4 LIMITES E POSSIBILIDADES DA FLEXIBILIZAÇÃO TRABALHISTA NO BRASIL
4.1.3 Permanência do Programa de Proteção ao Emprego
Instituído pela Lei n.º 13.189, de 19 de novembro de 2015 134, o Programa de Proteção ao Emprego (PPE) é medida transitória, à qual poderiam aderir as empresas em situação de dificuldade econômico-financeira até 31 de dezembro de 2016, pelo período máximo de vinte e quatro meses (artigo 2º), respeitada a data de extinção do programa, prevista para 31 de dezembro de 2017 (artigo 11).
O Programa tem como objetivos “possibilitar a preservação dos empregos em momentos de retração da atividade econômica”, “favorecer a recuperação econômico- financeira das empresas”, “sustentar a demanda agregada durante momentos de adversidade, para facilitar a recuperação da economia”, “estimular a produtividade do trabalho por meio do aumento da duração do vínculo empregatício” e “fomentar a negociação coletiva e aperfeiçoar as relações de emprego”, sendo tratado pelo governo como uma “ação para auxiliar os trabalhadores na preservação do emprego” (artigo 1º) 135.
134 PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. Lei nº 13.189, de 19 de novembro de 2015. Institui o Programa de Proteção ao Emprego - PPE. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015- 2018/2015/Lei/L13189.htm>. Acesso em: 29 nov. 2016.
135 Id.
Os meios autorizados pelo PPE para concretização de seus objetivos encontram-se expostos no artigo 5º da Lei n.º 13.189/2015, quais sejam, a redução da jornada de trabalho e a concomitante redução salarial, ambos em percentual máximo de 30%, por aquelas empresas que aderirem ao programa, após a demonstração do preenchimento de alguns requisitos, tais como, comprovação da situação de dificuldade econômico-financeira, fundamentada no Indicador Líquido de Empregos.
Observa-se, portanto, que o Programa de Proteção ao Emprego utiliza-se da flexibilização trabalhista como forma de garantir a manutenção do emprego, ainda que com salário e jornada reduzidos, e aliviar a carga trabalhista que onera as empresas em crise econômico-financeira. Neste diapasão, observa-se que a lógica do programa gira em torno do pressuposto de que a preservação dos empregos se sobrepõe à garantia constitucional de irredutibilidade salarial dos trabalhadores, os quais serão devidamente compensados com a correspondente redução da jornada de trabalho.
Não obstante, o artigo 4º, caput, da Lei n.º 13.189/2015, garante ao trabalhador, ainda, uma compensação da perda financeira garantida pelo Estado, o qual custeará 50% do valor da redução salarial efetivada em face do empregado participante do programa, respeitado o teto máximo de 65% da parcela do seguro-desemprego.
A origem do PPE encontra-se na Alemanha – onde chamava-se “kuzarbeit” – e lá o mesmo fora constituído para se permitir a redução da jornada de trabalho no combate aos efeitos no auge da crise econômica mundial iniciada no ano de 2009. Segundo relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o instituto atendeu aproximadamente 1,5 milhões de trabalhadores alemães e preservou cerca de 400 mil postos de trabalho 136.
As reduções autorizadas pelo Programa, todavia, poderão ser implementadas somente mediante celebração de Acordo Coletivo de Trabalho Específico (ACTE) com o sindicato profissional da categoria afetada, com o devido registro no sistema Mediador do
136 CALCINI, Ricardo. Uma análise sobre o Programa de Proteção ao Emprego. Disponível em: <http://jota.info/artigos/uma-analise-sobre-o-programa-de-protecao-ao-emprego-25082015>. Acesso em: 04 dez. 2016.
Ministério do Trabalho e Emprego (artigo 4º, parágrafo 2º, da Lei n.º 12.189/2015 137). Para que referido Acordo seja válido, é necessário o cumprimento de requisitos mínimos necessários, quais sejam: o período pretendido de adesão ao PPE; os percentuais de redução da jornada de trabalho e da remuneração; os estabelecimentos ou setores da empresa abrangidos pelo PPE; a relação dos trabalhadores atingidos, devidamente identificados; e a previsão de constituição de comissão paritária para acompanhamento e fiscalização do PPE e do Acordo (artigo 5º).
Nesse contexto, observa-se que o Programa de Proteção ao Emprego é norteado por princípios da flexibilização trabalhista positiva, na medida em concede a empregados e empregadores uma pequena margem de negociação das condições de trabalho, com o objetivo de propiciar a continuidade das relações de trabalho em momentos de crise econômica, sem que tal negociação importe em uma perda dos direitos trabalhistas garantidos aos empregados atingidos. Com efeito, a instituição de uma compensação pecuniária por parte do Estado e a exigência de que a implementação do Programa se dê mediante Acordo Coletivo de Trabalho Específico, bem como de que a fiscalização do mesmo se dê por uma comissão paritária, garante que haja a proteção do trabalhador com a preservação de sua dignidade e dos valores sociais do trabalho.
Por outro lado, há que se destacar que o Programa, apesar de guiar-se por princípios que visam à busca de melhora na situação econômico-financeira das empresas sem que isso custe aos trabalhadores a perda dos seus direitos já garantidos, é passível de críticas pertinentes quanto à sua manutenção e seu impacto sobre as contas do Estado.
Primeiramente, cabe destacar que o artigo 7º, incisos VI e XIII, da Constituição Federal de 1988 autorizam a redução da remuneração dos trabalhadores e de sua jornada de trabalho mediante negociação coletiva, sem a imposição de um teto. Dessa forma, o PPE, a exemplo de outras medidas tomadas na execução da reforma trabalhista em planejamento, é a implementação com uma nova roupagem de ações já previstas no ordenamento jurídico brasileiro, no caso, a Carta Constitucional, com inovações apenas no que se refere à forma como ocorrerá a sua concretização nas relações de emprego.
137 PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. Lei nº 13.189, de 19 de novembro de 2015. Institui o Programa de Proteção ao Emprego - PPE. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015- 2018/2015/Lei/L13189.htm>. Acesso em: 29 nov. 2016.
Não obstante, é possível verificar, também, que o PPE poderá ser utilizado para disfarçar o déficit existente nas contas públicas agravado pelo pagamento dos valores relativos ao seguro-desemprego e Fundo de Garantia por Tempo de Serviço decorrentes das frequentes demissões em massa. O artigo 6º, inciso I, da Lei n.º 13.189/2015 determina que as empresas que aderirem ao PPE são proibidas de “dispensarem arbitrariamente ou sem justa causa os empregados que tiverem sua jornada de trabalho temporariamente reduzida, enquanto vigorar a adesão ao PPE” e, após o término do programa, “durante prazo equivalente a um terço do período de adesão” 138.
Dessa forma, observa-se que o governo ao criar essa nova forma de estabilidade provisória, não apenas resguardou os postos de trabalho daqueles atingidos pelo Programa, mas também resguardou a si próprio dos ônus financeiros oriundos das demissões sem justa causa. Ao permitir que os trabalhadores parte do PPE fossem dispensados apenas por justa causa, o governo retirou de si os encargos oriundos do levantamento dos valores de FGTS depositados nas contas fundiárias e do pagamento do seguro-desemprego, os quais não são devidos nessa modalidade rescisória.
Ademais, essa garantia provisória de emprego no período após o término do Programa de Proteção ao Emprego, eventualmente será desvantajosa para as empresas a médio prazo, uma vez que as mesmas terão que arcar integralmente com os custos de manutenção de empregados que gozarão de estabilidade provisória durante um determinado período, o que, apesar de benéfico a estes trabalhadores, poderá ser desinteressante para as empresas, caso estas ainda estejam em período de recuperação econômica.
Neste diapasão, é possível concluir que o Programa de Proteção ao Emprego, ainda que vigente de forma permanente, não constitui uma solução para a delicada situação vivida por empregados e empregadores. A este respeito, leciona Yghor Felipe Del Caro Dalvi 139:
138 PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. Lei nº 13.189, de 19 de novembro de 2015. Institui o Programa de Proteção ao Emprego - PPE. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015- 2018/2015/Lei/L13189.htm>. Acesso em: 29 nov. 2016.
139 DALVI, Yghor Felipe del Caro. Um Olhar Sobre o Programa de Proteção ao Emprego – PPE. Disponível em: <http://blogs.gazetaonline.com.br/meexplicadireito/262/um-olhar-sobre-o-programa-de-protecao-ao- emprego-ppe/>. Acesso em: 04 dez. 2016.
Por fim, apenas integralizando o tema aqui tratado com os inúmeros desdobramentos da crise governamental diariamente noticiada, ainda que a instituição do PPE aparente, no curto prazo, um passo correto (embora passível de críticas), esse alento aos trabalhadores tende a durar pouco, visto que as demissões em massa serão incontornáveis caso o Governo não adote outra postura quanto ao aumento desenfreado de tributos e à resistência na redução dos gastos públicos. É que, se o empresariado e a população em geral (peças base dos reflexos da crise, como dito logo de início) permanecerem sobrecarregados com o peso de custear a máquina estatal, de nada valerá o sopro de esperança advindo do Programa.
Destarte, demonstradas as principais medidas da reforma trabalhista já anunciadas pelo governo, necessário analisar as críticas e argumentos favoráveis à sua implementação, bem como à concretização da flexibilização das leis trabalhistas no Brasil.