• Nenhum resultado encontrado

4 PRECE: CONTEXTO HISTÓRICO

4.2 Os primeiros anos do PRECE (1994-2000)

“Esse projeto nasceu de um sentimento de inconformação diante da situação educacional de nosso país e principalmente do município de Pentecoste” (PROGRAMA DE EDUCAÇÃO EM CÉLULAS COOPERATIVAS, 1998, p. 2).

Os primeiros anos do projeto são marcados pelo esforço em escolarizar os estudantes e mantê-los ligados à sua comunidade, período em que o projeto passou a funcionar na casa de farinha agora desativada na comunidade de Cipó. Os estudantes do primeiro grupo de estudo do PRECE que moraram na casa de farinha passaram por diversas dificuldades. Segundo Rodrigues (2007, p. 64), “enfrentaram adversidades de diferentes ordens: as dificuldades relacionadas à alimentação na casa de fazer farinha, adaptação à nova moradia, convivência em grupo, falta de recursos financeiros e aquisição do hábito de estudo”. Os estudantes passavam a semana estudando e aos finais de semana recebiam o estímulo e apoio do professor Manoel Andrade.

Um importante apoio veio da Igreja Presbiteriana Independente de Fortaleza (IPI) que possui uma congregação (igreja) na comunidade de Cipó. Segundo Rodrigues (2007), além do apoio espiritual nos momentos difíceis, outro importante apoio vindo da igreja dizia respeito à contribuição financeira que repassava mensalmente, um recurso para custear despesas com alimentação do grupo de estudantes, sem esse apoio os empecilhos teriam sido maiores.

Em meio às dificuldades dos primeiros anos, algo que nos chama atenção era a filosofia do retorno que era internalizada pelo grupo e constantemente enfatizada nas reuniões pelo idealizador do projeto, Manoel Andrade, que falava da ida à universidade, mas de não se esquecer das raízes, do lugar, e de lutar para melhorar esse lugar. A ideia de que o objetivo era ingressar na universidade e não se desligar da comunidade.

Rodrigues (2007) também enfatiza a importância dessa filosofia do retorno, que indicava o ponto diferencial na forma de pensar e agir de precistas cuja dedicação à causa da

educação já demonstra uma mudança de mentalidade e a suposição de que uma nova cultura começa a se produzir. Os primeiros estudantes que ingressaram na universidade a partir do projeto todos retornavam aos finais de semana para a comunidade gerando um ciclo de reciprocidade que alimentava as ações do PRECE.

Nos primeiros anos da experiência o foco é a escolarização dos estudantes e implementar essa filosofia de retorno às comunidades. De 1994 a 1998, o PRECE era um pequeno projeto educacional composto por quatro estudantes universitários, dentre eles Adriano Andrade que retornou à comunidade para colaborar com o irmão e ingressou no ensino superior. Em 1998, o PRECE é registrado na UFC como projeto de extensão, fato relevante porque, a partir desse momento, os estudantes universitários estavam aptos a atuarem como bolsistas de extensão, um importante apoio financeiro. Em outubro do mesmo ano, os estudantes institucionalizam o projeto com o nome Projeto Educacional Coração de Estudante.

Os primeiros anos do projeto são marcados por um trabalho “subterrâneo” onde o foco principal era a formação educacional dos estudantes. Segundo Ana Maria (EN4), “era justamente o momento assim de formação do grupo, de preparação, de base relacional, humanística, de normas de convivência e regras”. Manoel Andrade costuma nas reuniões citar a seguinte frase “estamos contrabandeando educação”, o momento era de não aparecer muito e isso estava relacionado à conjuntura política local, o poder público enxergava os irmãos Andrade, mesmo sem uma atuação política partidária, como oposição por conta do passado recente de ativismo político em Pentecoste, nesse sentido, existia o receio por parte dos precistas que o projeto fosse perseguido politicamente e viesse acabar precocemente.

Esse primeiro momento é marcado pela geração de um tipo de capital social a qual Putnam (2000) denomina de bonding social capital (capital social encapsulado), um recurso que tende a fortalecer, acima de tudo, o próprio grupo e reforçar as identidades excludentes e os grupos homogêneos.

Nessa fase de formação de grupo e foco no processo de escolarização dos estudantes, Rodrigues (2007) enfatiza a importância da parceria do PRECE com o Centro de Educação de Jovens e Adultos (CEJA) de Itapipoca. A partir do ano 2000, os estudantes que necessitavam concluir o supletivo de ensino médio já não precisavam ter que se deslocar para Fortaleza haja vista que as atividades e as avaliações do ensino supletivo passaram a serem realizadas na sede do PRECE em Cipó. Esse fato revigorou a atuação do PRECE na região pelo fato de atender um número maior de estudantes, chegando a formar quatro núcleos de supletivo na região (Cipó, Canafístula, Boa Vista e Muquenzinho), até os anos 2000 apenas

15 estudantes estavam matriculados no supletivo, após a parceria esse número cresceu para 70 estudantes matriculados. Muitos estudantes universitários do PRECE que ingressaram na UFC passaram pela modalidade de supletivo.

Nesse período o pré-vestibular cooperativo do PRECE funcionava potencializado pela própria metodologia desenvolvida no PRECE, que foi gestada, no início, com a formação do primeiro grupo de estudo, por falta de professores. Segundo Rodrigues (2007), convencionou-se a chamar a metodologia utilizada no PRECE de “educação em células”, criação do próprio professor Manoel Andrade, uma prática metodológica que guardava semelhanças com os círculos de cultura17 propostos por Paulo Freire (2005). No início eram células formadas por cinco estudantes lideradas por um monitor que orientava as atividades do grupo, que com o tempo foi se aperfeiçoando. Os estudantes nas células educacionais conseguiam aprender e gerar conhecimento simultaneamente, elevando o seu potencial de aprender com autonomia. Barbosa (2016) classifica a metodologia utilizada no PRECE de “aprendizagem cooperativa fora da sala de aula”, percebendo relação com a Educação Libertadora18 de Paulo Freire (2005):

Percebemos algumas conexões entre a Educação Libertadora e a Aprendizagem Cooperativa desenvolvida pelo PRECE que são: a utilização de práticas dialógicas nas células de estudo; a compreensão da necessidade de problematizar a realidade social na busca de reduzir as injustiças sociais e ampliar as possibilidades de vida das populações pobres e oprimidas; a valorização do saber popular acumulado na vida por sujeito, onde cada um deve contribuir com o que sabe no compartilhamento de conhecimento com os demais; o viés cidadão e político nas práticas pedagógicas, através do engajamento em espaços comunitários de participação reivindicatória e de mobilização comunitária; a produção de conhecimento contextualizado com a realidade local; o estímulo à autonomia, através da gestão das práticas pedagógicas pelos próprios estudantes, que além de gerenciarem seus estudos, também são responsáveis pela administração das EPCs e a compreensão da amorosidade como um elemento fundamental nos processos pedagógicos, vivenciada no PRECE através da construção de vínculos afetivos que potencializavam o aprendizado grupal (BARBOSA, 2016, p. 57).

Nesse contexto, Rodrigues (2007) nos traz uma reflexão sobre a formação humana crítico-transformadora no PRECE. No projeto de supletivo, foram criadas atividades paralelas aos estudos dos módulos (as disciplinas eram divididas em módulos), essas atividades eram

17

Na figura do círculo, todos/as se olham e se veem. Neste círculo, não há um/a professor/a mas um/a animador/a das discussões que, como um companheiro alfabetizado, participa de uma atividade comum em que todos/as se ensinam e aprendem. Os Círculos de Cultura são precisamente isso: centros em que o povo discute os seus problemas, mas também em que se organizam e planificam ações concretas, de interesse coletivo (FREIRE, 2005).

18 O movimento de educação libertadora popular surge na década de 1960 no Brasil com uma preocupação com a democratização da cultura e da educação, com um aguçado sentido de transformação da realidade social de opressão, a qual muitos sujeitos se submetiam às elites detentoras do poder político e econômico. Assim, se configura como uma “pedagogia que faça da opressão e de suas causas objeto da reflexão dos oprimidos, de que resultará o seu engajamento necessário na luta pela sua libertação” (FREIRE, 2005, p. 34).

reuniões onde se discutiam o andamento do projeto (alguns universitários já atuavam como docentes no supletivo) e temas relacionados à vida local, como produção agrícola e compreensão da política enquanto atividade que envolve a sociedade, no sentido de esclarecer que esse era um tema importante a ser discutido. Segundo Rodrigues (2007), muitos desses temas estavam relacionados ao entendimento e funcionamento da sociedade e, também, a perspectiva de transformá-la, inspirados nos estudos de Freire (2005):

Tais atividades aproximavam os estudantes de seu contexto, facilitando a leitura e compreensão da realidade mais próxima e imediata, ao mesmo tempo que os levava a uma reflexão mais geral, acerca dos diversos aspectos: sociais, políticos, culturais e econômicos, indispensáveis na perspectiva da formação emancipadora, fundamentada nos princípios da Educação Popular (RODRIGUES, 2007, p. 80).

Nesse contexto, Rodrigues (2007) tece uma crítica à maneira como o projeto pré- vestibular cooperativo do PRECE foi sendo desenvolvido. Paulatinamente, as ações do projeto foram se concentrando somente na apreensão dos conhecimentos exigidos pelo vestibular, focado numa abordagem exclusivamente conteudista. Essa questão interfere no processo de formação crítico-transformadora, pois a dimensão política da educação é deixada em segundo plano, comprometendo o viés de transformação da realidade. Numa perspectiva freuriana, o desafio é a construção de uma educação que seja transformadora onde os sujeitos possam modificar a realidade e não apenas conviver com o modelo opressor (FREIRE, 2005). Esse conflito no PRECE fica visível principalmente a partir do processo de multiplicação, onde a dificuldade de se trabalhar a visão de uma educação transformadora perde espaço para os anseios de ingressar na universidade.