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Perspectives to think about the culture of online contribution

Serge Proulx1

Resumo: Neste capítulo, abordamos a cultura da contribuição em contexto de uma sociedade mercantil. Refletimos sobre isso considerando a lógica mercantil em suas relações com a lógica do dom. A partir desta tensão, formulamos proposições e ques- tões sobre a cultura da participação, especificando usos e práti- cas sociais das redes em curso, onde situamos variadas formas de domínio em jogo (o domínio das ferramentas, o domínio do capital, o domínio dos códigos) e as novas formas de resistência. Em nossa argumentação, sugerimos que o capitalismo estaria entrando numa terceira fase (sucedendo a primeira, produtivis- ta, e a segunda, consumista): a de uma economia da contribui- ção. Nessa, coloca-se a questão: como vamos remunerar o traba- lho contributivo?

Palavras-chave: cultura, participação, mercados, algoritmo, resistência.

1 Professor Emérito, École des Médias, Université du Québec à Montréal (Canadá). Professor associado, Télécom ParisTech (França).

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Abstract: In this chapter we discuss the culture of contribution in the context of a mercantile society. We reflect on this by con- sidering the mercantile logic in its relations with the logic of gift. Based on this tension, we formulate propositions and questions about the culture of participation, specifying ongoing uses and social practices of networks, where we situate various forms of domain at stake (the domain of tools, the domain of capital, the domain of codes) and the new forms of resistance. In our argument, we suggest that capitalism is entering a third phase (succeeding the first, productivist phase, and the second, con- sumerist phase): that of an economy of contribution. In this, the question is: how are we going to pay for contributory work? Keywords: culture, participation, markets, algorithm, resistance.

1 Introdução

Gostaríamos de tentar repensar o que entendemos por contribuição. Para tanto, vamos situar a contribuição entre dois polos: o polo do tempo e o da transação mercantil. Isso nos leva- rá a refletir sobre o que chamaremos de “a forma contribuição”, “a forma social da contribuição”.

Vamos começar com exemplos do que entendemos por contribuição online. Frequentar sites de redes sociais, como o Facebook; trocar arquivos digitais; postar fotos, vídeos ou áu- dios no YouTube ou Myspace; contribuir com a Wikipédia; re- transmitir informações no Twitter; participar de jornalismo cidadão online. Se continuarmos listando exemplos, mas num nível mais tipológico, podemos ter: o ato de recomendar uma restauração de um livro; compartilhar e contribuir com um texto online; redigir e organizar um texto online; criar hyperlinks; or- ganizar um conjunto de documentos; fazer remixagens; publicar online; coisas assim.

Diante desse conjunto de exemplos, gostaríamos de tentar passar a outro nível de generalidade e refletir sobre a contribuição como tal. Diríamos que, por um lado, podemos de- finir a contribuição online como uma transação mercantil e, por outro, podemos definir a contribuição como proveniente de uma lógica da doação. Vamos ver, então, o lado da transação mercan-

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til. O contribuidor deposita um conteúdo no universo digital e tira uma satisfação, uma utilidade disso. Isso já é uma definição que se aproxima da transação mercantil. O que precisamos ob- servar é que o contribuidor é, ao mesmo tempo, produtor de conteúdo e fornecedor de dados. Queremos dizer que, quando alguém comenta num blog, ele está produzindo conteúdo, mas, ao mesmo tempo, traços, vestígios, rastros são deixados; e é nes- se sentido que esses rastros se tornam dados. Portanto, você não é apenas produtor de conteúdo, é também fornecedor de dados. Em outras palavras: você deixa no universo digital um vínculo entre o seu endereço IP e determinados gestos que você realiza, como, por exemplo: comentar um blog; comprar online; indicar que gosta ou que curtiu. Todas essas informações são captadas pelas empresas proprietárias da plataforma. O Facebook, por exemplo, capta todas as contribuições dos usuários. E é esse pro- cesso de captação dos dados que está na base da produção do valor econômico, em torno dessa agregação dos dados. Estamos, então, numa problemática de produção do valor econômico, a partir de uma agregação de dados, que se originam a partir dos rastros deixados no universo digital. Deixados pelos usuários. E é nesse sentido que podemos falar de capitalismo informacio- nal. Os usuários geram, então, permanentemente, dados que es- tão na fonte de uma monetarização dos conteúdos, dos dados e, até mesmo, do laço social. Pois quando se está num site de redes sociais, o próprio laço social se torna fonte de valor econômico para a empresa. Estamos falando, então, de monetarização, que quer dizer, na verdade, a transformação desses conteúdos e da- dos sociais em moeda.

Por outro lado, sobre a contribuição, diríamos que não estamos mais no lado dos usuários. A contribuição é tida pelos próprios contribuidores como proveniente de uma lógica da doação: eu recomendo um determinado restaurante ou livro, mas, na verdade, não quero retribuição financeira pelo gesto. Faço isso gratuitamente; então, não estamos mais numa lógica de trocas sem retribuição financeira, mas recorremos a uma reciprocidade. Se alguém deixa suas recomendações e mensa- gens, gostaria que outros também deixassem seus comentários. Então, inserimo-nos numa lógica de compartilhamento, em que a questão do reconhecimento simbólico e mais a questão da re-

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putação têm um determinado papel nesse ambiente – que pen- samos ser da ordem de uma lógica da doação. Estamos diante de indivíduos que desejam, de uma forma mais ou menos conscien- te, desenvolver boa reputação junto aos seus pares.

Gostaríamos de refletir agora sobre a forma da con- tribuição, em si, a forma social da contribuição. Poderíamos di- zer que ela pode ser definida por relações horizontais de troca. Explicamos que o reconhecimento social de uma contribuição exige relações horizontais, então, a esse sentido poderíamos opor (ou talvez distinguir) o reconhecimento em termos hori- zontais e a admiração, que seria em termos verticais. Ou seja: a estrela e seus fãs estão numa relação de admiração. A estre- la não precisa reconhecer cada um desse grupo de fãs; ela está numa posição de estrela e é admirada. Temos uma distinção interessante.

Uma segunda característica da forma de contribuição é o fato de estarmos numa problemática relacionada ao normati- vo, de uma forma compartilhada. Quando estamos nessa lógica da doação, espera-se que todos se expressem, que todos expres- sem seu desejo de doação e de compartilhar. Temos, então, ex- pectativas em relação aos outros membros que apreciam este valor social da contribuição.

Com a forma contribuição, inserimo-nos, então, num mundo de valores compartilhados, em que há um sentimento de pertencer a uma comunidade. Destacamos que há trabalhos, não muitos, que mostram uma distinção entre uma lógica de rede e uma lógica de comunidade. Uma lógica de rede é onde o usuário se situa, “surfa”, vai ser conduzido pelos seus clicks, decide en- trar em um site e contribuir. Continua assim e talvez nunca volte ao mesmo site. Ao passo que, na lógica da comunidade, o usuário é fiel a determinado site e acessa esse determinado site com o qual ele se identifica, e, nesse caso, estamos numa lógica mais de comunidade e de fidelidade.

Outra característica da forma de contribuição é o fato de se tratar de práticas individuais modestas. Modestas no sen- tido de que os sujeitos não se colocam à frente; eles destacam a dimensão coletiva dos valores compartilhados.

Para concluir, em relação à forma da contribuição, di- ríamos, de uma forma um pouco irônica, sobre a figura do homo

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contribuidor, que não seria nem o homo oeconomicus nem o homo doador; não seria nem um nem outro, mas, ao mesmo tem- po, ambos.

Podemos refletir sobre isso e também voltar ao assun- to mais adiante, mas a figura do homo oeconomicus é uma figura comum ao mundo dos economistas. E pressupõe que um indiví- duo seja motivado, em suas ações, por interesses calculados. Do lado oposto, a figura do homo doador pressupõe que o indivíduo seja regido por uma “lógica do dom”. E, quando se fala em lógica de doar, a partir dos trabalhos de Marcel Mauss, principalmen- te, falamos de uma tripla obrigação, ou seja, um saber dar, um saber receber e também um saber restituir. Esses três elemen- tos precisam estar presentes no tempo, para que estejamos em presença do que Marcel Mauss chama de dom, doação. Alguns antropólogos afirmam que o doador nunca está completamente separado do objeto dado. Em outras palavras: o doador habita, até certo ponto, o objeto doado; você recebe alguma coisa e isto está marcado por aquela pessoa que lhe dá. Vocês, provavelmen- te, já devem ter vivenciado isso em situações cotidianas. Às ve- zes, vocês querem colocar no lixo algo que ganharam, mas se alguém que lhes deu aquilo souber, não vai ficar contente.