OS BOTÕES INTELIGENTES
OS ESTEREOGRAMAS, E OS FRACTAIS
A perspectiva, como vê a física, é capaz de ilustrar, hoje, como as noções de bidimensionalidade e tridimensionalidade,
por exemplo, ampliadas pelo
desenvolvimento computacional, mostram- se hábeis para produzir ilusões que são, paradoxalmente, críveis.28 Gilles Gaston Granger considera a perspectiva como uma “nova espécie de obstáculo irracional”, quando afirma, referindo-se à pintura, que “existe uma impossibilidade racional, matemática, de transportar sobre a tela de duas dimensões todos os aspectos visíveis do objeto tridimensional”(2002, p.85). Mas a tela tecnológica, da mesma forma bidimensional nos faz perceber a tridimensionalidade, que não deixa de ser também uma ilusão, embora seja a ilusão das máquinas modernas e sua criação de imagens e não mais a ilusão da imagem pictórica. A tecnologia produz seus truques e tais truques computacionais, usados pelo cérebro para construir um modelo 28 Os estereogramas podem ser impressos ainda que não estejam otimizados para isso. É preciso
impressora de alta resolução mas, mesmo assim, qualquer modificação pode "estragá-lo". Imagem de
um cálice. Disponível em:
http://personal.telefonica.terra.es/web/emiliomartin2002/estereogramas.htm. Acesso em: 18 agost. 2006..
tridimensional a partir de duas imagens bidimensionais, são espantosamente sofisticados, constituindo a base daquelas que sejam, talvez, as mais impressionantes de todas as ilusões. Estas remontam a descoberta do psicólogo húngaro Bela Julesz, em 1959, que são os estereogramas; belo exemplo da percepção, ou não percepção, de imagens fantásticas e tridimensionais vistas na anterior tela bidimensional. Os estereogramas comprovam que somos capazes de ver além do visível e perceptível. Seria, então, muito absurdo considerar que o mesmo processo acontece com a literatura e a arte em relação à ciência, já que somos capazes de ver além da realidade visível e comprovada, e testada pela ciência que se diz exata? A resposta “não, não seria absurdo”, nos instiga a pensar e considerar o possível. Os estereogramas comprovam que existe mais coisa além do constatável e a questão da invenção “científica” talvez pudesse se fazer entender por isso, já que não é a criação do absurdo, ou seja, a possibilidade está lá, mas é preciso conseguir ver. Talvez alguns escritores e artistas tenham a capacidade de “ver” antes, mas como suas construções mentais não se baseiam na construção objetiva e comprovação, elas aparecem como “invenções” e, como tal, serão contestadas pela razão que, em princípio, as nega até um dado momento em que venham a ser testadas e comprovadas. Daí, atingem a classificação daquilo que chamam de realidade e deixam, automaticamente, de ser nomeadas “ficção”.
Dizer que arte, ciência e tecnologia podem andar juntas e que essa seria a nossa nova realidade, parece-me, em princípio, uma afirmativa frágil e repetitiva. Não acho que devam se “misturar” nestas proporções pois, nesse caso, perderiam até mesmo suas especificidades, e esse não poderia ser o objetivo. Mas, enxergar que não pertencem a universos distintos, que existem relações de construções comuns permitiria que a arte não fosse mais percebida como um universo tão subjetivo, a ciência como outro universo tão objetivo e a tecnologia como algum resultado do desenvolvimento da ciência e, como tal, alheia a arte. Ou, caso a arte se misture com estas, o resultado não seria, em princípio, uma obra de tal maneira diferenciada que não seria sequer classificada como arte. Por que tudo isso? Há alguma objetividade neste pensar? Acredito que sim. Para a maneira como se estrutura o pensar humano nos nossos dias, e essa visão seria meio instintiva já que não estaria aqui amparada em nenhuma análise sociológica, psicológica ou antropológica, considerar a arte
como absolutamente ficcional, criada e imaginada, e a ciência como um resultado irrefutável de pesquisas distingue ambas e não possibilita a percepção de que existem influências e discursos que se refletem nas duas, o que permite uma visão mais ampla e abrangente do universo de construção do próprio ser.
Os estereogramas poderiam, então, aparecer aqui como exemplos, pois são fotografias que não nos dizem nada,
aparentemente, no entanto, ao fixar os olhos em um ponto qualquer durante alguns segundos, nos proporcionam uma sensação de profundidade, podendo-se ver em três dimensões. Um estereograma, dentro do estudo da ótica, da física, forma imagens em29
terceira dimensão. A imagem tridimensional que se forma no estereograma é essa outra, resultado do meu discurso de olhar.
Por meio de uma seqüência repetida de imagens, onde até o espaço em branco é parte integrante, um estereograma era, até há alguns anos , considerado como verdadeiramente mágico, e sua construção exigia muitos cálculos de perspectiva. Hoje, programas de computador são capazes de, sozinhos, lidar com essas medidas coordenadas produzindo, também, a noção da estética, que a arte é capaz de traduzir e alcançar. Por exemplo, se uma seqüência de letras (abcdefg) aparecer repetidamente numa linha, ou ainda em várias linhas, a figura estereográfica estará construída, formando uma nova imagem30.
abcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefg abcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefg abcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefg abcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefg abcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefg abcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefg abcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefg abcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefg abcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefg abcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefg abcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefgabcdefg31 29 As imagens dos estereogramas selecionados permitem ver mais do que o exemplo das letras.
Imagem de “dois golfinhos” .Disponível: http://personal.telefonica.terra.es/web/emiliomartin2002/estereogramas.htm
30 Foi o físico David Brewster que, em 1844, descobriu que uma imagem “com um padrão
repetido”dava uma sensação de profundidade. Os estudos sobre a visão, feitos pelo investigador Bela Julesz, deu a possibilidade de, em 1979, Christop Taylor gerar os primeiros estereogramas num computador.
31Para ver um estereograma é preciso convergir os olhos para a imagem. Isso não é fácil, pois fomos
treinados para fazer exatamente o contrário. Disponível em:
Vivemos em três dimensões, contudo, na troca de idéias, informações e imagens somos limitados a duas dimensões - imagens impressas ou na tela são bidimensionais. Entre as inúmeras técnicas para passar do mundo bidimensional para o tridimensional, a mais antiga é a plástica e a mais complexa, a holografia. O estereograma apresenta-se entre as duas e depende da tecnologia, no entanto, artistas encontraram nele toda uma construção estética.
Além dos estereogramas, os fractais, com seus infinitos detalhes, podem ser gerados por padrões repetidos e dão origem a um objeto geométrico que pode ser dividido em partes, cada uma das quais semelhante ao objeto original. Associados à ciência matemática, pois correspondem, na verdade, a cálculos matemáticos, embora possam não expressar diretamente uma experiência humana, é difícil constestar o prazer estético que proporcionam. Assim, apresentam-se como resultado da interação entre arte e ciência ou ciência e arte, tornando possível para o artista a percepção de formas analíticas e, para o cientista, o que se esconde atrás dos sentidos, das
incertezas e das emoções estéticas da arte. O matemático Benoit Mandelbrot, o “pai dos fractais”, percebeu que as linhas retas, os círculos, os pontos, não eram completamente adequados para compreender a complexidade da natureza, e afirmava que "Nuvens não são esferas, montanhas não são cones, continentes não são círculos, um latido 32
não é contínuo e nem o raio viaja em linha reta." Sua pesquisa “forneceu teorias matemáticas para o fenômeno da probabilidade errática”33,e sua geometria enriqueceu tanto a matemática como a arte.
32Imagem do conjunto de Mandelbrot, obtido quando submete-se números complexos a um processo
iterativo, ou seja, algo que se repete dentro de uma seqüência. O interessante é que uma eternidade não seria tempo suficiente para observarem-se todas os detalhes deste fractal.
Disponível em:http://www.educ.fc.ul.pt/icm/icm99/icm14/conjmandelbrot.htm. Acesso em: 15 abr. 2007.
A ciência dos fractais apresenta
estruturas geométricas de grande
complexidade e beleza infinita, ligadas às formas da natureza, ao desenvolvimento da vida e à própria compreensão do universo. São imagens de objetos abstratos que possuem o caráter de onipresença por terem as características do todo infinitamente
multiplicadas dentro de cada parte,
escapando assim, da compreensão em sua totalidade pela mente humana. Essa geometria, nada convencional, tem raízes remontando ao século XIX e algumas indicações neste sentido vêm de muito antes, na Grécia Homérica, Índia, China, entre outros. Porém, somente há poucos anos vem se consolidando com o desenvolvimento dos computadores e o auxílio de novas teorias nas áreas da física, biologia, astronomia, matemática e outras.34
A dúvida, neste momento, é pensar se uma imagem fractal ou um estereograma podem ou não ser considerados uma obra de arte. Ambos pertencem à nova geometria, a noções espaciais e dimensionais da física, aos cálculos matemáticos reproduzidos em computadores. As imagens fractais podem ser ampliadas infinitamente. Os estereogramas precisam dos meus dois olhos e minha possibilidade de visão estereoscópica, caso contrário não seriam sequer vistos. O que parecia tão difícil de ser concebido, mas nunca de ser imaginado, pode ser ilustrado visualmente. O que parece até hoje tão distante nos discursos cotidianos e coloquiais, sempre esteve envolvido num intricado jogo de conhecimentos e saberes. Pensando sobre a arte e nos precipitando sobre alguns textos literários, voltaremos aos fractais.