Capítulo I – A História da Arte 25
3. A Iconografia e a Iconologia 51
3.1. Panofsky: Iconografia e Iconologia 53
A explicação semântica dos termos Iconografia e Iconologia é dada por Erwin Panofsky no seu trabalho Iconografia e Iconologia: uma introdução ao estudo da arte no
Renascimento, de 1955145. O sufixo “grafia” deriva do verbo grego graphein, e exprime
uma noção de escrita, «a Iconografia é então uma descrição e classificação de imagens». Serve para recolher e classificar os testemunhos mas não explica o significado desses mesmos testemunhos. Estuda as influências de ideias teológicas, filosóficas ou políticas, os
140 Vítor Serrão – Estudos de pintura Maneirista e Barroca. Lisboa: Editorial Caminho, 1989, p. 309. 141 Vítor Serrão – Estudos de pintura Maneirista e Barroca. Lisboa: Editorial Caminho, 1989, p.309. 142 Vítor Serrão – Estudos de pintura Maneirista e Barroca. Lisboa: Editorial Caminho, 1989, p. 310. 143 Vítor Serrão – Estudos de pintura Maneirista e Barroca. Lisboa: Editorial Caminho, 1989, p. 282. 144 Vítor Serrão – Estudos de pintura Maneirista e Barroca. Lisboa: Editorial Caminho, 1989, p 282.
145 Trata-se de um ensaio que constitui o capítulo I da obra de PANOFSKY, Erwin – O Significado nas Artes Visuais. Lisboa: Editorial Presença, 1989, pp. 31-49.
objetivos e as tendências dos artistas e dos patronos, bem como a correlação entre os conceitos e a forma exterior que cada elemento iconográfico possui. A Iconografia faz um estudo crítico a uma das partes que constitui o “todo”, que é o objeto estético porque, «têm de ser tornados explícitos se a sua percepção quer ser articulada e comunicável»146. Já o sufixo “logia” provém de logos que significa “pensamento” ou “razão” e exprime uma noção de saber. A Iconologia é uma Iconografia interpretativa, é um método de interpretação «que deriva mais da síntese do que da análise»147.
Para a análise da obra de arte como um todo, ou como uma unidade, Panofsky diz dever empreender-se o seu estudo como uma manifestação cultural que ultrapassa o seu valor estético, a qualidade técnica ou o sentimento que as suas formas possam despertar no fruidor148. Destacamos as suas próprias palavras: «Numa obra de arte, a “forma” não pode ser separada do seu “conteúdo”: a distribuição da cor, a das linhas, da luz e da sombra, dos volumes e dos planos – não importa quão agradável possa resultar como espectáculo visual – tem também de ser compreendida como suporte de um significado mais do que visual»149.
Na reedição de Estudos de Iconologia datada de 1962, Erwin Panofsky acrescenta alguns comentários e bibliografia aos textos a que chamou «um livro quase esquecido», e inicia-o com a seguinte afirmação: «A Iconografia é o ramo da História da Arte que trata do conteúdo temático ou significado das obras de arte, enquanto algo de diferente da sua forma»150. O historiador da Arte para além de estudar as formas de uma obra analisa igualmente o sentido das imagens veiculado por essa mesma obra de arte. Panofsky enuncia, no prefácio desta edição, que não devemos confundir o “tema” com a “narração de um assunto”, embora as obras que aparentemente careçam de assunto possam conter mais do que “salta à vista”151.
Para E. Panofsky a análise de uma obra de arte deve situar-se em três níveis: O primeiro nível diz respeito à «descrição pré-iconográfica» e representa o «conteúdo
146 PANOFSKY, Erwin – O Significado nas Artes Visuais. Lisboa: Editorial Presença, 1989, p. 34. 147 PANOFSKY, Erwin – O Significado nas Artes Visuais. Lisboa: Editorial Presença, 1989, p. 34.
148 Panofsky teoriza sobre a identificação de uma obra através da “História do estilo” e em “Notas” (nota de
rodapé n.º 3) refere «quer se trate de fenómenos históricos quer de fenómenos naturais, a observação só assume o carácter de um “facto”quando pode ser relacionada com outras observações análogas, de forma a que a série completa “faça sentido”». PANOFSKY, Erwin – Estudos de Iconologia. Temas humanísticos na
Arte do Renascimento. Lisboa: Editorial Estampa, 1986, p. 38.
149 PANOFSKY, Erwin – O Significado nas Artes Visuais. Lisboa: Editorial Presença, 1989,p. 109.
150 PANOFSKY, Erwin – Estudos de Iconologia. Temas humanísticos na arte do renascimento. Lisboa:
Editorial Estampa, 1982. [versão revista pelo autor em 1962], p. 19.
151 PANOFSKY, Erwin – Estudos de Iconologia. Temas humanísticos na arte do renascimento. Lisboa:
temático natural ou primário», tratando-se de uma descrição da obra de arte em si, a identificação das «formas puras»152, das representações de objetos naturais. Consiste em reconhecer e identificar o que se observa, como as formas antropomórficas, zoomórficas ou botânicas, os gestos simples de alegria ou tristeza, as formas primárias naturais do quotidiano. É um exame baseado na nossa experiência, pois que qualquer um de nós pode perceber de uma obra de arte «o mundo de puras formas reconhecido assim como portador de significados primários ou naturais pode ser designado como o mundo dos motivos artísticos. A numeração destes motivos seria uma descrição pré-iconográfica de uma obra de arte»153.
O segundo nível de análise, nomeado pelo autor como «conteúdo secundário ou convencional», pretende identificar os motivos e os seus significados a que se chama imagens, sendo a sua combinação designada como histórias e alegorias. Panofsky exemplifica lembrando que, ao vermos um grupo de figuras sentadas a uma mesa numa determinada combinação e atitude, percebemos ser a “Última Ceia”. Requer o saber específico obtido pelas fontes literárias, histórias e alegorias.
Ao terceiro nível de análise chama o autor «significado intrínseco ou conteúdo» e consiste em investigar sobre o conceito e as ideias que se escondem nos assuntos ou temas figurados e sobre o seu alcance num contexto cultural relacionado com a obra de arte. Panofsky, neste ponto, repete o exemplo anterior, dizendo que se percebemos que o grupo de treze homens à volta de uma mesa é a “Última Ceia” representada por Leonardo da Vinci, julgamos a obra de arte através dos traços artísticos e iconográficos. Ao contextualizar o artista e a época da criação do produto artístico, ou de uma regra religiosa própria, «estamos a tratar a obra de arte enquanto sintoma de outra coisa»154; ou seja, investigamos o conceito das ideias que se escondem nos assuntos ou temas figurados e o seu alcance num contexto cultural determinado. «A análise correcta de “imagens”, “histórias” e “alegorias” é a condição prévia duma correcta “interpretação iconográfica num sentido mais profundo”»155.
152 PANOFSKY, Erwin – Estudos de Iconologia. Temas humanísticos na arte do renascimento. Lisboa:
Editorial Estampa, 1982. [versão revista pelo autor em 1962], p. 21.
153 PANOFSKY, Erwin – O Significado nas Artes Visuais. Lisboa: Editorial Presença, 1989, p. 32.
154 PANOFSKY, Erwin – Estudos de Iconologia. Temas humanísticos na arte do renascimento. Lisboa:
Editorial Estampa, 1982. [versão revista pelo autor em 1962], pp. 22-23.
155 PANOFSKY, Erwin – Estudos de Iconologia. Temas humanísticos na arte do renascimento. Lisboa:
No seu trabalho intitulado A Perspetiva como forma simbólica, Panofsky estabelece a relação entre o ideal, os pormenores resultantes da investigação histórica e os conceitos teóricos na base das obras, afirmando que a forma da perspetiva pictórica é, para além de um progresso técnico, uma atitude, um símbolo cultural: «Para concluir diremos que a perspetiva abre a Arte ao reino do psicológico, no melhor dos sentidos, porque a alma humana encontra o miraculoso, o derradeiro refugio e aí é representado como obra de arte. Sem a visão perspetiva do espaço não teriam surgido as fantasmagorias soberbas do barroco […]. Ao transformar a ousia (a realidade) em phainomenon (aparência), a perspetiva parece reduzir o divino a simples tema da consciência humana»156. Razão pela
qual a perspetiva desenvolve a própria intuição do homem, conclui Panofsky, acrescentando não ser ocasional que «esta visão perspetiva do espaço se tenha imposto no decurso da História da Arte em dois momentos. Primeiro assinalou um fim, a queda da teocracia da Antiguidade. Mais tarde marcou um começo, o da “antropocracia” moderna»157.
Segundo Erwin Panofsky qualquer pessoa pode reconhecer as formas, o conteúdo secundário ou convencional. Pode conhecer os temas e os conceitos veiculados pelas fontes literárias, mas estas afirmações exatas não chegam para uma interpretação profunda do objeto artístico158. Acrescenta este autor que o historiador da Arte terá de comparar o que julga ser o significado intrínseco da obra em estudo com o significado intrínseco de todas as fontes documentais, as tendências políticas, literárias, religiosas, filosóficas e sociais da época, personalidades ou país em que a obra de arte foi produzida. O historiador social deverá fazer uma leitura análoga à obra de arte: «É na busca dos “significados intrínsecos” ou do “conteúdo” que as várias disciplinas humanísticas se encontram num plano comum em vez de serem dependentes umas das outras»159.
156 PANOFSKY, Erwin – A Perspetiva como forma simbólica. Lisboa: Edições 70, 1993, p. 67. 157 PANOFSKY, Erwin – A Perspetiva como forma simbólica. Lisboa: Edições 70, 1993, p. 67.
158 PANOFSKY, Erwin – Estudos de Iconologia. Temas humanísticos na arte do renascimento. Lisboa:
Editorial Estampa, 1982, p. 25.
159 PANOFSKY, Erwin – Estudos de Iconologia. Temas humanísticos na arte do renascimento. Lisboa: