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TEÓRICAS E NOVOS ACORDES

2.2. P ENSO , LOGO EXISTO C ONSUMO , LOGO PENSO

Vários autores enfatizam a prevalência da produção em relação ao pólo de consumo. A reflexão sobre o processo produtivo seria bastante fecunda no campo das ciências humanas, mas, em algum momento, esse tipo de ênfase produziu certos obscurantismos e deixou de captar as demandas do outro pólo, como se tudo pudesse ser definido e reduzido ao pólo de produção. Esta ênfase, em certa medida, dificultou a concepção de teorias da recepção e de consumo mais complexas. Como ressalta Soares:

vê-se surgir uma perspectiva menos elitista de abordagem, e que tenta ver que não é suficiente reduzir toda a explicação dos mecanismos relativos à canção de consumo (e, de resto, de grande parte dos produtos da indústria cultural) ao puro critério das relações industriais e comerciais - sendo necessário tentar ir além dessa colocação, pelo exame das suas funções não apenas econômicas, mas também sócio- culturais: deixando os problemas de caráter estético para uma outra ordem de abordagem, aquela que ambiciona um maior entendimento da própria economia interna da organização musical (SOARES, 1994, p. 66-67).

A demanda e o consumo cultural, segundo Featherstone, não são ditados meramente pela oferta, mas precisam ser compreendidos no contexto de um quadro social. Trata-se de uma perspectiva que enfatiza que o consumo é eminentemente social, relacional e mais ativo que privado, atômico ou passivo (FEATHERSTONE, 1995). Como percebe Soares:

Isto posto, viu-se que trabalhar os problemas relativos à canção de consumo não implica, unicamente, em se levar em consideração uma sociologia da indústria do disco e sua configuração na sociedade de consumo; é igualmente necessário estudar as formas que suas relações econômicas e sócio-culturais assumem no interior de uma dada sociedade. Ou seja, na fronteira de uma ―sociologia do disco‖, deve-se assinalar os conhecimentos produzidos pelas demais sociologias (SOARES, 1994, p. 71).

Seguindo o raciocínio de um pensador como Adorno, ouvinte ideal implicado pela codificação psicoacústica do MP3 seria o distraído consumidor da cultura de massa. No nível psico-acústico e no nível industrial, o MP3 é projetado para as experiências simultâneas, algo projetado sob as posturas de escutas modernas (STERNE, 2006). Este foi um objetivo em longo prazo no projeto de tecnologias da reprodução. Apesar de Sterne estabelecer este argumento, é necessário frisar aqui que Adorno tinha uma preocupação que estava muito além dos suportes, mas num nível de da estética. Quando, por exemplo, Adorno criticava o Jazz mostrando que o espaço do improviso se tornava convenção, isso mostra que estamos num dado nível de reflexão que não pode ser traduzido ou simplificado ao seu suporte. No entanto,

o Mp3 sugere um audição ou um comportamento de escuta bastante distante da experiência musical tratada por Adorno.

A história do áudio digital foi lida pela maior parte dos estudos como sendo sobre o relacionamento dos originais e das cópias e, em especial, sobre o mote das fidelidades das cópias aos sons originais. No entanto, é sobre a experiência, melhor que do que na fidelidade, que nós encontramos a importância do mp3. Além disso, o mp3 sugere um desafio mesmo mais radical ao conceito de virtualidade por causa de sua interação direta e sensorial com o corpo.

Em consonância com Sterne, este estudo busca avaliar este novo formato além das condições de uma perspectiva de um objeto inerte que impactou uma indústria, um ambiente social ou um sistema legal. O estudo, pois, vislumbra superar as ações legais e econômicas, a partir dessas possibilidades de experiência de consumo. As discussões do som de mp3s fixaram nas suas propriedades sonoras, mas Sterne fornece um contexto importante para discussões das dimensões culturais, econômicas, legais, políticas de compartilhamento de arquivos.

Segundo Lévy, a reorientação da experiência musical foi possível devido às intervenções gerais da economia e da sociedade (globalização, desenvolvimento das viagens, extensão de um estilo de vida urbano e suburbano internacional, movimentos culturais e sociais da juventude), bem como às condições econômicas e técnicas da gravação, distribuição e audição da música (LÉVY, 2000). Embora o fenômeno tenha desembocado numa padronização em nível industrial, por meio da gravação e criação de um contexto sonoro mundial, não podemos estreitar a compreensão de uma homogeneização definitiva ou total. É considerável este fenômeno diante da lógica industrial da cultura, mas não podemos empacar ou nos limitar a essa parcialidade. Nem tudo que a indústria promove gera conformismo, bem como as leituras e apropriações destas produções vão além dos efeitos pretendidos. Neste sentido, é necessário discutir a perspectiva de consumo que pretendo alicerçar para o estudo, visto que é de fundamental importância o caráter da ―agência‖ nesse processo.

O fundamento que me aproxima das posições de Mike Featherstone diz respeito à perspectiva de focalizar cada vez mais a cultura de consumo e não simplesmente considerar que o consumo deriva inequivocamente da produção. A fase atual, de oferta excessiva de bens simbólicos nas sociedades ocidentais contemporâneas, e as tendências para a desclassificação e desordem cultural (que segundo ele alguns rotulam de pós-modernismo) estão, portanto...

pondo em evidência as questões culturais e têm implicações mais amplas em nossa conceituação do relacionamento entre cultura, economia e sociedade. Esses fenômenos têm resultado ainda num interesse cada vez maior por conceituar questões de desejo e prazer, as satisfações emocionais e estéticas derivadas das experiências de consumo, não simplesmente em termos de alguma lógica de manipulação psicológica (FEATHERSTONE, 1995, p.32).

Feito esse contraponto, para Featherstone a sociologia deveria avançar em relação aos obscurantismos da avaliação negativa dos prazeres do consumo, herdada da cultura de massa. Devemos, portanto, nos esforçar para explicar essas tendências emergentes com uma atitude sociológica mais distanciada, o que por sua vez ajuda no afastamento de uma celebração populista dos prazeres de massa e da desordem cultural.

Em consonância com Mike Featherstone, acredito também que precisamos argumentar...

em favor da perspectiva de longo prazo na cultura e na qual o enfoque não se encontra nem na produção cultural nem no consumo cultural per se. Em vez disso, precisamos examinar seu necessário inter- relacionamento e os movimentos em direção às teorizações que enfatizam a exclusividade do valor explanatório de cada uma dessas abordagens, tendo em vista a ascensão e queda de determinado conjunto de pessoas envolvidas com as interdependências e as lutas de poder. Com efeito, precisamos enfocar os processos, em longo prazo, da produção cultural nas sociedades ocidentais, que possibilitaram o desenvolvimento de uma enorme capacidade de produzir, circular e consumir bens simbólicos (FEATHERSTONE, 1997, p.54).

Numa posição marcada por uma leitura mais próxima da Teoria crítica, mas percebendo a necessidade de mudança no foco das análises nas sociedades contemporâneas, Cohn avalia que:

resta saber, em cada momento, até onde chega o império da produção e até onde vai a capacidade de escolha daquilo que, de maneira nunca plenamente realizada, seriam as entidades individuais, os receptores finais. Junto com isso, claro, trata-se, de saber o que define, em cada momento, a relação entre esses dois pólos‖ (COHN, 2008, p. 72).