Várias são as causas de perda de biodiversidade no planeta identificadas e estudas pela Biologia da Conservação. Podemos identificar causas diretas e indiretas dessa perda (GUAPYASSU, 2006). As causas diretas, em síntese, são a destruição e a degradação de
habitat, (notadamente a poluição e a fragmentação), invasão de espécies introduzidas e super- exploração de recursos vivos e não-vivos. As causas indiretas são aquelas que promovem as causas diretas, todas relacionadas com o modelo desenvolvimentista já discutido, podendo ser resumidas no seguinte: crescentes índices demográficos, tecnologias não sustentáveis de exploração e uso de recursos, opções de usos e valores éticos, políticos, religiosos e jurídicos que determinam certos modos de usar os recursos naturais, desigualdade social entre castas sociais e nações no acesso e uso de recursos naturais, supremacia de determinadas atividades econômicas sobre outras e monopólio de mercados, da informação, do conhecimento e de tecnologias alternativas de produção (GUAPYASSU, 2006; PELIZZOLI, 2004).
O modo de vida da modernidade e os valores que o sustentam, portanto, são as causas indiretas de perda de biodiversidade do planeta. Sua lógica de acumulação de bens de produção e consumo impõe uma freqüência e um grau de interferência nos componentes ecológicos que inviabiliza o uso ecologicamente envolvido de recursos a médio e longo prazos e a sua disponibilização para o saciamento das necessidades básicas dos mais de 6 bilhões de habitantes humanos e os outros seres vivos deste Planeta.
Para o enfrentamento dessas causas de perda de habitats e de biodiversidade, a Biologia da Conservação tem produzido informações, questionado valores sociais, éticos, religiosos e jurídicos, buscado alternativas econômicas e políticas e desenvolvido técnicas de conservação, no nível das espécies e populações e no nível das comunidades ecológicas. Essas técnicas e instrumentos criados, bem como os valores ecológicos aí embutidos, têm sido incorporados pela legislação ambiental mundial e brasileira (BRITO, 2000). Dentre eles estão as unidades de conservação e seus mecanismos de gestão que se sintetizam no seu plano de manejo e conselho gestor.
O conselho gestor e a unidade de conservação constituem fóruns locais ou regionais de discussão política e econômica para o desvendamento de alternativas à sobrevivência digna do homem com respeito às demais formas de vida existentes e com respeito à justiça na distribuição dos recursos. Dentre as estratégias da Biologia da Conservação, a unidade de
conservação de proteção integral é, se efetivamente implementada, a mais eficiente e completa para o enfrentamento das causas de perda de biodiversidade apresentadas.
Existem basicamente duas estratégias de conservação: a conservação ex situ e a conservação in situ. Conservação ex situ ou fora da natureza “é a preservação de componentes da diversidade biológica fora de seus habitats naturais em ambientes artificialmente mantidos como zoológicos19, aquários, jardins botânicos20 e bancos de gens” (GUAPYASSU, 2006). A conservação in situ ou na natureza, é a mais recomendada e a mais eficiente, principalmente para a proteção de comunidades e manutenção da dinâmica dos processos naturais. O conceito foi positivado no art. 2º, inciso VII, da Lei do SNUC como sendo a “conservação de ecossistemas e habitats naturais e a manutenção e recuperação de populações viáveis de espécies em seus meios naturais e, no caso de espécies domesticadas ou cultivadas, nos meios onde tenham desenvolvido suas propriedades características” (MEDAUAR, 2008).
A conservação ex situ é recomendada para a proteção de espécies e populações com grandes exigências de espaço, mas que estão sofrendo com a fragmentação e destruição de seu habitat, sendo levada ao declínio. Todavia, a conservação ex situ só faz sentido se combinada com a conservação in situ. Manter alguns exemplares de uma espécie vivos por procedimentos artificiais e em cativeiro, desconsiderando a possibilidade de se devolvê-los à natureza ou ao menos manter espécies e suas populações viáveis em seu ambiente natural é, em verdade, reconhecer sua extinção ecológica, embora não a extinção biológica. Isso porque não faz sentido manter uma espécie fora do seu processo evolutivo e sem cumprir suas funções ecológicas, não obstante, se aliada à conservação in situ, a conservação ex situ matém um “pool” genético da espécie, que também pode ser garantido em bancos de tecido.
A conservação ex situ deve ser considerada como um instrumento de monitoramento e manejo de espécies e populações raras ou ameaçadas de extinção de forma a garantir sua existência e viabilidade na natureza. As estratégias de conservação ex situ e in situ devem ser
19 No Brasil, a disciplina de Jardins Zoológicos é feita pela Lei Federal nº 7.173/83, e por vários atos
administrativos normativos do IBAMA.
consideradas abordagens complementares, sendo a conservação ex situ um dos instrumento da conservação in situ. Ao se adotar com exclusividade a conservação ex situ, não teremos, em verdade uma estratégia de conservação, mas uma opção pela coleção de fósseis vivos (PRIMACK; RODRIGUES, 2001).
A estratégia de conservação in situ mais recomendada para a efetiva proteção da biodiversidade é a criação de unidades de conservação de proteção integral. Todavia, essa deve ser aliada à criação de unidades de conservação de uso sustentável e outros instrumentos de gestão territorial como os Planos Diretores Municipais e os denominados Zoneamentos Ecológico-Econômicos que também cumprem papel decisivo na conservação in situ, estabelecendo zonas de amortecimento, corredores ecológicos e padrões diferenciados de uso dos recursos naturais. Isso porque não é possível conseguir fazer com que um ecossistema e suas espécies desenvolvam seu papel evolutivo e ecológico isolando-os. Tampouco se pode conceber a conservação sem pensar na estruturação da paisagem e das atividades humanas, de forma a poder harmonizar a presença e convivência desses seres vivos. Por conta disso é que se faz necessário conciliar espaços intocados ou relativamente intocados com espaços ocupados e utilizados pelo homem de maneira ecologicamente envolvida.
A proteção de espaços intactos deve, dessa forma, se articular com o planejamento da gestão territorial dos espaços ocupados pelo homem, de forma a harmonizar a ocupação humana com os projetos de conservação de proteção integral. Os ecossistemas e todas as suas comunidades vivas podem ser protegidos pelo estabelecimento de espaços especialmente protegidos, dentro e fora de unidades de conservação e ainda com apoio da restauração e da recuperação ecológica em espaços já antropizados, que poderão servir tanto à proteção integral da natureza, quanto à reutilização por atividades humanas, evitando, assim, novas pressões sobre espaços não alterados.
Os ecossistemas da terra podem, desse modo, ser classificados desde os mais intactos, ou seja, os que possuem a menor interferência humana possível e os mais antropizados, como áreas rurais e cidades, que também devem ser considerados ecossistemas, ainda que mais homogêneos e pobres em biodiversidade (SPIRN, 1994). Em cada um desses ecossistemas é
possível se estabelecer a conservação, a preservação e a recuperação ambiental. Todavia, é imperioso lembrar que essas estratégias de conservação da biodiversidade só fazem sentido com a manutenção de grandes espaços integralmente protegidos da antropização humana, que, no caso brasileiro, são as unidades de conservação de proteção integral, seguidas das Áreas de Preservação Permanente (artigos 1º, 2º e 3º do Código Florestal Brasileiro, Lei nº 4.771/65 – MEDAUAR, 2008).