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CAPÍTULO V AMAZÔNIA PARA O MUNDO VER

5.2. Meio ambiente amazônico

5.2.1. Os rios comandam a vida

É natural na região amazônica acontecerem anualmente, de maneira cíclica, os fenômenos de enchentes (também chamada de cheias) e de vazante (seca). O período de cheia dos rios acontece entre os meses de dezembro a maio e vazante dos rios de junho a novembro. A cada ano, a região tem recebido, em curto período de tempo, cheias e vazantes mais severas influenciadas pelo El Niño – fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento das águas do oceano Pacífico – e por La Niña – resfriamento anormal das águas do Pacífico. Ambos os fenômenos alteram o regime de chuvas na bacia Amazônica, consequentemente, ocasionando problemas sociais e econômicos para as populações locais, pois elas têm o rio como principal meio de sobrevivência.

No imaginário sobre a Amazônia, a abundância de água está presente em nós pela memória discursiva, saber discursivo sobre Amazônia (abundância de água, região que abriga o maior rio do mundo) e, também, pelos interdiscursos (discursos que circulam entre nós pela imprensa, nossa formação escolar, publicidade, literatura, etc.). Decerto, não há como se distanciar desse imaginário numa região que tem a maior bacia hidrográfica do mundo. Por isso, é quase impossível imaginarmos que a região sofra com problemas de escassez em meio ao grande volume de água.

Na região amazônica, os cursos dos rios não regem somente as águas, mas também a vida de várias populações amazônicas que, direta ou indiretamente, dependem deles. Mesmo as cidades não margeadas por rios têm sua vida interferida pelo excesso ou pela falta de água. A reportagem “Às margens do rio Madeira, Porto Velho enfrentou insegurança hídrica na seca” (ANEXO F), publicada na Amazônia Real na editoria de Meio Ambiente, em seu discurso, nos apresenta o que os rios representam aos moradores locais e como eles comandam a vida da população.

A interferência do volume dos rios na vida da população é realidade da maioria das cidades e comunidades da Amazônia, que no período de enchentes e secas sofrem em consequência desses intensos fenômenos ocasionarem problemas (sociais, econômicos, saúde, etc.). O rio Madeira é a segunda principal via de transporte mais importante na região, com extensão de 3.240 Km, o 17º mais extenso do mundo.

A reportagem traz vários exemplos do funcionamento do rio como via de transporte (de pessoas, alimentos, combustíveis, etc.) para várias cidades locais, como disposto nas SD-21 e SD-22.

(SD-21) Pela hidrovia do Madeira é transportado todo o combustível e gás de cozinha que abastecem Rondônia, Acre e noroeste do Mato Grosso. Também é escoada boa parte da produção de grãos do Mato Grosso e de Rondônia. Além do transporte de alimentos, automóveis, ração animal, insumos para a agricultura, máquinas, madeira e outros produtos entre Porto Velho e Manaus.

(SD-22) O Madeira é o único meio de acesso para as comunidades que vivem ao longo do rio e têm a capital como ponto de apoio para tratar da saúde, fazer compras, ir ao banco e resolver outras questões (grifo meu)

Na SD-22, o sujeito jornalista enfatiza a importância do rio ao descrevê-lo como “único meio de acesso para as comunidades” aos serviços essenciais oferecidos na capital, ou seja, qualquer alteração no rio interfere na vida social e econômica da população. Assim como Tocantins (1973, p.280) relatou a importância do rio para os moradores da Amazônia, “o rio imprimindo à sociedade rumos e tendências, criando tipos característicos na vida regional”, a

Amazônia Real enfatiza essa importância em vários momentos no texto, inclusive no intertítulo:

“O rio é a principal rodovia”.

A situação de contrastes (falta de água numa região com o maior rio do mundo) nos é apresentada já no título da reportagem, quando a jornalista enfatiza a localização da capital de Rondônia, Porto Velho, próximo ao rio Madeira, a qual, mesmo com essa proximidade, enfrentou problemas de abastecimento de água.

A consulta de várias fontes é procedimento obrigatório do jornalismo, ouvir os diversos lados da história. A reportagem traz uma pluralidade de fontes: a jornalista consultou representantes de órgãos municipais, estaduais, federais e organizações internacionais. No caso das organizações internacionais – dados da Organização Meteorológica Mundial (OMM), do Serviço Geológico do Brasil (CPRM) e da Nasa –, a agência usou informações dessas fontes para afirmar o que acredita ser a verdade: o governo local não está preparado para agir nessas situações de emergências ocasionadas por fenômenos climáticos.

(SD-23) A Organização das Nações Unidas (ONU) vem alertando reiteradamente, por meio de dados da Organização Meteorológica Mundial (OMM), que o fenômeno climático El Niño (aquecimento das águas do Oceano Pacífico) irá provocar secas e enchentes extremas e recorrentes na Amazônia.

Ao expor os dados de alertas emitidos por órgãos internacionais sobre alterações climáticas na Amazônia, a Amazônia Real afirma ser este um cenário previsível, mas ignorado pelas autoridades locais. Na SD-23, a jornalista menciona os alertas de organizações internacionais (ONU e OMM) sobre eventos extremos na Amazônia; o uso do termo

“reiteradamente” tem efeito de crítica a ausência de planos, de ações e de políticas governamentais mediante situações iminentes.

Fortemente associada a essas situações está a crítica ao despreparo e à omissão do

governo local, mediante os alertas de órgãos públicos responsáveis por monitoramento e de

organizações internacionais, à ausência de ações e políticas públicas para evitar ou amenizar os problemas, além de críticas às medidas paliativas.

(SD-24) “É só para beber. A gente sabe que não é suficiente. É só para amenizar a situação” (Vicente Bessa, da Secretaria de Projetos Especiais e Defesa Civil de Porto Velho, fala do entrevistado).

A reportagem apresenta situações, inclusive no ano de 2014, em que o rio Madeira teve grande cheia, ocasionando problemas a população. Além do problema de abastecimento de água destacado no texto do portal, há outro problema na região Norte, não dito explicitamente na reportagem: tais situações podem ser também decorrentes da falta de saneamento básico.

Segundo o Sistema de Informações de Águas Subterrâneas desenvolvido pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB)31, no Brasil há 248.015 poços artesianos registrados (dados

consultados no dia 4 de outubro de 2017). Só na região Norte, são 22.267 poços artesianos cadastrados, sendo possível que este número seja ainda maior pela existência de poços irregulares.

Saneamento básico é um direito constitucional assegurado pela Lei nº 11445/2007, que define saneamento básico como “conjunto de serviços, infraestruturas e instalações operacionais de abastecimento de água potável, esgotamento sanitário, limpeza urbana e manejo de resíduos sólidos, drenagem e manejo das águas pluviais urbanas”.

Porto Velho é a segunda pior cidade em saneamento básico no ranking das 100 maiores cidades, ocupando a 99º posição. O Ranking do Saneamento Básico é desenvolvido pelo Instituto Trata Brasil com base nos dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento Básico (SNIS). Das capitais da região Norte, a melhor posicionada no ranking é Boa Vista, capital de Roraima, na 68º posição. Três capitais da região Norte – Macapá (AP), Manaus (AM) e Rio Branco (AC)32 – estão entre as dez piores do país.

31 Informações disponíveis em http://siagasweb.cprm.gov.br/layout/uf_pocos.php 32 Não localizamos no relatório nenhuma cidade do estado de Tocantins.

Por conta das condições geográficas específicas da região amazônica, o meio de acesso a algumas comunidades é somente pelo rio. Embora esse não seja um cenário igual para todos os locais da Amazônia, é fato que os altos ou baixos níveis de águas dos rios modificam o cotidiano da população, mexem com a economia das cidades, principalmente, trazem prejuízos para suas populações e meio ambiente.

A Amazônia apresentada pela agência é aquela que, mesmo tendo abundância de água, não está isenta de enfrentar problemas de abastecimento (tanto na cheia quanto na seca). A agência também aponta a influência dos rios no modo de vida das populações amazônicas; o despreparo das autoridades locais em enfrentar os problemas ocasionados, em parte, por grandes enchentes e severas secas (queimadas e incêndios florestais aumentam nesse período); a falta de ações e políticas públicas que possam prevenir ou amenizar problemas gerados por estes fenômenos.

Noticiar, no discurso jornalístico, é determinar um sentido (MARIANI, 1998). Nesta reportagem, a ideologia da agência de mostrar a realidade da Amazônia colocada como evidente o sentido de que os transtornos em decorrência das enchentes e vazantes são pela ineficiência dos governos.