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Os tipos de estudo das dissertações e teses

2 REFERENCIAL TEÓRICO

4 O ESTADO DO CONHECIMENTO DA PRODUÇÃO ACADÊMICA SOBRE A EDUCAÇÃO DE SURDOS

4.3 Os delineamentos metodológicos das produções acadêmicas

4.3.1 Os tipos de estudo das dissertações e teses

De acordo com Vilelas (2009, p. 101), “O estudo é, pois, uma estratégia geral do trabalho que o investigador determina, uma vez que já alcançou uma clara definição do seu problema, e que orienta e esclarece as etapas que irão desenvolver-se posteriormente.”. O seu objetivo é proporcionar um modelo de verificação que permita contrastar fatos e teorias.

Conforme o autor, cada investigação possui um estudo próprio, que poderá adequar- se, mais ou menos, a tipos básicos de estudo ou, ainda, combiná-los de maneiras diversas. Assim, buscamos ao longo da coleta dos dados manter as denominações empregadas pelos autores das dissertações e teses acerca do tipo de estudo adotado, como constam nas tabelas 10 e 11, respectivamente.

No entanto, compreendemos, assim como apontaram Marconi e Lakatos (2002), Garrutti (2007), Vilelas (2009), Prodanov e Freitas (2013), que os estudos podem ser classificados ou definidos de diferentes modos, por diferentes estudiosos. Em outras palavras, “Os critérios para a classificação dos tipos de pesquisa variam de acordo com o enfoque dado pelo autor. A divisão obedece a interesses, condições, campos, metodologia, situações, objetivos, objetos de estudo etc.” (MARCONI; LAKATOS, 2002, p. 19). Isso posto, para orientar nossas análises, consideramos os tipos básicos de estudo propostos por Vilelas (2009), os quais, conforme o autor, podem ser classificados quanto:

a) ao modo de abordagem: estudo qualitativo e estudo quantitativo; b) ao objetivo geral: estudo exploratório e estudo descritivo;

c) aos procedimentos técnicos: estudo bibliográfico, estudo histórico, estudo experimental, estudo de caso, estudo etnográfico, pesquisa-ação, revisão sistemática da literatura, entre outros.

A seguir, exibimos os tipos de estudo observados nas dissertações (tabela 10) e teses (tabela 11) conforme as denominações empregadas pelos seus respectivos autores.

Tabela 10 - Tipos de estudo das dissertações de mestrado

Tipos de estudo Dissertações

Estudo qualitativo 13

Estudo de caso, com abordagem qualitativa 8

Estudo etnográfico, com abordagem qualitativa 5

Estudo qualitativo e quantitativo 5

Estudo de caso, com abordagens qualitativa e quantitativa 3

Estudo descritivo, com abordagem qualitativa 3

Estudo de caso, do tipo etnográfico, com abordagem qualitativa 2

Estudo exploratório, com abordagem qualitativa 2

Estudo histórico-cultural, com abordagem qualitativa 2

Estudo de caso e pesquisa-ação, com abordagem qualitativa 1 Estudo exploratório e descritivo, com abordagem qualitativa 1 Estudo exploratório e descritivo, com abordagens qualitativa e quantitativa 1

Pesquisa colaborativa, com abordagem qualitativa 1

História oral 1

História de vida, com abordagem qualitativa 1

Cartografia, com abordagem qualitativa 1

Pesquisa-formação 1

Pesquisa indiciária 1

Não foi possível identificar 10

Total 62

Fonte: Elaboração própria.

Notamos, na tabela 10, uma prevalência de estudos qualitativos (n=40), e também dissertações que empregaram as abordagens qualitativas e quantitativas concomitantemente (n=9). Não verificou-se a ocorrência de estudos estritamente quantitativos. Quanto ao objetivo geral, três estudos são do tipo descritivo e dois do tipo exploratório, e duas dissertações realizaram um estudo exploratório descritivo, de modo articulado. No que tange aos procedimentos técnicos, observamos um número significativo de estudos de caso (n=14), dos quais dois são do tipo etnográfico e um foi realizado juntamente com uma pesquisa-ação. Em

seguida, destacam-se os estudos etnográficos (n=5) e estudos segundo uma perspectiva histórico-cultural (n=2). Os estudos do tipo colaborativo, história oral, história de vida, cartografia, pesquisa-formação e pesquisa indiciária foram empregados uma única vez cada. Em dez dissertações não foi possível identificar o tipo de estudo adotado.

Tabela 11 - Tipos de estudo das teses de doutorado

Tipos de estudo Teses

Estudo histórico-cultural, com abordagem qualitativa 2

Estudo qualitativo 1

Estudo de caso, exploratório e descritivo, com abordagem qualitativa 1

Estudo exploratório, com abordagem qualitativa 1

Estudo exploratório e descritivo, com abordagens qualitativa e quantitativa 1

Estudo qualitativo, com abordagem microetnográfica 1

Não foi possível identificar 1

Total 8

Fonte: Elaboração própria.

Por sua vez, notamos, na tabela 11, que seis teses apresentaram uma abordagem qualitativa e somente uma apresentou as abordagens qualitativa e quantitativa concomitantemente. Quanto ao objetivo geral, há um estudo do tipo exploratório, e duas teses realizaram um estudo exploratório descritivo, de forma articulada. Quanto aos procedimentos técnicos, há dois estudos histórico-culturais, um estudo de caso e um estudo com abordagem microetnográfica. Em uma tese não foi possível identificar o tipo de estudo adotado.

Lembramos que em razão da problemática da presente pesquisa, não foram selecionadas dissertações e teses de caráter estritamente teórico, refletindo, assim, nos resultados encontrados.

De um modo geral, observamos entre as dissertações e teses o predomínio de estudos segundo uma abordagem qualitativa, de estudos exploratórios descritivos e de estudos de caso, estudos etnográficos e estudos histórico-culturais. De modo consoante, Pagnez e Sofiato (2014), cuja investigação analisou a produção acadêmica sobre a educação de surdos, mediante os resumos das dissertações e teses no período entre 2007 e 2011, indicaram, também, a prevalência de estudos qualitativos, estudos etnográficos e estudos de caso, o que pode sinalizar uma tendência no campo.

Uma vez que aproximadamente 65% das dissertações e teses analisadas na presente pesquisa pertencem a programas de pós-graduação em Educação e em Educação Especial,

consideramos os resultados de importantes balanços sobre a produção acadêmica nos respectivos campos, a fim de subsidiar nossas análises. Quanto à hegemonia de estudos segundo uma abordagem qualitativa, que segundo André (2001, p. 54) “[...] englobam um conjunto heterogêneo de perspectivas, de métodos, de técnicas e de análises [...]”, podemos dizer que os resultados observados no trabalho produzido por Bueno (2014), acerca da pesquisa sobre Educação Especial no período entre 1987 e 2009, em que 96% das produções analisadas apresentaram uma abordagem qualitativa, corroboram os resultados encontrados na presente pesquisa. A esse respeito, o autor adverte para a necessidade de os estudos associarem qualidade e quantidade. Igualmente, Nunes et al. (2003) e Warde (1993), em balanços sobre a produção acadêmica nas áreas da Educação Especial e da Educação, respectivamente, demonstraram um decréscimo no número de investigações quantitativas ao longo dos anos e um consequente incremento de investigações segundo uma abordagem qualitativa nessas áreas. Em contrapartida, Garrutti (2007), em sua análise sobre os procedimentos de pesquisa empregados nas dissertações e teses do PPGEEs da UFSCar, evidenciou que os estudos quantitativos e os estudos quantitativos articulados aos qualitativos eram preponderantes. No entanto, podemos inferir que tal diferença deve-se à natureza de determinadas linhas de pesquisa, as quais totalizaram um conjunto maior de dissertações e teses no período examinado pela autora, em que prevaleceram estudos experimentais e quase experimentais, assim como apontou Garrutti (2007).

Por sua vez, em relação ao número expressivo de estudos de caso, autores como Ventura (2007), Duarte (2008) e Sarmento (2011) destacam a sua importância crescente enquanto modalidade de pesquisa na área educacional, na medida em que proporciona “[...] uma visão em profundidade de processos educacionais, na sua complexidade contextual.” (DUARTE, 2008, p. 114). O incremento de estudos de caso no âmbito das pesquisas em Educação Especial nas últimas décadas também foi demonstrado por Nunes et al. (2003).

Observamos, ainda, certa recorrência de estudos do tipo etnográfico e de estudos segundo uma perspectiva histórico-cultural. André (1997; 1995), Pletsch, Fontes e Glat (2009) e Pletsch e Rocha (2014) denotam um incremento de estudos do tipo etnográfico na investigação da realidade educacional e de grupos socialmente excluídos ou estigmatizados. De acordo com as autoras, os estudos etnográficos, por meio da relação direta entre pesquisador e pesquisado, propiciam uma compreensão mais refinada das relações e dos processos vivenciados pelos agentes envolvidos no cotidiano das instituições escolares e, por essa razão, permitem indicar caminhos para possíveis intervenções. Também, Laplane, Lacerda e Kassar (2006, p. 8) demonstram as contribuições da etnografia na pesquisa em

Educação Especial, para as autoras, “[...] os princípios da etnografia aliados ao foco nas relações e práticas sociais, concebidas como relações e práticas históricas e complexas, se revelam adequados ao tratamento dos problemas da Educação Especial.”. Por sua vez, os estudos segundo uma perspectiva histórico-cultural, com base, especialmente, nas teorias de Vygotsky, Bakhtin e seu Círculo, vislumbram, segundo Freitas (2002), uma forma outra de produzir conhecimento no campo das Ciências Humanas, ou seja,

[...] enfatizando a compreensão dos fenômenos a partir de seu acontecer histórico, no qual o particular é considerado uma instância da totalidade social. A pesquisa, nesta orientação, é vista pois, como uma relação entre sujeitos, portanto dialógica, na qual o pesquisador e pesquisado são partes integrantes do processo investigativo e nele se ressignificam. (FREITAS, 2003, p. 6).

Por fim, salientamos que em dez dissertações e em uma tese não foi possível identificar o tipo de estudo empregado. Contudo, dentre as dez dissertações, quatro declararam que não definiram um tipo de estudo em razão do referencial teórico adotado, a saber, Estudos Culturais, Estudos Surdos e/ou vertente Pós-estruturalista. Nas palavras de Camatti (2011, p. 20), autora da dissertação “A emergência do sujeito pedagógico surdo no espaço de convergência entre comunidade e escola de surdos”, analisada na presente pesquisa,

[...] dado o assento teórico que utilizo nesta investigação, seria incoerente trazer um capítulo metodológico que deixasse claro qual o ‘tipo’ de metodologia utilizado. Penso ser muito mais coerente deter meus esforços no delineamento, o mais rigoroso possível, dos meus objetos de análise e das escolhas teóricas feitas, deixando que elas mesmas tracem as possibilidades metodológicas.

Todavia, para Ventorim (2005), a não indicação de uma abordagem metodológica nos estudos pode comprometer a sua qualidade e a sua legitimidade. Nessa perspectiva, autoras como Warde (1993), Gatti (2001; 2006) e André (2001; 2007) têm demonstrado fragilidades metodológicas nas investigações no âmbito da pesquisa em Educação. Referente às abordagens qualitativas, predominantes nas dissertações e teses analisadas na presente pesquisa, Gatti (2006, p. 29) assinala que “Mesmo considerando [...] seu potencial de compreensão de situações micro-socio-educacionais, muitos trabalhos mostram um uso precário dos procedimentos complexos que nelas estão implicados.”. Assim, concordamos com Warde (1993), Gatti (2001; 2006) e André (2001; 2007) ao afirmarem que tal circunstância leva a pensar nas precárias condições de formação e de produção de

conhecimento presentes nas universidades brasileiras. Também, leva à necessidade de definição de critérios para a avaliação dos estudos, de busca de rigor e de qualidade na pesquisa em Educação e, sobretudo, de luta por melhorias na formação e nas condições de produção de conhecimento (ANDRÉ, 2007).