Atualmente, os Yawanawá contam a sua história de duas formas: as chamadas histórias da tradição - os mitos - e a história dos acontecimentos de diferentes tempos, associados a uma chefia. Esse segundo tipo é a memória sobre os parentes(Gow, 1991) e sua forma de se relacionar com os brancos/nawa. A narrativa da história Yawanawá pode ser relacionada ao esquema de história segmentada, conhecido por etnólogos dos povos do sudoeste amazônico. O esquema é composto por um período antes da chegada dos brancos, um segundo período de escravidão e trabalho na economia extrativista
109 (sobretudo da borracha); e um terceiro período mais recente, associado à atuação de missionários e/ou agentes governamentais, que auxiliaram no estabelecimento das atuais condições de subsistência. O esquema reproduz o esquema de colonização da região nos séculos XIX e XX, mas também emerge da articulação entre um modelo de história ocidental e teorias nativas da história, dos mitos e dos sistemas de classificação e instituições sociais (Costa, 2017, p.140).
Atualmente, histórias sobre os tempos Yawanawá e mitos são contados por pajés (shuintia) e por estudantes mais avançados da pajelança Yawanawá, sobretudo em rituais nos quais há o consumo das chamadas medicinas da floresta, sendo principalmente o uni44 (ayahuasca) e o rapé. No passado, os pajés contavam as histórias da tradição apenas para parentes próximos, dentro de uma economia política do conhecimento, que associava parentesco, poderes e a transmissão de saberes e poder xamânico (Naveira, 1999). Atualmente, essa contação de histórias pode ocorrer no contexto interétnico do turismo xamânico e/ou espiritual na Terra Indígena Rio Gregório, principalmente nas aldeias Nova Esperança e Mutum; e também pode ocorrer em igrejas do Santo Daime e em centros ayahuasqueiros nas cidades.45 Nesses contextos, os não indígenas (nawa) participam de rituais pagos, com o consumo da ayahuasca e outras medicinas da floresta (rapé, sananga e kambô). Há algumas das chamadas histórias da tradição que podem ser contadas para várias pessoas, incluindo os nawa/estrangeiros/brancos. Já outras histórias da tradição são consideradas secretas, podendo ser contatas apenas para algumas pessoas de reconhecida preparação dentro do estudo da pajelança. Atualmente, as histórias da tradição são contadas para os nawa dependendo de sua posição hierárquica nos grupos ayahuasqueiros Nova Era, que pode estar relacionado ao grau de conhecimento xamânico. Algumas histórias somente são contadas para chefes, reconhecidos por eles como “pajés
44 A palavra uni (e suas variações huni, honi e odi) possuem o sentido de “parentes” ou de “humanos”, em algumas línguas Pano (Erikson, 1992, pág. 243). Interessante notar também que em um mito sobre o surgimento das medicinas narrado pelo Pajé Yawá afirma que as medicinas surgiram quando o primeiro humano morreu e, no lugar onde ele foi enterrado, começaram a nascer as medicinas. De acordo com o mito, o rapé (tabaco) nasceu da cabeça, o uni (ayahuasca) nasceu do coração, a sananga nasceu dos olhos. No mito, cada medicina está associada a uma parte do corpo, demonstrando as relações do seu uso e seus efeitos no corpo dos usuários.
45 Entre os estados onde transitam as comitivas Yawanawá, estão Rio de Janeiro, Brasília, São Paulo, Paraná e ainda outras localidades. Além disso, atualmente os Yawanawá vêm ampliando os seus contatos e suas viagens para países da Europa, além de EUA e México. As histórias da tradição são contadas para os nawa dependendo de sua posição social e conhecimento xamânico, podendo ser contadas mais facilmente para lideranças e chefes, reconhecidos também como pajés brancos. Devido a essa Economia política do conhecimento, tive poucas oportunidades para ouvir histórias da tradição. Sendo referentes importantes para os mitos Yawanawá as dissertações de Naveira (1999) e Pérez Gil (1999).
110 brancos”. Entre esses, podem estar dirigentes do Santo Daime ou de algum outro centro ayahuasqueiro urbano Nova Era. Alguns pesquisadores chamam de neoxamãs os brancos que formulam novas religiosidades a partir de seu arcabouço (Labate, 2004, p. 398).
Devido a essa economia política do conhecimento, tive poucas oportunidades para ouvir histórias da tradição. Outros pesquisadores, como Naveira (1999) e Pérez Gil (1999), tiveram mais possibilidades, sendo referências importantes em relação aos mitos Yawanawá. Os dois mitos que aqui vou narrar foram contados em situações interétnicas. O primeiro é a história da criação para os Yawanawá, que também pode ser considerado um mito sobre a guerra. Ele foi contado por Putani, esposa do cacique Biraci, na casa das lideranças da igreja Céu do Mar46. Nessa igreja, ela é considerada pajé. Na Terra Indígena, ao longo do meu trabalho de campo, ela era considerada uma estudante avançada da espiritualidade Yawanawá. Entretanto, com o falecimento do pajé Tatá em dezembro de 2016 e do pajé Yawá em março de 2018, o cacique Biraci passou a afirmar que Putani é pajé. Isso porque ela começou a fazer as rezas no pote na língua nativa depois desses acontecimentos, elemento definidor do pajé na Terra Indígena.
A entrevistadora perguntou para Putani: “Você pode falar para a gente sobre a história Yawanawá?”. Ela respondeu que se sentia muito pequena para contar aquela história, porque a pessoa mais certa para falar sobre aquela história era o pajé Yawá, “que é a pessoa que tem nos dado essa sabedoria”. Na ocasião, o pajé Yawá vivia na aldeia Nova Esperança, e o pajé Tatá vivia na aldeia Mutum. Outros atores sociais da Terra Indígena eram considerados como estudantes da espiritualidade Yawanawá. Entretanto, alguns eram considerados mais avançados dentro desse estudo, por terem realizado a dieta da planta Muká, a principal iniciação xamânica Yawanawá. Quando essas pessoas vão para as cidades brasileiras ou para o exterior, elas são chamadas pelos anfitriões dos centros ayahuasqueiros ou das igrejas do Santo Daime de pajés47. Aqui reproduzo parcialmente história:
“Tem uma história que nós chamamos de Eshu Eshuvine, é a história da criação, que narra de onde viemos. Nessa história, havia um homem que tinha uma mulher. Em outro povo tinha uns jovens meio arredios, nawas, e eles pegaram essa mulher e voltaram para casa e disseram: nós
46 Esta entrevista foi realizada em 2012, por dois adeptos da religião Santo Daime, no contexto da preparação da celebração do aniversário de 30 anos dessa igreja. Amanda Sul e Thiago fizeram a entrevista, a quem eu agradeço pela concessão do material.
47 Para tratar do assunto sobre a produção dos pajés nas cidades e sobre a legitimidade desses novos pajés, ver Coutinho (2011), Ferreira Oliveira (2012) e Shepard (2014).
111 fomos brigar e trouxemos a mulher. Nawa é aquele que não é indígena. Só que não eram humanos, tinham a cabeça de anta. O homem e a mulher não conheciam o verdadeiro nawa, a outra pessoa. Então, o homem de quem tomaram a mulher ficou muito bravo e foi atrás dos jovens. Quando ele chegou, ele encontrou um caminho que passava pelos nawa. Então ele matou um dos nawa e partiu na região do coração. De dentro ele tirou um nawarãcu, colocou na sacolinha e levou. Os outros jovens ficaram com muito medo e devolveram a esposa dele. Então ele guardou o nawarãcu no rounanti (panero), um tipo de cesto. Ele deixou lá e passou a noite. Ele estava dormindo deitado e escutou o rounanti, que começou a rodar. Alguma coisa estava mexendo dentro do panero. E aquilo estava assustando o homem. Aí ele olhou, e começou a mexer novamente, quando ele foi lá, bem devagarzinho. E, quando ele abriu, foram saindo todos os povos, que se identificavam pelo seu cocar. Cada povo que saía era um cocar diferente. E, então, veio o povo Yawanawá. É uma história bem longa, estou resumindo. Então esse senhor nós chamamos de Sheni. Sheni é como se fosse o criador. Aí é que vem as junções. Então, saiu o povo Yawanawá com seu cocar. Nós chamamos Yawanari maitê, que é o cocar espiritual. Mas ele não é de pena, ele é da pele da queixada. E o nosso povo é conhecido assim, o povo da queixada”.
Assim, os Yawanawá se auto-definem como povo da queixada, ou gente da queixada. O mito da criação identifica um criador: Sheni, Nuke Sheni, nosso criador. Mas esse mito não é apenas um mito da criação, também é um mito sobre a guerra, como foi identificado por Naveira (1999). A criação dos Yawanawá e de todos os povos é identificada à guerra e ao rapto de mulheres, tipo de evento comum entre os Yawanawá e outros povos Pano no tempo dos antigos e no início do tempo da borracha. A partir da relação com o nawa (no sentido de outro povo, o inimigo) e o assassinato de um deles, surgiram todos os povos de um pedaço do seu corpo, cuja procedência era o coração.48 Assim, a história da criação ou a história do surgimento dos povos está associada à história da guerra.
A guerra e as festas - os rituais - foram identificados por Naveira (1999) como duas formas de reprodução social da sociedade Yawanawá. Importante frisar que as relações inter-étnicas e as relações entre os Yawanawá e os outros povos Pano no “tempo dos antigos” era baseada na guerra e na vingança, sendo que, na maioria dos casos, envolvia rapto de mulheres. A forma de reprodução social dos Yawanawá estava relacionada com processos de fissão e fusão entre diferentes povos Pano (Erikson, 1993), e as guerras e agressões xamânicas eram um fator muito presente na reprodução social,
48 Segundo a versão do mito recolhida Naveira (1999), as tribos se originam do rëku, designada em português sob o nome de maçã ou pedra, em referência a uma concreção que se encontra nos intestinos do ser humano.
112 sendo que o butim de guerra eram principalmente mulheres e jovens, o que se buscava eram esposas e genros, visando a realização de uma aliança assimétrica (hierárquica), com a incorporação dos cativos de guerra. As guerras também eram uma forma de produção de parentesco, pois principalmente as mulheres tomadas como esposas eram incorporadas à sociedade (Naveira, 1999).
Outro mito que gostaria de destacar é o mito de Mukaveyne. Ele foi contado para mim por quatro interlocutores diferentes, em julho de 2016, na aldeia Mutum, na ocasião da realização do mariri Yawanawá 2016. Trata-se de um festival de turismo xamânico (Fotiou, 2014), no qual os Yawanawá da aldeia Mutum recebem muitos visitantes nawa para participarem das brincadeiras (rituais entre homens e mulheres Yawanawá) e das chamadas rodas de uni (os rituais com o consumo da medicina uni/ayahuasca e do rapé).49 Sempre que eu perguntava para algum interlocutor Yawanawá sobre a aliança com a igreja Céu do Mar, os interlocutores contavam o mito de Mukaveine. Diziam-me: hoje em dia nós vivemos o que o pajé Mukaveine havia profetizado. O que está acontecendo hoje em dia é a realização de uma profecia, a profecia de Mukaveine.
Interlocutores de diferentes gerações me contaram esse mito (o jovem Raçú – neto do pajé Tatá, os irmãos e líderes Sales Yawanawá e Tahska Peshaho Yawanawá e o próprio pajé Tatá). Meu interesse aqui não é narrar as diferentes versões e mostrar suas diferenças, pois as versões apenas se diferenciavam pelo grau de detalhes. A história mais completa foi narrada por Tashka. Para ele, o mito de Mukaveyne também é uma profecia que está se realizando no momento presente, através das alianças entre os Yawanawá e os nawa.
“Mukaveyne era um grande pajé, que soube um dia que ia fazer a sua viagem para a aldeia sagrada (ia falecer). Ele então reuniu seus filhos homens, para conversar com eles. Ele disse para seus filhos: meus filhos, eu vou partir, eu vou fazer a minha viagem. Quando eu estiver viajando, eu posso tocar na água do rio, e vocês terão muitos peixes. Vocês terão muita abundância, e terão sempre o que comer. Então, um dos filhos, cheio de orgulho, respondeu: não papai, não faça isso. Porque quando você tiver partido, nós estaremos tristes. E as suas mulheres se casarão com outros homens, e elas terão muito o que comer, e ficarão felizes. E nós estaremos tristes, por causa da sua partida. Então Mukaveine falou, para o segundo filho: então quando eu partir eu posso tocar em uma árvore e vocês terão muitas lagartas para comer, e vocês terão muita comida. E o segundo filho respondeu: não
49 Naquela ocasião, fui para a aldeia Mutum com um grupo composto por 19 pessoas, entre estadunidenses e canadenses, sendo que a maioria já conhecia os rituais do Santo Daime da igreja Céu do Mar. A viagem desse grupo foi liderada e organizada por Jordão, filho de Paulo Roberto.
113 papai, não faça isso. Porque as suas mulheres irão casar com outros homens e terão muita comida, e ficarão felizes com seu novo marido e com muita abundância, e elas se esquecerão de você. O pai fez mais uma tentativa, e falou: então quando eu viajar, eu posso tocar na floresta e vocês terão muita caça para comer. Comida nunca vai lhes faltar. E o terceiro filho, também com orgulho, falou: não papai, suas mulheres se casarão com outros homens, e terão muita caça para comer. Elas ficarão felizes e se esquecerão de vocês. E nós estaremos tristes. Então o pai falou: quando eu for viajar, eu posso tocar muito longe daqui, onde existem muitos homens brancos, que vivem empilhados. Eles são muitos. Eu posso embaralhar o pensamento deles para que eles queiram sair de seus lugares de origem e queiram conhecer outros lugares. Então eles virão de longe, e chegarão até aqui. O filho respondeu: sim pai, faça isso. Eu quero conhecer esses outros homens. E Mukaveyne prosseguiu: mas se isso acontecer, não façam guerras com eles. Façam amizade com eles, porque eles são muitos. Se vocês fizerem guerras e matarem dez, vai ser como se não tivessem matado nenhum. Então chegarão mais e mais, depois chegarão cinquenta. Então não façam guerras com eles, façam amizade com eles. E vocês poderão casar com as mulheres deles, eles têm mulheres lindas. E eles poderão casar com as mulheres de vocês. E eles irão ensinar muitas coisas boas para vocês, e vocês poderão ter e usar os objetos deles”. Tashka, julho de 2016. Assim, se no primeiro mito sobre a origem dos povos a narrativa é sobre a guerra, no mito sobre as alianças entre os Yawanawá e os nawa fala-se sobre paz e reciprocidade. O pai avisou aos filhos para não fazerem a guerra contra os brancos. Já que a vitória seria impossível, a única saída seria a paz, a produção de alianças rituais e por meio das trocas de objetos e de mulheres. Assim, a única saída seria a reciprocidade e a afinidade efetiva: transformar o outro em cunhado. Destaquei aqui esses dois mitos, contados por lideranças Yawanawá, estudantes da pajelança e da espiritualidade Yawanawá, pois penso que são dois mitos paradigmáticos para compreender a explicação que os próprios Yawanawá dão sobre si e sobre sua própria história: a contraposição de tempos de guerra e tempos de paz.50 Naveira (1999) identificou que, antes da demarcação da Terra Indígena Rio Gregório (em 1984) ainda haviam conflitos entre os povos Pano. Além de agressões físicas, poderiam ocorrer também agressões xamânicas (feitiços, rezas e envenenamentos), nos contextos de festas/mariris. Já os tempos atuais são compreendidos como tempos de paz e de maior prosperidade, no tempo do “resgate da cultura” e das alianças com os nawas.Pelo que pude apreender em campo, para os Yawanawá, a história dos acontecimentos, em muitas situações, é considerada como a vivência prática dos
50 Naveira (1999) identificou também que, antes da demarcação da Terra Indígena Rio Gregório (em 1984) ainda haviam conflitos entre os povos Pano. Além de agressões físicas, poderiam ocorrer também agressões xamânicas (feitiços, rezas e envenenamentos), nos contextos de festas/mariris.
114 mitos. Nesse sentido, a história dos Yawanawá se aproxima à dos havaianos (Sahlins, 1981). A ação social ou a agência está relacionada à vivência dos mitos.