2. O REGIONALISMO HEGEMÔNICO E CONTRA-HEGEMÔNICO LATINO-
2.5 PERSPECTIVAS FUTURAS PARA A INTEGRAÇÃO REGIONAL LATINO-
As duas categorias criadas – a do regionalismo hegemônico e a do regionalismo contra-hegemônico – abrem um novo debate sobre a integração regional latino-americana. De um lado, prevalece um bloco ideológico capitalista, cuja hegemonia é exercida pelos Estados Unidos da América. Do outro lado, figuram as iniciativas regionais contra-hegemônicas que pretendem estabelecer uma agenda oposta à estadunidense, repensando uma integração cujo objetivo principal não seja a acumulação do capital e que garanta a soberania e autonomia dos povos latino-americanos.
O cenário futuro latino-americano é de incerteza, pois o golpe no governo de Fernando Lugo (Paraguai) em 2012, a vitória do neoliberal Mauricio Macri na Argentina em novembro de 2015 e o impeachment no governo de Dilma Rousseff (Brasil) em 2016 demonstram a volta de governos conservadores, assumidamente neoliberais, na América Latina.
Com a nova mudança de governos latino-americanos, a integração regional está assumindo um perfil puramente econômico, com a assinatura de mais tratados e acordos de livre-comércio e, consequentemente, maior dependência externa, principalmente, através das relações comerciais com a China e os Estados Unidos.
A China é a segunda maior economia mundial, com taxas de crescimento anuais em torno de 10%, e vem exercendo um soft power (poder brando) na América Latina, sem a utilização de armas militares e econômicas. O poder brando é exercido através da admiração pelos valores, pelo crescimento e pelo posicionamento mundial chinês e faz com que as nações latinas fiquem dependentes da potência oriental (ARKONADA, 2015 apud NYE, 2002).
Além da integração já existente com os BRICS19, através do Brasil, a nação chinesa assume a posição de não-intromissão nos assuntos nacionais, abre canais de comunicação com a ALBA, CELAC e UNASUL e exerce uma diplomacia econômica na América Latina. Os canais de relacionamento são visualizados pelos projetos de desenvolvimento, superando em quantidade os do Banco Inter-americano de Desenvolvimento (BID), que acentuam a dependência financeira regional. Um exemplo de projeto desenvolvimentista, financiado pela China, é o do Canal da Nicarágua, que competirá com o Canal do Panamá, e tem um custo
19 O BRICS é um mecanismo inter-regional entre o Brasil, a Rússia, a Índia, a China e a África do Sul, criado em 2009, proporcionando a coordenação em reuniões e organismos internacionais e a construção de uma agenda de cooperação entre seus membros em 30 áreas (ITAMARATY, [2015?]).
estimado de 50 bilhões de dólares (ARKONADA, 2015).
Por trás das relações chinesas e latino-americanas, além das questões comerciais, está o interesse da potência asiática nas reservas de minérios, de água e de matérias-primas americanas, necessárias ao desenvolvimento chinês.
Dependente das duas maiores economias mundiais – a China e os EUA – a América Latina precisa dar passos sólidos no fortalecimento das iniciativas regionais contra- hegemônicas, voltando suas políticas externas à integração regional, em vez de firmar de acordos comerciais com os EUA e assumir compromissos com a China.
Katu Arkonada (2015), acertadamente, lembra da necessidade de desprender-se dos instrumentos de desintegração, como a Aliança do Pacífico, romper a hegemonia com os EUA e auxiliar no desenvolvimento de um mundo multipolar, para consolidar o regionalismo e avançar num horizonte pós-capitalista.
Para Samuel Pinheiro Guimarães (2004), a América do Sul, especificamente, deve enfrentar quatro desafios. O primeiro desafio é a concertação de políticas de desconcentração de poder, visando reduzir as enormes desigualdades sociais existentes. O segundo desafio sul- americano é o da superação da grande vulnerabilidade externa, com base em políticas de desenvolvimento com geração e distribuição de renda. O terceiro desafio é criar uma integração física e social, com vistas a aumentar a produtividade dos recursos naturais, dos estoques e de todos os segmentos da sociedade. O quarto desafio é transformar os regimes de democracia tradicional em regimes com maior participação social, com uma democracia efetiva e que reduza a concentração do poder de uma suposta maioria.
Também chamamos atenção ao cenário internacional, que influencia o regionalismo latino-americano, permeado pela transição do centro econômico mundial para a Ásia-Pacífico, pela queda do projeto europeu, pela crise econômica de 2008 e pela diminuição do poderio global estadunidense.
Sobre o atual cenário do regionalismo latino-americano, adotamos o posicionamento de otimismo cauteloso, lembrando que a hegemonia estadunidense na região está sendo ameaçada, devido à relação em construção através do comércio bilateral e multilateral. A China, assim como os Estados Unidos, representa seus interesses no sistema internacional e, por conseguinte, cava mercados proveitosos rumo à conquista da liderança.
Debatida a integração regional latino-americana, no próximo capítulo será discutida a democracia, vista além dos processos constitucionais e formais dos regimes, como sinônimo de participação cidadã ou popular, contestação política e, principalmente, construção coletiva das massas.
3. A DEMOCRACIA COMO SINÔNIMO DE GOVERNO POPULAR E DE CONSTRUÇÃO COLETIVA DAS MASSAS
A democracia tornou-se a principal motivação dos diferentes países e o discurso central dos governantes que proferem, frequentemente, “defender a democracia, a qualquer preço”. Apesar dessa “expansão democrática”, poucas pessoas sabem realmente o significado da democracia e, mais ainda, percebem que a constroem. Nesse último aspecto, poucos cidadãos adquirem consciência de que não deveriam ser atores coadjuvantes dos regimes democráticos, e, sim, protagonistas de toda e qualquer construção democrática e popular.
Partindo, então, desse pressuposto, aqui a democracia passará a ser analisada diferentemente da abordagem dominante e preponderante na academia, chamada, equivocadamente, de democracia “liberal”, “elitista” ou ainda “capitalista”. Por essa perspectiva, a temática é reduzida a uma mera escolha de lideranças em eleições periódicas, a uma organização formal do Estado, a uma relação limitada à política e a uma ausência da participação cidadã ou popular. Nosso objetivo é abandonar o grupo dominante na academia, que recorre a autores como os Federalistas, Alexis de Tocqueville, Max Weber, Joseph Schumpeter, Robert Dahl, Norberto Bobbio, entre outros muitos que podem ser citados.
Antecipadamente, esclarecemos que a democracia revisitada neste capítulo pode soar radical demais em comparação à que fomos “(des) educados” desde criança e visualizamos diariamente nos diversos aparelhos hegemônicos, como a mídia e as universidades. Os regimes de governo atuais não são referência democrática, muito pelo contrário, são opostos a uma forma de organização popular concreta. Mesmo assim, pedimos ao leitor que o significado liberal para a democracia tido como o mais correto, justo e propício para o bem- estar dos povos seja abandonado e que se faça um esforço para repensar uma nova forma, distante de ser uma teoria ou um modelo premeditado.
Elucidamos de início também outra questão: a utilização de aspas no vocábulo democracia. Aplicaremos as aspas em democracia quando essa não for citação dos autores analisados, isto é, quando for citação nossa e expressar a anexação da terminologia pelo liberalismo20. Coincidimos com as reflexões de Lenin de que a democracia sempre possui um conteúdo de classe determinado, seja burguês ou seja proletário, entretanto não podemos juntar democracia com liberalismo/burguesia, pois não foi conquista, muito menos desejo dos
20 Buscaremos sempre substituir o vocábulo governos representativos, regimes representativos ou governos representativos-liberais e seus equivalentes. Salvo quando quisermos enfatizar a anexação da democracia pelo liberalismo, manteremos o termo original.
últimos. Quando adjetivamos a democracia com o termo “burguesa”, cometemos o erro de darmos para a burguesia todas as lutas democráticas históricas do proletariado, como o sufrágio universal.
Ordenando este capítulo, para o melhor entendimento dos leitores, em um primeiro momento discutiremos criticamente a teoria dominante de tradição liberal, abalizando a ausência da participação popular. Em uma segunda parte, aspiramos debater as teorias participativas, criticando a união com a tradição liberal. Já em uma terceira parte, retomaremos a democracia no marxismo, em uma linha revolucionária e em uma linha reformista e, por fim, desejamos reflexionar sobre a recuperação do sentido de democracia como governo popular ou como construção coletiva das massas.
3.1 A APROPRIAÇÃO LIBERAL DA DEMOCRACIA
Os Estados Unidos da América são tidos hoje, midiaticamente, como o país mais exemplar em democracia no mundo. A arquitetura institucional dos EUA fora defendida pelos Federalistas Alexandre Hamilton, James Madison e John Jay, em 85 artigos reunidos na obra “O Federalista” (2003). Foram criados o sistema federal, o bicameralismo, a separação de poderes, o presidencialismo, entre outros dispositivos. Baseado no sistema de freios e contra- pesos (checks and balances), a separação de poderes dos Federalistas era apoiada na ideia de que cada poder é dependente dos outros, devendo ser freado e controlado por esses, evitando- se, assim, a tirania. A instituição do Senado é um exemplo claro de freio, delimitando a ação da Câmara dos Deputados. Os Federalistas resgatam o mal das facções nos governos populares e a impossibilidade de eliminá-las. Já que as facções não podem ser eliminadas, é necessário neutralizá-las de duas formas: terminando com suas liberdades e uniformizando as opiniões de seus membros.
Os Antifederalistas21 contestaram, em um conjunto de artigos, alguns aspectos do governo representativo proposto nos EUA. Coincidimos com Montezuma (autor desconhecido, 1787), quando afirma que a constituição está escrita de tal modo a limitar o poder das classes inferiores e a assegurar os interesses privados e públicos dos ricos. Os Antifederalistas foram ímpares na crítica ao regime representativo estadunidense, pois denunciaram o governo desigual e excludente que estava sendo implementado. Salientamos, ainda, que o povo não participou da discussão sobre a constituição, pois na cidade da
21 Os Antifederalistas eram, em sua maioria, democratas, opunham-se aos Federalistas e defendiam uma forma de governo participativa.
Filadélfia, onde fora redigida e aprovada, as portas foram fechadas.
Temos inúmeras críticas à obra “O Federalista”, todavia gostaríamos de sublinhar uma em especial: a ausência de participação popular. Roberto Gargarella (2006) sabiamente expõe que os pais da Constituição dos EUA defendiam o modelo representativo como um “mal necessário”, face que a democracia era impossível em um país com muitas facções22. O que poucos sabem é que alguns Estados Federados dos EUA (antes da Constituição) eram democráticos, com experiências de governos populares, distribuição de terras, instituições e processos que confrontavam os interesses da classe proprietária. Frente ao medo de revoltas populares, a Constituição era a melhor saída encontrada pelos Federalistas de oprimir qualquer manifestação contrária aos interesses das classes dominantes. Os governos democráticos dos Estados Federados foram, então, extintos, de tal modo que todos passaram a obedecer a lei maior ou a Constituição. Os freios e os contra-pesos limitavam qualquer participação popular, sendo “remédios” para as massas populares.
Benjamin Constant, assim como Tocqueville (2005), é um dos principais liberais avesso à participação das massas em um regime de governo. Constant (2005) defende que só os proprietários podem exercer os direitos políticos e que a liberdade dos modernos é melhor que a dos antigos, pois no coletivo o cidadão é livre e na esfera individual deve respeitar as leis, regulamentadas conforme os costumes. Constant nunca fora defensor do regime democrático, pelo contrário só restringia a participação, a soberania e a vontade popular. Um dos indícios da repulsa contra a participação popular é a separação entre os que participam (natos do país) e os que não participam do governo (crianças, estrangeiros e mulheres). Agregamos a última distinção, as classes populares que eram, para Benjamin Constant, como crianças, “não iluminadas”, sem renda e sem cidadania.
Alexis de Tocqueville, em sua obra “Democracia na América” (2005), recupera o modelo estadunidense para repensar a Revolução Francesa. O escritor francês defendia a igualdade como elemento definidor da democracia, enquanto a liberdade pode ou não estar presente nos governos. Tocqueville pode ser considerado o primeiro autor que cunhou a terminologia “democracia liberal” e que anexou a democracia ao liberalismo. Na realidade, o desafio do francês era encontrar o equilíbrio entre a liberdade e a igualdade, já que seus principais medos eram a tirania da maioria e o despotismo estatal. Igualmente aos Federalistas, Tocqueville rejeitava a democracia, porém via a impossibilidade de sua
22 Aqui cabe desmistificarmos as chamadas “facções”. As facções eram partidos ou grupos políticos, cujos interesses colidiam com os interesses da classe dominante. Na realidade, as facções eram o maior medo dos Federalistas, pois poderiam organizar-se e derrubar o sistema político estadunidense.
substituição por outra forma de governo, sendo necessário, portanto, controlá-la ou domesticá-la. Para controlar a democracia, existiam quatro “tratamentos”: as leis, os costumes, as associações e a descentralização administrativa. Destacamos que, entre os quatro, as associações políticas eram as formas mais fáceis de serem controladas pelo governo, evitando a tirania do povo.
Domenico Losurdo, filósofo italiano, desmistifica brilhantemente, através do exame de fatos históricos, Alexis de Tocqueville e Benjamin Constant. Losurdo (2004) demonstra que Tocqueville, enquanto prega dissimuladamente a igualdade democrática, defende a legitimidade de um regime que equilibra a garantia da riqueza aos ricos e a miséria dos pobres, exigindo uma parcela do supérfluo dos primeiros para manter os segundos.
Hans Kelsen, filósofo austríaco, seguiu os passos de Constant ao delimitar a democracia com base na liberdade moderna, porém se distanciou de Tocqueville ao postular que a igualdade não define o regime democrático. Para Kelsen, o governo democrático é um sistema político de criação e de emprego da ordem social23, cujo conteúdo é o sistema econômico. Com base nessa premissa, a democracia pode conviver com o socialismo e com o capitalismo (KELSEN, 1993). Criticamos a separação feita por Hans Kelsen entre democracia e igualdade, pois se nem todos são iguais economicamente e socialmente, como a sociedade pode ser democrática? Kelsen oculta as contradições do capitalismo, preferindo associá-lo à democracia, e não problematiza suas fortes desigualdades.
Max Weber e Joseph Schumpeter deram início ao elitismo competitivo do século XX. A concepção weber-schumpeteriana foi marcada pela distinção entre os governados e os governantes, reduzindo a democracia a um método de escolha de elites governantes. A “democracia” weberiana é altamente burocrática e elitista, pois se constitui como um jeito encontrado pelos governantes de dominar os governados e ignora a participação cidadã. Os funcionários políticos e públicos, que possuem saber técnico e diferentes níveis de especialização, devem ajudar os “representantes”. Esses, por sua vez, representam a categoria dos “políticos profissionais”, que vivem, trabalham e especializam-se na ocupação dos cargos políticos (WEBER, 1999). O povo tem só a função de apoiar os novos governantes de um regime, eleitos e legitimados dentro dos preceitos constitucionais e legais, pois não consegue conduzir um regime democrático.
Schumpeter, cientista social austríaco, firmou as bases da teoria competitiva, definindo a democracia como: “o método democrático é um sistema institucional, para a tomada de
23 A ordem social é a motivação direta ou indireta dos atos dos indivíduos benéficos ou nocivos para a sociedade (KELSEN, 1998).
decisões políticas, no qual o indivíduo adquire o poder de decidir mediante uma luta competitiva pelos votos do eleitor” (SCHUMPETER, 1942, p. 328). Na produção schumpeteriana, o povo tem a atribuição de formar um governo elitista, não tendo condições de assumi-lo, pois é irracional. O regime é exercido, então, pelas elites políticas que competem pelos votos dos eleitores. Tal como uma loja vende roupas de diferentes marcas, o mercado político vende votos de diferentes partidos políticos. A política é comparada ao mercado, sendo os votos a moeda de troca (SCHUMPETER, 1942). Percebe-se através dessa obra o significado da participação para o autor austríaco: a eleição periódica de representações elitistas. Além de desacreditar que as massas poderiam conduzir um bom governo, Schumpeter sustentava o papel das elites, que, falaciosamente, sempre tentariam realizar as vontades coletivas ou do povo.
Anthony Downs contribuiu para a teoria representativa elitista, em seu estudo “Uma teoria econômica da democracia” (1999), ao defender as regras econômicas para o sucesso de um regime de governo democrático e racional. Downs delimita a estrutura democrática com base na coexistência de partidos de oposição, de um eleitorado racional e de uma atmosfera com diferentes graus de incerteza. A democracia compreende as eleições periódicas, a direção partidária unitária, a permanência de um partido eleito até o fim de seu mandato e a disputa multipartidária para a liderança do regime de governo (DOWNS, 1999). Anthony Downs reproduz a teoria weber-schumpeteriana, copiando o mercado político de Schumpeter e atribuindo ao povo a mera escolha racional como papel no regime de governo.
Inteirando o grupo dos liberais elitistas, Robert Dahl (1971) cria um modelo de análise dos regimes políticos no mundo: a Poliarquia. Os regimes poliárquicos são inclusivos e abrem espaço à contestação pública, sendo incompletamente democratizados. As democracias são sistemas políticos de contínua responsividade dos governos com as preferências dos cidadãos, considerados iguais24. Dahl crê que os processos eleitorais não expressam a vontade da população e, portanto, são necessários grupos minoritários (DAHL, 1989). A teoria poliárquica consiste num governo de várias minorias, pois um governo da maioria (do povo ou do proletariado) é algo irrealizável no pensamento dahlsiano. O povo exerce somente o papel de escolher várias minorias para votar, ou seja, tem sua participação limitada às eleições, com a justificativa de ser melhor para a sociedade. Dahl não reconhece o peso das desigualdades sociais trazidas pelo sistema capitalista e muito menos a luta existente entre as classes sociais, defende um governo minoritário que não faz o bem para as massas.
24 Na realidade, as democracias são regimes políticos ideais e as poliarquias são os regimes políticos reais que se aproximam ou se afastam da democracia.
Norberto Bobbio, filósofo italiano, se junta ao rol de teóricos políticos que contribui com o pensamento liberal sobre a democracia. Duas obras demonstram bem a orientação liberal-bobbiana: “O futuro da democracia; uma defesa das regras do jogo” (1986) e “Liberalismo e democracia” (2006). Na primeira obra, Bobbio define a temática democrática por um compêndio de regras (subdivididas em primárias e fundamentais) estabelecedoras dos tomadores das decisões coletivas e dos procedimentos legais e legítimos. Em “Liberalismo e democracia”, Bobbio defende a liberdade moderna de Benjamin Constant. Fazendo referência aos federalistas estadunidenses, Norberto Bobbio justifica a adoção da democracia representativa como regime de governo para os Estados nacionais modernos e, além disso, defende a participação direta e indireta dos cidadãos na tomada de decisão coletiva dos governos.
Recuperando as pontuações críticas valedouras de Gabriel Vitullo e Davide Scavo (2014) sobre a democracia bobbiana, constata-se que, na realidade, esse reduz a democracia a um mero procedimentalismo, através das “regras do jogo”, de escolha e autorização de governos. Vitullo e Scavo atentam que, ao longo de seu pensamento liberal, Bobbio defende a distância entre representados e representantes e a participação direta popular como uma utopia, qualifica a apatia política como algo saudável aos governos e adverte que “nada ameaça mais matar a democracia que o excesso de democracia” (BOBBIO, 1986, p. 26).
Adam Przeworski, cientista político polonês, entende a democracia similarmente como Bobbio: um conjunto de regras do jogo. Para Przeworski (1994), um regime democrático é um jogo regrado pelo elemento da incerteza, cujos participantes estão conscientes das chances de ganhar e perder. A incerteza traduz a motivação para os competidores entrarem no jogo e a oportunidade de representarem seus interesses. Przeworski constrói uma teoria que agrega a concepção competitiva de Schumpeter e Dahl, conjuntamente ao regramento de Bobbio. A incerteza é a garantia de um governo representativo e a participação é reduzida à competição e às eleições. O autor polonês somente reforça as teorias representativas liberais, não agregando nenhum conteúdo social para suas reflexões.
Giovanni Sartori, também um dos expoentes do elitismo, condensou a teoria poliárquica de Dahl com a competitiva de Schumpeter. Para Sartori (1994, p.214), a democracia pode ser considerada “(…) um procedimento e/ou um mecanismo que a) gera uma poliarquia aberta cuja competição no mercado eleitoral, b) atribui poder ao povo e c) estabelece, especificamente, a responsividade dos líderes para com os liderados”. O autor italiano desacredita na democracia antiga, pois, segundo ele, essa falhou ao tentar incorporar a igualdade política no sistema político. Sartori defende a teoria de que a democracia é carente
do valor da liderança política (SARTORI, 1994). Sartori e Przeworski são muito parecidos, posto que uma das diferenças entre suas obras é o elemento da incerteza presente em Przeworski. Os dois liberais contemporâneos legitimam Schumpeter, Dahl e Bobbio, escapando de qualquer proposta que traga melhorias para a vida das massas populares.
Conforme Alain Touraine, sociólogo francês, um regime democrático pode ser considerado: “a formação da vontade estatal diretora por um colegiado eleito pelo povo com base no sufrágio universal e igualitário, isto é, democrático e tomando suas decisões pela maioria” (TOURAINE, 1996, p. 63). Além disso, a democracia não pode ser entendida como governo do poder do povo, pois pode levar a governos repressivos e autoritários. Touraine enfatiza que o poder popular não é expressão da lei da maioria, dado que destrói democracias, em vez de consolidá-las (TOURAINE, 1996). Nessa primeira leitura da obra de Touraine,