7. A Gestão da escola Emído Dantas Barreto
7.9. O trabalho com os laptops educacionais em sala de aula
7.9.3. Os trabalhos desenvolvidos em sala de aula
Ao longo das observações foi possível evidenciar oito tipos de atividades realizadas em sala de aula com os laptops educacionais. foram elas:
Tabela 21 - Atividades desenvolvidas com os "uquinhas" 1 Pesquisa na Internet
2 Visita a algum site específicos 3 Digitação de textos
4 Criação de textos
5 Exibição de vídeos no Youtube 6 Jogos educativos
7 Jogos online 8 Desenho digital
Fonte: LEVANTAMENTO DIRETO, 2012.
O grau de ocorrência dessas atividades depende de muitos fatores, dentre eles, a conexão à internet, agenda de atividades das professoras, número de alunos em sala de aula, atividades realizadas na escola, número de monitoras de informática disponíveis no dia de trabalho etc.
Quando os problemas são de ordem técnica, como por exemplo, falhas na conexão, os professores investem em atividades offline, tais como a digitação de
textos, jogos educativos e desenho digital. Já quando a conexão está funcionando e oferece uma taxa de velocidade razoável para a navegação, há uma prevalência no trabalho com a exibição de vídeos e também jogos online. Geralmente, quem informa as condições de trabalho no que tange a dimensão técnica são as monitoras de informática. Ao longo desta pesquisa, a escola chegou a ficar quase 20 dias seguidos sem acesso à web, em decorrência de um problema com o provedor de internet.
ouve também casos em que a agenda de atividades “burocráticas” da escola interferiu na forma como os “uquinhas” são trabalhados nas salas de aula. Presenciei uma situação em que algumas professoras, por exemplo, precisaram resolver coisas relativas ao fechamento das cadernetas para o encerramento de um bimestre. Num dos casos, a docente deixou uma pesquisa para os alunos executarem, cabendo às monitoras de informática auxiliá-los na busca dos sites. Já em outro caso, a docente preferiu deixar o uso livre para seus alunos acessarem os sites e jogarem os jogos que quisessem.
Em geral, as professoras do 1º ao 5º ano preferem mesclar atividades que envolvem a pesquisa para ampliar os conteúdos trabalhados, jogos, produção de textos e desenhos. As diferentes concepções pedagógicas também influenciam na “dosagem” dessas atividades. Há professoras mais vinculadas ao ideal de projeto de aprendizagem, portanto, o uso dos “uquinhas” é concebido como momento de pesquisa, enquanto outras preferem explorar a dimensão lúdica proporcionada pelos dispositivos, investindo em atividades em que os alunos possam se deparar com as diferentes ferramentas e informações de forma mais livre. Ao serem questionadas sobre as três atividades que mais costumavam desenvolver com seus alunos quando utilizam os laptops educacionais, as professoras responderam que:
Gráfico 20 - Marque até três principais atividades que você costuma desenvolver com os "uquinhas" em sala de aula:
Fonte: LEVANTAMENTO DIRETO, 2012.
Outro elemento bastante interessante que foi constatado durante as observações, é que, mesmo existindo um repertório comum de atividades, mas com diferentes “dosagens” no que diz respeito às suas aplicações, também a postura das professoras na forma de executá-las muda de docente para docente. Basicamente, consegui identificar três tipos de posturas no acompanhamento das atividades dos alunos:
1) O acompanhamento dinâmico
A docente circula pela sala durante quase toda aula, observando as atividades realizadas por seus alunos, procurando saber sobre seus percursos e divulgando os achados mais interessantes. Ao adotarem esta postura, é bastante comum também as professoras auxiliarem os alunos na dimensão técnica. A plena interação entre docentes e discentes é a tônica deste perfil de acompanhamento. 2) O acompanhamento pontual
A docente se estabelece num ponto da sala, geralmente seu birô, e fica acompanhando as ações dos alunos de uma forma mais afastada. É possível que a docente se dirija a alguns grupos num dado momento da aula, mas, o movimento mais comum, é o dos alunos irem até ela para mostrarem seus achados. Tal movimento pode se dar espontaneamente, ou seja, os alunos vão até à professora, ou pode se dar via um chamado, a professora convoca os alunos.
3) O acompanhamento flexível
A docente explica a atividade a ser executada, e aproveita o momento para realizar outras demandas. Ao adotar este perfil, a professora permite que as monitoras de informática possam ter maior controle sobre as atividades realizadas pelos alunos. É bem comum nesta prática à estipulação de um tempo para realizar as tarefas e, no final delas, a professora passa nas mesas para ver a execução das mesmas.
Apesar de ter procurado categorizar os perfis de acompanhamento das docentes durante a implementação do PROUCA, vale a ressalva de que os mesmos não são cristalizados, ou seja, uma professora que tem o perfil de “acompanhamento dinâmico”, de acordo com as contingências, pode adotar o “acompanhamento flexível”. O que se pode inferir é que há uma recorrência desses tipos de acompanhamento no sentido de que uma professora “x” é mais dinâmica, flexível ou pontual durante seus acompanhamentos.
Mesmo tendo perfis diferenciados, no que se refere ao acompanhamento da utilização dos “uquinhas”, as professoras são quase unânimes ao afirmarem que o uso dos laptops educacionais contribuiu significativamente para forma como se relacionam com seus alunos. De acordo com o Gráfico 21:
Gráfico 21 - O trabalho com os "uquinhas" nas salas de aula de sua Escola contribuiu para mudanças na forma como professores e alunos dialogam?
Fonte: LEVANTAMENTO DIRETO, 2012.
93,3% das professoras responderam que a utilização dos “uquinhas” contribuiu para diminuir a distância entre elas e seus alunos. Ao longo deste texto levantei alguns elementos que podem ter contribuído para esta ocorrência, mas vale a pena retomar algumas deles com o objetivo de enfatizar as possibilidades oferecidas pela inserção das novas tecnologias em sala de aula.
Tal como observou Prensky (2001), as recentes gerações nascem imersas num contexto mediado pelas novas tecnologias, desse modo, a forma como compreendem o mundo em sua volta, já incorpora os usos dos artefatos digitais. Enquanto muitas professoras insistem em atividades que envolvem habilidades trabalhadas há décadas passadas, os estudantes anseiam por usarem no ambiente escolar as habilidades comuns aos seus meios de sociabilidade. Um exemplo para ilustrar tal situação é o fato de nas aulas de matemática, muitas docentes insistirem em trabalhar com longos cálculos feitos a partir de lápis e papel, quando milhares de aplicações para computadores e celulares permitem a realização de tais operações de forma mais rápida, e, em alguns casos, até mesmo possibilitando a criação de gráficos e animações que garantem uma melhor visualização dessas operações.
É certo que a realidade analisada por Prensky (2001) é a estadunidense, ou seja, um país que desde o início do século XX estabeleceu políticas para coibir as barreiras de comunicação, um processo que continuou a ser empreendido com o advento da sociedade informacional. Pelo menos é o que nos demonstra Campain (2001) em seu estudo sobre a divisão digital.
No Brasil, muitas pessoas ainda têm acesso limitado aos recursos digitais, mas, suas ações sofrem influência do advento de tais artefatos. As propagandas, as músicas os serviços etc. bombardeiam as pessoas com símbolos que estimulam a utilização dos dispositivos digitais. Nesse contexto, mesmo os alunos tendo pouco ou nenhum acesso a esses dispositivos, há entre eles uma noção da importância que o nosso contexto societário atribuiu no que concerne à utilização de tais ferramentas. Sendo assim, o uso dos “uquinhas” em sala de aula é como uma forma de dar ou qualificar o acesso a este imaginário que é comum à sua geração. Não é por menos que há uma enorme recorrência, na literatura relacionada ao PROUCA, sobre o fato dos alunos dominarem bem rápido as possibilidades dos “uquinhas” do que as professoras.
Quando os dispositivos digitais são incorporados na sala de aula, há a possibilidade para os alunos e professoras ressignificarem seus papéis, já que, além dessas tecnologias oferecerem uma série de recursos para o trabalho colaborativo, ou seja, estimula as ações trocas e cooperação, também abre espaço para que as estudantes possam aprender com os seus estudantes. Utilizando as tecnologias tradicionais, também há possibilidade de incorporar as práticas estimuladas com as novas tecnologias digitais, mas, elas são tomadas por uma simbologia que levam à linearidade, à hierarquização. Enquanto na utilização do “uquinha”, por exemplo, a solução de uma atividade pode se dar com a emergência de ambientes inéditos, ou seja, sites e conteúdos antes nunca vistos por qualquer elemento da turma, os livros, como comumente são trabalhados, disponibilizam as mesmas informações para todo mundo. Desse modo, a exploração do novo, do diferente, fica mais centralizado na figura da professora. Com os recursos digitais, a construção do conhecimento pode ser alimentada por várias pessoas. Sendo assim, há possibilidade de maior estímulo para todos aprenderem com todos.
A forma como as professoras trabalham o PROUCA na EGEDBA sofre uma série de influências, dentre elas, suas concepções pedagógicas, questões infraestruturais, situação da sala de aula etc. Sendo assim, há professoras que optam por realizar atividades com pesquisa e acompanham todos os passos de seus alunos, como também as que preferem deixar a atividade mais livre, como navegar nos sites desejados pelos alunos e também acessar jogos, e realizar um acompanhamento mais pontual das ações. O fato é que, conforme observado, embora exista prevalências de perfis na forma de moderar o uso dos “uquinhas”,
esses não são fixos, sofrem influências das diversas contingências que assolam o ambiente escolar.
O uso dos laptops educacionais promove uma maior aproximação entre as professoras e estudantes, pois além das práticas colaborativas, há a ocorrência de situações em que as trocas na construção do conhecimento se dão com mais equanimidade entre professoras x alunos, alunos x professores, alunos x alunos.