Esta ausência de resposta e de estratégia produziu mobilizações que saíram às ruas. O Bloco de Esquerda dialoga com essas mo-bilizações e avança um programa que lhes responde.
As propostas do Bloco
Foto / Ana Mendes
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▶ Alteração do Estatuto dos Profissionais da Cultura, com medidas concretas para a pro-moção de contratos dos trabalho e combate à precariedade - em especial ao falso trabalho autóno-mo - , mais apoio à reconversão nas profissões de desgaste rápido e universalização do acesso à proteção social na intermitência;
▶ Programa de combate ao tra-balho informal, com responsabi-lização das entidades patronais e possibilidade de reconstituição de carreiras contributivas;
▶ Vinculação dos trabalhado-res precários dos organismos públicos e autonomia de con-tratação das instituições públicas para preenchimento dos lugares de quadro vazios;
▶ Garantia do cumprimento da legislação laboral, nomeada-mente a celebração de contratos de trabalho, nos protocolos e pro-gramas de financiamento público a instituições e projetos culturais;
▶ Criação de uma plataforma online com recursos e mate-riais úteis aos trabalhadores da cultura, como legislação laboral, informação sobre proteção social e fiscalidade, minutas de contra-tos, documentos de boas práticas e contactos úteis;
▶ Programa excepcional de recuperação do tecido cultural
com apoio à retoma de atividade de micro e pequenas empresas e de associações, agentes e produ-tores, salas de espetáculos e ou-tros espaços culturais de pequena dimensão, incluindo apoio à regu-larização de contratos de trabalho e à recontratação de trabalhado-res da cultura que se viram for-çados a procurar outra atividade desde o início da pandemia;
▶ Inscrição no Orçamento do Estado a dotação de 1% do PIB para a Cultura;
▶ Criação de uma Lei de Bases da Cultura que redefina o papel do Estado na democratização e universalização dos serviços públicos de Cultura, reorganizan-do legislação e reativanreorganizan-do e redes existentes, como a Lei Quadro dos Museus Portugueses, a Lei de Bases do Património Cultural, a Rede Nacional de Bibliotecas e a Rede de Teatros e Cineteatros;
▶ Reativação do Observatório das Atividades Culturais como organismo do Ministério da Cul-tura e redefinição do Conselho Nacional de Cultura como local de pensamento estratégico das políti-cas públipolíti-cas de cultura, nomeada-mente garantindo a autonomia da secção de património e extinguin-do a secção de tauromaquia;
▶ Financiamento plurianual dos equipamentos públicos (museus, teatros nacionais,
bi-bliotecas e arquivos nacionais), das orquestras regionais e das entidades privadas que contra-tualizam serviço público com o Estado; concursos, protocolos e financiamento em prazos com-patíveis com a programação;
transparência e simplificação dos respetivos procedimentos;
▶ Revisão da tutela dos mu-seus, património classificado e património arqueológico, com-batendo o gigantismo da DGPC, e efetivar a aplicação da Lei da Autonomia e Monumentos;
▶ Recuperação dos laborató-rios de conservação e restau-ro, dotando-os dos meios neces-sários e salvaguardando o saber acumulado durante décadas nesta área;
▶ Definição de estratégias dife-renciadas para os usos de inte-resse público do Património;
▶ Promoção dos Arquivos Nacionais, com garantias de autonomia, meios adequados e política de novas incorporações para a Torre do Tombo e para o Arquivo Nacional das Imagens em Movimento e com a concreti-zação do Arquivo do Som;
▶ Programa de salvamen-to e valorização de arquivos e inventários do Património Cultural Português material e imaterial;
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A CAPACIDADE ESTRATÉGICA DOS SERVIÇOS PÚBLICOSPROGRAMA ELEITORAL BLOCO DE ESQUERDA
▶ Criação de um Observatório de Monitorização do patri-mónio português classificado como Cultural da Humanidade, composta maioritariamente por entidades não governamentais;
▶ Identificação, classificação e promoção dos sítios re-presentativos do Património Cultural Imaterial da Humani-dade, incluindo linhas de apoio a artesãos, casas de fado, sedes da prática coletiva do cante alen-tejano e outras coletividades que mantêm vivo o património imate-rial classificado;
▶ Reforço dos meios da Rede Nacional de Bibliotecas Pú-blicas, da Rede Nacional de Bibliotecas Escolares e das bibliotecas de investigação (Biblioteca Nacional, Biblioteca da Ajuda, Biblioteca da Acade-mia das Ciências, entre outras), garantindo quadros de pessoal e políticas de aquisições e sensibi-lização de públicos adequados à sua missão;
▶ Revisão da Lei do Preço Fixo do Livro, combatendo a con-centração do mercado livreiro e promovendo mecanismos de apoio a livrarias e editoras inde-pendentes;
▶ Definição da missão do Fundo de Fomento Cultural e estabelecimento de mecanismo de transparência nos protocolos
com as fundações financiadas (Serralves, Casa da Música, Mu-seu Berardo, entre outras);
▶ Aumento significativo e di-versificação do financiamento à criação artística e aos proje-tos de difusão da criação artís-tica, considerando redes de pro-gramação e áreas que têm sido marginalizadas nos programas de financiamento (literatura, música e artes plásticas, entre outras);
novas linhas de financiamento (artistas jovens, projetos artísticos nas escolas, entre outras); me-canismos de coesão territorial na distribuição do financiamento;
▶ Aumento progressivo da li-nha de financiamento à progra-mação dos equipamentos da Rede de Teatros e Cineteatros Portugueses e criação de outras linhas de financiamento asso-ciadas à RTCP, para formação profissional, aquisição de equipa-mentos, medidas de sustentabili-dade energética, entre outras.
▶ No cinema e audiovisual, a par com o reforço do financia-mento, combate ao monopólio na distribuição, criando uma entidade pública de distribuição que permita estruturar o acesso de cineteatros públicos e cine-clubes à produção cinematográfi-ca nacional e internacional;
▶ Criação de novas obriga-ções para operadoras e
distri-buidoras cujo modelo de ne-gócio assenta nos conteúdos culturais, incluindo quotas para a produção musical e audiovi-sual portuguesa independente, fim da taxa da cópia privada, promoção da organização cole-tiva dos direitos dos autores, ar-tistas e intérpretes, sem prejuízo da decisão individual sobre a disponibilização das suas obras;
▶ Imposição de mecanismos de justa retribuição aos autores, artistas e intérpretes na trans-posição das directivas relativas a direitos de autor e direitos co-nexos em streaming e no Merca-do Único Digital;
▶ Assunção da RTP como parceiro privilegiado da cul-tura, com reforço dos meios e obrigações da rádio e televisão públicas na produção e difusão culturais. Articulação entre o Arquivo da RTP e a Cinema-teca/ANIM para o acesso dos criadores aos arquivos e para a criação de um arquivo de som e imagem da produção artística;
▶ Promoção da presença das artes na vida pública e na Escola, defesa do ensino e práticas artísticas, promoção da literacia da leitura e outras, incluindo a literacia para a ima-gem e novos media, reforço de políticas culturais de proximida-de através proximida-de contratos locais de parceria entre equipamentos
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culturais, sociais, escolas e outros;
▶ Promoção da produção e fruição da cultura: pre-sença de produção nacional na web, com disponibili-zação gratuita de todas as obras nacionais em domínio público, descriminalização da partilha não comercial, programa estratégico para arquivos, definição de crité-rios de coleção, preservação, documentação, digitalização e acesso público;
▶ Criação de um plano de visibilização, fomento e mediação dirigido a mani-festações culturais de comu-nidades minoritárias;
▶ Garantia do acesso pleno a pessoas com diversidade funcional a equipamentos culturais, apoio à interpreta-ção em língua gestual por-tuguesa nos espetáculos ao vivo e à produção de versões em braille ou em áudio dos materiais impressos;
▶ Política de preços que garanta o direito de aces-so aos equipamentos cul-turais: programas de acesso livre para estudantes, de-sempregados e reformados, bilhetes de família a preços acessíveis e dias de acesso gratuito.
18. ENSINO SUPERIOR E INVESTIGAÇÃO CIENTÍFICA A produção de conhecimento através da ciência, a sua dissemi-nação e partilha são instrumentos essenciais para a luta contra o obscurantismo e a ignorância em geral, que põem em causa não só a compreensão e resolução das presentes emergências ambien-tais, sanitárias e sociais, mas também a maneira como perspe-tivamos e lidamos com potenciais desafios e crises futuras.
Assiste-se atualmente a uma rápida e preocupante erosão da confiança do público na evidência científica e a uma degradação sis-témica da governança da ciência, frequentemente sem estratégias informadas e de difícil aplicação, sustentadas por um investimento
público anémico e manifestamente insuficiente, optando frequente-mente por preterir ciência funda-mental por ciência aplicada de du-vidosa qualidade centrada numa visão utilitarista da ciência como mero instrumento económico e as-sente na ideia simplista e redutora de que crescimento económico é sinónimo de qualidade de vida.
São assim urgentes políticas que revertam esta situação e que garantam a execução de objetivos definidos após reflexão profunda e discussão alargada, e que viabili-zem e consolidem infraestruturas de investigação científica e a for-mação e manutenção de traba-lhadores qualificados que dentro do sistema científico nacional promovam efetivamente a criação de conhecimento e inovação, a
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A CAPACIDADE ESTRATÉGICA DOS SERVIÇOS PÚBLICOSPROGRAMA ELEITORAL BLOCO DE ESQUERDA
defesa dos valores imateriais da ciência e da cultura científica e, di-reta e indidi-retamente o aumento da prosperidade, saúde, segurança e bem estar de todos os cidadãos.
18.1. Por uma política de
investimento público no Ensino Superior e na Ciência
Na última década, as instituições de Ensino Superior e todo o setor sofreram uma quebra de cerca de um terço no seu financiamento, conduzindo-as a uma política de gestão de curto prazo e de so-brevivência, baseada na procura de receitas próprias - propinas, contratos com empresas privadas, taxas e emolumentos. A despesa em Portugal com o Ensino Supe-rior é de tal forma limitada que não atinge 1,5 do PIB. A pressão para as instituições de Ensino Superior procurarem financiamento próprio implica uma transformação brutal na natureza da sua gestão e do próprio fim do Ensino Superior Público enquanto serviço público.
Os objetivos traçados pelo atual ministro não são animadores. Nos seus cálculos, Portugal deverá alcançar a meta dos 3% do PIB
em Ciência, mas dois terços desse valor dependem de investimen-to privado e são incerinvestimen-tos. Esta inversão do papel do Estado na garantia de investimento públi-co num setor tão fundamental é justamente aquilo que o Bloco se propõe alterar.
18.2. Democratizar as
Instituições de Ensino Superior, combater a mercantilização e reverter a precariedade
O Regime Jurídico das Instituições de Ensino Superior (RJIES) intro-duziu uma lógica mercantil no fun-cionamento do sistema, patente na entrada para os Conselhos Gerais dos representantes dos principais grupos económicos, ao mesmo tempo que remeteu para um nível quase simbólico a democracia na gestão da academia. O RJIES estabeleceu ainda uma hierarquia inaceitável entre universidades do mesmo sistema, introduzindo incentivos financeiros em função das escolhas de modelo de gestão e condicionando, por essa via, a autonomia das instituições.
A empresarialização da gestão académica, combinada com o
défice democrático, transformou o Ensino Superior numa fábrica de gente precária: falsos bolseiros e bolseiras, docentes contratados e contratadas de semestre em semestre para assegurar tarefas permanentes, uso e abuso da figura de “docente convidado ou convidada” para evitar a aber-tura de concursos para lugar de carreira são apenas alguns exem-plos do estado de degradação que o setor atingiu. A abertura do Processo de Regularização Extraordinária de Vínculos Labo-rais Precários na Administração Pública (PREVPAP) trouxe luzes sobre a dimensão da precariedade na investigação e no ensino supe-rior. No entanto, quer o PREVPAP quer a Lei 57/2017 têm tido uma aplicação muito limitada, tendo esbarrado na oposição de muitos reitores e na inação do governo.
Durante a pandemia, o aumento do assédio laboral e a maior con-centração de poder nos reitores e presidentes dos politécnicos tornaram ainda mais desigual esta relação que, na verdade, deveria pautar-se por um respeito profis-sional e académico entre pares.