias palavras, os gestos, os depoimentos, as observações entre sujeitos ou entre estes e o pesquisador (as citações são extremamente úteis para analisar, interpretar e apresentar dados);
descrição dos locais: o ambiente onde é feita a observação deve ser descrito e o uso de desenhos ilustrando a disposição dos móveis, o espaço físico, a apresentação do quadro de giz, dos cartazes dos materiais de classe podem também ser elementos importantes a ser registrados;
descrição de eventos especiais: as anotações devem incluir o que ocorreu, quem estava envolvido e como se deu esse envolvimento;
descrição das atitudes: devem ser descritas as atividades gerais e os comportamentos das pessoas observadas, sem deixar de registar a sequência em que ambos ocorrem;
os comportamentos do observador: sendo o principal instrumento da pesquisa, é importante que o observador inclua nas suas anotações as suas atitudes, ações e conversas com os participantes durante o estudo.
A reflexão acerca das anotações inclui as observações pessoais do pesquisador, feitas durante a fase de recolha: as suas especulações, sentimentos, problemas, ideias, impressões, dúvidas, incertezas, surpresas e deceções.
Segundo Bogdan e Biklen (1994) as reflexões podem ser analíticas quando se referem ao que está sendo aprendido no estudo, novas ideias surgidas; ou metodológicas se envolvem os procedimentos e estratégias metodológicas utilizadas, problemas encontrados na obtenção de dados e forma de resolvê-los.
Referem ainda os mesmos autores que na mudança na perspetiva do observador devem de ser anotadas as expectativas, opiniões, preconceitos do observador e sua evolução durante o estudo. As anotações devem ainda conter pontos a serem esclarecidos, aspetos que parecem confusos, relações a serem explicitadas, elementos que necessitam de maior exploração.
As anotações devem ser feitas o mais próximo possível do momento da observação. Porém, se o observador for participante torna inviável fazer anotações durante a observação, pois irá comprometer a interação com o grupo. Assim o pesquisador deverá encontrar o mais breve possível, um momento para que possa registar e completar as suas notas.
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Neste estudo, o observador não quis revelar a sua condição pelo que o registo de notas foi realizado posteriormente.
Importa lembrar que não existe um método de recolha de dados infalível, pelo que devemos valorizar os pontos fortes e minimizar as fraquezas da técnica utilizada. Foster (1996) aponta como vantagem o acesso direto ao objeto/sujeito que queremos estudar. A sua maior limitação é o risco de o observador registar o que pensa que se passou e não, necessariamente, o que se passou.
Em relação ao Estudo de Caso, há preferência pela observação naturalista, feita pelo próprio investigador, já que pode correr-se o risco de atribuir significado ao mesmo tempo que observa, ou seja, exercer uma interpretação direta e subjetiva sobre os dados recolhidos.
Assim, o registo dos dados observados deve ser feito da forma mais integral possível: contexto físico, social, histórico, económico, cultural, os acontecimentos, sons, falas, etc. Quanto mais pormenorizada for a descrição do investigador, mais fidedigna será a leitura por parte do leitor.