CAPÍTULO 6- A CIDADE DE CAMPINAS
6.3. Os negros em Campinas
A história de Campinas seria outra sem a contribuição dos negros desde sua fundação. Vários autores atestam a presença de um grande contingente de negros escravizados que foram trazidos para a cidade: Lapa (2008), Barretto (1995), Baeringer (1996), Pessoa (2004), Santos (2013), dentre outros.
Em 1829, a população local se constituía de 8.545 pessoas, 56% dos quais eram de escravos (PESSOA, 2004, p. 143).
Trazidos para assumir o trabalho nas lavouras de cana de açúcar e após a lavoura de café, na cidade também exerciam algumas funções como escravos de ganho, comerciantes de um restrito rol de mercadorias, desde que com licença de seu patrão, assumiam as funções de trabalhadores domésticos, de carregadores dos excrementos, os chamados “tigres”, e de mercadorias, de água, babás, etc.
Segundo Pessoa (2004), existiam na cidade uma significativa presença dos africanos e seus descendentes na cidade de Campinas, que vieram para o Brasil em função da escravidão.
Muitos desses africanos e seus descendentes, que obtiveram a liberdade em diferentes épocas, destacaram-se como importantes agentes da vida social na cidade, e não apenas como parte expressiva do contingente de trabalhadores urbanos e rurais, mas como profissionais atuantes em várias áreas (PESSOA, 2004, p. 109).
O crescimento econômico e acúmulo de riqueza por parte da população não significou mudanças na relação estabelecida entre senhores e escravos, entre patrão e empregado, entre livre e liberto, ou seja, “não implicava em mudanças estruturais na sociedade” (LAPA, 2008).
A presença negra na cidade escrava ou livre influenciou na herança cultural da cidade. Existem espaços como o Largo do Rosário e o de São Benedito, bem como algumas ruas do bairro Cambuí, por ali agregarem moradores ou instituições ligadas às tradições africanas, que promoviam formas de expressão cultural e se tornaram locais de encontro. Fato este que trazia preocupação para as autoridades, devido ao receio de “arruaças” ou de qualquer forma de manifestação que pudesse quebrar as normas de convivência pacífica. Como forma de coibir, intimar, demonstrar poder, a forca, antes localizada no Largo Santa Cruz, foi transferida para o Largo São Benedito, onde, em 1848, foi enforcado acusado de assassinato o mulato Cândido.
A Igreja de São Benedito foi construída a partir de uma campanha promovida por Mestre Tito, um ex-escravo africano, que somente foi terminada após a morte do mesmo, em 1885, recebendo uma fachada neorromântica projetada pelo arquiteto Ramos de Azevedo. Nestes arredores, onde havia também um cemitério para escravos, foi construída, em 1916, a creche Bento Quirino e, atrás da Igreja, como forma de marcar a presença dos imigrantes italianos na cidade, foi construído o Circolo Italiani Uniti, atual hospital Casa de Saúde. A praça D. Pedro II atualmente chama-se praça Profª Silvia Simões Magro. O largo São Benedito atualmente chama-se Anita Garibaldi. As alterações ocorridas em alguns espaços da cidade que marcaram a presença negra em Campinas foram, segundo Pessoa, tentativas de se fazer apagar a memória dos descendentes de africano na cidade. Neste espaço atual, há o Monumento à Mãe Preta, que foi levantado na década de 1950, pela Liga Campineira dos Homens de Cor. Na verdade, esta região sofreu o que os historiadores costumam chamar de “apagamento” da memória; condição para a cidade optar pelos rumos da modernidade e “esquecer” seu passado escravista (PESSOA, 2004, p. 131).
A abolição da escravidão trouxe muita alegria para os cativos, que comemoram a data com passeatas, discursos dos abolicionistas na escadaria da Matriz da Igreja Catedral, foguetório. As casas estavam enfeitadas com flâmulas e bandeiras e uma grande fogueira foi montada no Largo da Catedral, onde foram queimados os grilhões e troncos, símbolos da
Nas décadas pós-abolição, foram fundadas associações, clubes recreativos e entidades negras com a finalidade de resistências e garantia de direitos à cidadania, uma vez que a liberdade não significou tornar-se cidadão com plenos direitos a uma vida com dignidade, trabalho, moradia.
Havia um preconceito muito grande com relação ao ex-escravo, o que impedia de se inserir no mundo do trabalho e da nova ordem social. Segundo Fernandes (1978), a exploração sofrida pelo negro durante a escravidão não colaborou para sua entrada no mercado de trabalho.
Para participar das garantias e dos direitos sociais, consagrados por nossos sistemas de vida, os negros tiveram que desenvolver um esforço próprio de autoeducação e de autoesclarecimento, em escala coletiva (MACIEL, 1987, p. 121).
Os jornais existentes em Campinas no início do século XX associavam a população negra à violência e negativo social, usando expressões do tipo: pretos e vagabundos ou pretos e desordeiros.
Havia uma diferença de cunho sócio-econômico para se referir as pessoas negras. Homens de Cor eram as pessoas de bem, que pareciam estar mais bem situados economicamente; os “brasileiros pretos” eram os negros e pobres que tinham emprego e moradia. “Mulatos”, “pardos”, e “mestiços” eram os brasileiros descendentes de negros cuja condição sócio-econômica era de miseráveis, considerados anônimos. “Pretos” e “pretas” eram os negros sem moradia e sem trabalho. "Os africanos", considerados em extinção, eram os que foram trazidos após a Lei Euzébio de Queiroz (MACIEL, 1987).
Surge em Campinas nesse início de século o que se denomina de imprensa negra, jornais, folhetins, escritos e sustentados por negros como forma de também agregar, denunciar o racismo, organizar os desejos comuns da comunidade negra.
Maciel (1987) afirma que os historiadores da imprensa de Campinas não informam sobre a existência da imprensa negra, embora existam exemplares que circularam no ano de 1903, “O Baluarte”, por exemplo.
O Getulino, criado em 1923, é considerado o mais importante, quando do seu fechamento em 1926, “marca o fim de uma fase na vida organizativa da população negra” (MACIEL, 1987, p. 96).
miséria e exclusão que parte da população, sem emprego, moradia enfrenta no cotidiano desta cidade que não para de crescer e deixa ao léu aqueles que contribuíram para o sucesso desfrutado por poucos.
Muitos negros, homens e mulheres passam a viver uma situação de mendicância e vadiagem, o que é combatido com política de repreensão a este problema social através de leis que proíbem tal prática, como se esta situação fosse uma opção e não uma imposição da nova ordem social.
A imprensa “branca” exigiu a aplicação do Código Penal e Criminal para “caçar e prender” os diligentes e indolentes.
Como medida então é estabelecido que os reconhecidamente mendigos recebam uma placa numerada com o número correspondente à sua ficha nos arquivos da polícia e tenham dessa forma a autorização para mendigar de quarta e sábado, "para que todos vissem, não confundindo, tratando-os como tal" (LAPA, 2008, p. 124).
Infelizmente, as medidas adotadas para acolher o ex-escravo, o pobre, foram identificar e largar à própria sorte, como se ignorar fosse a solução, ou seja, não fazer nada, deixar que morram. Mas o problema somente aumentou. A estação ferroviária, talvez por ser o ponto de chegada e partida, passou a ser o foco da ação da polícia, para dispersar os desocupados, desempregados, mendigos que estão na cidade e os que chegam.
Duas ocasiões marcam o aumento dos mendigos na cidade: em 1904, quando foi criado o asilo de mendigos em Santos, e o excedente, não podendo ficar lá, se deslocou para Campinas e São Paulo; e, em 1910, quando da chegada dos imigrantes que substituíram os trabalhadores nas fazendas, ficando os negros desempregados, aumentando o número de desocupados no centro urbano (MACIEL, 1987).
As péssimas condições de vida da camada pauperizada da população tornavam-na alvo de doenças, sobretudo as contagiosas, que ameaçavam a todos, constituindo um problema para a saúde pública. Dentre essas, além da febre amarela, que dizimou parte da cidade, referimo-nos às doenças que traziam a degradação física como a morfeia ou mal de Lázaro, que desfigura o doente causando o horror às pessoas.
Havia a necessidade de confinar o doente, dado o temor que esta doença provocava, pois se aliavam dois problemas sociais: a mendicância e a doença. Os asilos, para tratar os
em bairros afastados do centro urbano, mantidos com verba pública e doações, estes locais não possuíam condições ideias de higiene nem de recursos humanos o suficiente, dada à especificidade dos casos e da logística que impunham.
Desta forma, segundo Lapa (2008), "passavam a impressão do abandono a que eram relegados os doentes, devendo a rigor cuidarem-se mutuamente" (LAPA, 2008, p. 239).
Esses hospitais não eram destinados apenas para uma parcela da sociedade, mas considerando as condições sub-humanas dos pobres e ex-escravos, podemos inferir que os mesmos constituíam parcela significativa dos pacientes. Os que não conseguiam “vaga” morriam nas ruas sem assistência médica. Os que tinham a placa de identificação de mendigos, ao morrer, eram identificados pelos dados nela contido.
Para as mulheres negras, a prostituição era uma ameaça que as perseguia da infância à morte. Em 1895, a imprensa pedia que a prostituição fosse restrita a apenas uma região da cidade, constituindo-se assim, mais uma forma de controle social e espacial.
Mas nem todos os pretos eram mendigos, loucos, doentes e prostitutas. Após a abolição, havia uma parcela desta população que trabalhava em obras e manutenção de serviços públicos, bem como em obras de manutenção das estradas de ferro, policiais, vendedores ambulantes, na construção e manutenção das estradas, engraxates, na limpeza pública, contratados pela Intendência Municipal. Muitos trabalhados realizados pelos negros eram atividades de equipe, sob comando. Havia ainda cocheiros, carroceiros, carregadores, portadores diversos e condutores de bondes, quando eram por tração animal.
De acordo com Maciel (1987), “de modo geral, as ofertas de trabalhos aos negros se faziam nos locais de maior insalubridade e para serviços cujos pagamentos eram mais baixos”. ( p. 124).