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CAPÍTULO 2 O VALOR ECONÔMICO DA ÁGUA

2.4 OS MÚLTIPLOS USOS DA ÁGUA

Reconhecido que os recursos hídricos são utilizados de várias formas pelos mais diversos usuários, e todas podem comprometer o seu estado atual de conservação, a Lei 9.433/97 regulou políticas públicas de forma não setorial como ocorria com o setor de geração de energia elétrica. O artigo 1º da Lei, dispõe que a gestão dos recursos hídricos deve proporcionar os usos múltiplos da água. Nos artigos 5°, II e 9º determina que as Políticas Públ icas devem considerar o enquadramento diferenciado dos corpos d’água conforme a natureza preponderante do uso, para assegurar qualidade das águas compatível com os usos mais exigentes e diminuir os custos de combate à poluição das águas, mediante ações preventivas.

A água pode ser utilizada, por exemplo, para abastecimento urbano e rural, irrigação, piscicultura, indústria, navegação, geração de energia elétrica, lazer e outras atividades. No entanto, as várias formas de utilização dos recursos hídricos implicam em efeitos diferenciados tanto quantitativo como qualitativamente.

Granziera (2001, p. 123) utilizando o pensamento de Goult e Grant classifica a utilização da água da seguinte forma,

a) pela quantidade apenas derivada de seu curso natural, podendo ser lançada de volta posteriormente;

b) pela quantidade consumida, quando a mesma se incorpora a um produto ou perde-se na atmosfera e não mais retorna ao corpo hídrico em que foi captada.

Considerando os usos em que a água não é captada, mas utilizada no próprio corpo d’água, ou ainda com o lançamento de dejetos e poluentes, não há uma perda quantitativa, mas qualitativa. Da mesma forma que a captação para incorporar um novo produto retira o recurso natural, sem reposição compensatória.

A partir destes aspectos, Caubet (2004) divide os usos consuntivos e poluentes, conforme exposto no Quadro 2.

Tipos de uso Uso consuntivo Uso poluente

Navegação X

Recreação X

Geração de energia X (por evaporação)

O autor assinala que sim e não, o que torna questionável sua classificação, embora destaque que causa deslocamento de população,

perdas de terras agricultáveis, alteração de regimes hídricos, extinção de espécie da fauna e da flora, indução de atividades sísmicas criação de microclimas e de gases de efeito estufa.

Pesca X

Agricultura X (irrigação)

X (agrotóxicos, eutrofização, subda do lençol freático, salinização do solo e da água) Usos urbanos X (destaca que a disposição final de efluentes e resíduos sólidos não é

consuntivo, mas causa poluição) X Industrial X (Insumos em processo de produção) X Controle de cheias X Urbanização X Termelétricas a carvão X X Garimpo de Ouro Exploração de areias e cascalhos X Quadro 2 = Usos consutivos e poluentes

Fonte: Caubet (2004, p. 22)

Caubet (2004) explica que os usos consuntivos provocam o

desaparecimento da água utilizada, como na incorporação a um produto final ou desaparece nos processos de produção, por evaporação. Da análise percebe-se que os usos consuntivos e poluentes não são conseqüências, nem são interdependentes.

Nos usos consuntivos decorrentes de captações e derivações, quando há retorno, somente parte da água retirada é devolvida às suas fontes. Ainda assim, em outras condições de estado. Nos usos não consuntivos, mesmo que haja captação, a água retorna integralmente para a mesma fonte.

A utilização da água, porém, acarreta modificações qualitativas e quantitativas de seu estado natural, motivo porque existem políticas que pretendem limitar e determinar as condições de seu uso. Ocorre que o uso da água está cercada de problemas ainda não solucionados, essencialmente pelo custo que representam e a ausência de uma consciência e cultura que prima pela preservação ambiental. Como informa Rampazzo (2007, p. 14), em uma civilização que coloca a tecnologia a serviço da economia, os diferentes usos da água geram inúmeros problemas. Exemplifica o uso doméstico da água que somente poderia ser devolvida aos cursos d’água depois de receber tratamento adequado, mas, por razões

econômicas, devido o alto custo deste tratamento, as entidades de fornecimento de água e esgoto “muitas vezes despejam o esgoto sem qualquer tratamento”.

Rampazzo (2007, p. 15) ainda exemplifica o uso pela irrigação brasileira, pois para produzir 1 tonelada de grãos são necessários 1 mil toneladas de água, sem considerar “a sustentabilidade de ecossistemas frágeis como os Cerrados, o Pantanal e a Amazônia”.

Assim, também o setor elétrico causa reassentamento da população e desflorestamento destinada à construção das barragens, inundando solos férteis alterando a biodiversidade causando assoreamento de rios.

Aliás, até a primeira metade do Século XX, o grande usuário no Brasil era o setor de energia elétrica. A partir de 1960, com a intensificação das atividades industriais e da incrementação da agricultura, a exploração da água aumentou de forma significativa. Também aumentou a demanda para atendimento das populações cada vez maiores, e ainda em crescimento desordenado e diferenciado em certas regiões.

No decorrer dos anos de 1980 aflorou com maior clareza o conceito de usuários múltiplos. O reconhecimento desta multiplicidade ensejava regulamentação a fim de evitar conflitos entre os novos usuários, e aplicar medidas de contenção que fossem adequadas às características principais da atividade.

Seguindo os apontamentos de Fernandes; Garrido (2003), apresentam-se como principais usos da água: abastecimento urbano; abastecimento industrial; dessedentação de animais; agricultura irrigada; geração de energia elétrica; pesca; psicultura e aquicultura; navegação; lançamento, diluição e transporte de efluentes; esporte, lazer e turismo, demandas ecológicas.

As características de uso devem definir os critérios para ajustar as condições de uso do recurso hídrico adequando-o de forma a reduzir o potencial poluidor ou compensando em menor ou maior grau os efeitos que a utilização possa causar. Fernandez; Garrido (2003, p. 106) ressaltam a importância de se estabelecer tratamento diferente para cada tipo de usuário, pois,

A igualdade de oportunidade entre os usuários competidores apregoada por este princípio não implica necessariamente que a repartição do uso dos recursos hídricos deva se dar sempre em quotas iguais entre os mesmos. Em verdade, dificilmente em uma mesma bacia tais quotas serão iguais, uma vez que, sendo desiguais entre si, os usuários tendem a ser, no processo de gestão, tratados

adequando-os desigualmente. Constituiria, aliás, flagrante desigualdade, se os desiguais fossem tratados igualmente.

Os aspectos quantitativos e qualitativos considerados para definir as condições de uso da água, são relevantes também para definir critérios e parâmetros para a cobrança do uso da água, destinados a apurar o valor econômico da água atribuído pela Lei 9.433/97, cujos fundamentos passam a ser explanados.