A midiatização digital aponta para um contexto de re- modelagem da paisagem midiática, que perpassa e é perpassada por diversos outros processos sociais, como as práticas religio- sas, cujas dinâmicas são movidas por práticas comunicacionais. Isso se deve, também mas não só, ao fato da interposição das tecnologias da comunicação nas relações humanas e sociais, processo que gera novos regimes de interação e novas situações de comunicação com cuja geração essas tecnologias contribuem. Não apenas as entidades sociais (grupos, organizações, institui- ções) estruturam as “comunidades midiáticas”, mas estas últi- mas também se constituem de maneira relativamente autônoma, impulsionadas por dispositivos sociotécnicos, e moldam, assim, a constituição de novas formas sociais (PROULX; MILLERAND, 2010) – e também, portanto, religiosas.
As redes sociodigitais, como no caso do Facebook, tor- nam-se objetos de análise relevantes para se compreender tais relações entre tecnologias de comunicação e sociedade, assim como a evolução das práticas de comunicação nos diversos âm- bitos sociais, como, por exemplo, na religião. As relações sociais hoje se inscrevem, justamente, na própria concepção do aparato tecnológico. As mídias digitais trazem consigo a possibilidade de que qualquer pessoa difunda informações em escala mundial com meios relativamente baratos e acessíveis.
De um lado, como afirma Braga (2012), percebe-se aí o desdobramento de um processo tecnológico, a partir do surgi- mento de inovações tecnológicas voltadas à comunicação, cada vez em maior escala e alcance. De outro, há um processo social,
150
Midiatização e r
edes digitais: os usos e as apr
opriações entr
e a dádi
va e os mer
cados
em que a sociedade não apenas cumpre os usos previstos pelos projetistas dos aparatos, mas também os desdobra em novos usos experimentais – incluindo ações especificamente comuni- cacionais a partir de tecnologias não necessariamente pensadas para esse fim – e até mesmo subversivos, mediante invenções so- ciais sobre as tecnologias e para além delas, como, por exemplo, as práticas religiosas no Facebook.
Surge, assim, uma inter-relação entre inovações tecno- lógicas e invenções sociais: novos desejos ou necessidades so- ciais demandam uma inovação tecnológica, pois as tecnologias existentes não responderiam a tais desejos ou necessidades (ou vice-versa). Com o surgimento de tal inovação, a sociedade em geral vai inventando novas funções não pensadas previamente ou subverte as funções previstas para tal tecnologia. Isso dá origem a novos desdobramentos que poderão vir a dar forma a novas ino- vações tecnológicas, e assim por diante.
As tecnologias digitais da informação integram e arti- culam as funções de transmissão e de difusão, mas permitem a instauração de interações à distância e um regime de reciproci- dade na comunicação (JAURÉGUIBERRY; PROULX, 2011). As no- vas plataformas tecnológicas e as novas necessidades e desejos sociais, portanto, se desdobram em uma evolução gradual e pro- gressiva, deixando para trás um modelo de difusão dos meios de comunicação, para novos modelos de participação (“fazer parte de”) e de cooperação (“operar, agir com”), que se expressam em uma pluralidade heterogênea e complexa de usos e apropria- ções sociotécnicos.
Os usos podem ser entendidos como as experiências individuais e sociais dos diversos sujeitos com e sobre a tecno- logia: ou seja, “aquilo que as pesssoas fazem efetivamente com os objetos e dispositivos técnicos” (JAURÉGUIBERRY; PROULX, 2011, p. 24, trad. nossa). Tal noção está “associada ao fato de empregar, de utilizar o aparelho técnico, o instrumento, a fer- ramenta, de uma maneira relativamente autônoma pelo sujeito humano” (ibid., p. 80, trad. nossa). Ou seja, trata-se das rotinas e padrões sociais emergentes na sua relação com as tecnologias, “modos de fazer” com os aparatos e plataformas.
A inovação tecnológica, em sua concepção, já traz introjetados certos “usos prescritos” a um “usuário virtual”
Midiatização e r
edes digitais: os usos e as apr
opriações entr e a dádi va e os mer cados
151
(JAURÉGUIBERRY; PROULX, 2011): os designers imaginam os possíveis usuários e usos que serão dados ao objeto tecnológi- co e, assim, tentam configurar usuários e usos determinados, integrando em seu próprio projeto determinadas predefinições quanto aos modos de usar, aos usuários-alvo, a certos arranjos de elementos operacionais e funcionais, etc. Exemplo disso são as operações básicas, em nosso caso, do Facebook, que delimi- tam certas ações aos seus usuários: “postar” (textos, links, fotos, vídeos), “curtir”, “comentar” e “compartilhar”. Assim, um certo modelo de usuário e de uso encontra-se inscrito na própria pla- taforma técnica, que visa a condicionar o usuário. Como afirma Scolari (2004, p. 239, trad. nossa), “cremos usar as interfaces, mas na realidade também elas estão nos modelando”.
Diante dos limites e possibilidades que podem ser retraçados na tecnologia, assim, é possível inferir também as lógicas do seu “designer/programador virtual”, percebendo o contexto de produção (valores, ideologias, objetivos) do qual surgiu tal plataforma. O fabricante/programador visa a dis- ciplinar a utilização, indicando bons usos e proibindo maus usos. Promovem-se, assim, “determinações sociais dos usos” (JAURÉGUIBERRY; PROULX, 2011). No caso dos “Padrões co- munitários” do Facebook4, os bons usos são, por exemplo, “com-
partilhar experiências” com “propósitos legítimos”, “conectar-se com amigos e causas”, “conscientizar sobre questões que são im- portantes”, dentre outros; enquanto os maus usos dizem respei- to a postagens que envolvam um “risco genuíno de danos físicos ou ameaças diretas à segurança pública”, como roubos e vanda- lismo, ou ainda “conteúdos sensíveis” (como nudez e temáticas sexuais).
Nessa relação, os usuários vão se modificando sub- jetiva, social e cognitivamente – e, a partir disso, modificando também os seus usos – mediante a sua interação com a tecno- logia, dentro dos limites e possibilidades desta. Por outro lado, a tecnologia também se transforma a partir dos usos ativos e criativos dos usuários: estes não se sujeitam passivamente às configurações dos aparelhos e das plataformas tecnossimbóli-
4 Disponível em <https://www.facebook.com/communitystandards>; tradução nossa.
152
Midiatização e r
edes digitais: os usos e as apr
opriações entr
e a dádi
va e os mer
cados
cas (como o Facebook), mas, a partir de seus desejos, interes- ses ou necessidades, efetuam ações não prescritas e desviantes, reações e resistências. Tais ações dos usuários, por sua vez, ou levam o aparelho tecnossimbólico a novos patamares, ao ofe- recerem elementos para que seus produtores gerem melhorias técnicas, ou levam ao abandono de tais aparelhos, em busca de outros que respondam melhor às suas vontades.
Tanto as tecnologias quanto os usos prescritos ou efe- tivamente concretizados sobre aquelas, por se inserirem em uma determinada trajetória pessoal ou coletiva, também se ins- crevem, portanto, em um tecido sócio-histórico dado, compor- tando significações socioculturais. Por isso, é preciso perceber que “o uso de uma técnica não é sociologicamente neutro: ele é portador de valores e fonte de significações sociais para o usuá- rio” (JAURÉGUIBERRY; PROULX, 2011, p. 24, trad. nossa). Desse modo, as esferas técnica e social estão fortemente entrelaçadas no tecido organizacional das ações e das associações entre os agentes: as tecnologias nascem ancoradas no social, e os gestos sociais, por sua vez, se dão ancorados em técnicas.
As mídias digitais e plataformas como o Facebook, por exemplo, surgem como uma resposta a desejos, interesses ou necessidades específicos de setores sociais em um dado mo- mento histórico. Por se darem hoje em um contexto organizacio- nal sócio-histórico e cognitivo específico, os usos de tais mídias também revelam as significações culturais complexas e as ques- tões políticas e éticas emergentes em uma sociedade altamen- te conectada. Cada tecnologia, portanto, possui uma dimensão ideológica, moral e político-social, ou seja, se desenvolve como dispositivo de distribuição do poder na gestão das associações entre as pessoas (JAURÉGUIBERRY; PROULX, 2011).
Os usos e as lógicas de uso das tecnologias, por não se- rem neutros, se situam em um contexto específico de práticas sociais e devem ser analisados a partir dessa perspectiva. Pois o usuário investe uma tecnologia específica de significações sub- jetivas, inscrevendo-a em um sistema de relações e valores so- ciais específicos – em nosso caso, microculturas religiosas. Por outro lado, os usos vão evoluindo no interior de uma história já constituída de práticas sociais e comunicacionais específicas, como a interface entre o catolicismo brasileiro e sua relação
Midiatização e r
edes digitais: os usos e as apr
opriações entr e a dádi va e os mer cados
153
com a comunicação digital em rede. Por práticas, entendemos o “quadro de exercício de uma atividade” social (JAURÉGUIBERRY; PROULX, 2011, p. 83, trad. nossa), como as ações e gestos reli- giosos compartilhados por uma comunidade específica. Assim, é preciso analisar os usos também no quadro das “práticas pes- soais e sociais dos indivíduos que agem no tecido organizacio- nal” (ibid., p. 25, trad. nossa), como as práticas religiosas.
Quando os usos das tecnologias são feitos com modali- dades próprias a certos âmbitos socioculturais, ou se articulam com práticas sociais estabilizadas nesses âmbitos, ou se em- bebem em valores simbólicos específicos a tais âmbitos – por exemplo, o religioso –, estamos diante de um fenômeno mais complexo. Diante do prolongamento histórico, do aprofunda- mento cultural e da ressignificação simbólica dos usos técnicos em “sincronia com momentos de transformação objetiva e sig- nificativa” (PROULX, 2008, p. 5, trad. nossa) de práticas sociais específicas já estabilizadas – como as religiosas –, podemos falar de um processo de apropriação, tanto individual quanto social, das tecnologias ou plataformas sociotécnicas. A apropriação se manifesta, portanto, quando usos sociotécnicos são integrados em práticas historicamente consolidadas (como as religiosas), ou quando tais práticas passam a ser reinventadas mediante a sua articulação com usos sociotécnicos (no Facebook, por exem- plo), ou ainda quando tais usos passam a ser investidos de signi- ficações religiosas.
A apropriação se apresenta como um processo de constituição pessoal e social, “uma matriz técnica e cognitiva do objeto, integração significativa e criadora do uso na vida coti- diana, possibilidades de reinvenção do uso e de participação no próprio processo de inovação sociotécnica” (JAURÉGUIBERRY; PROULX, 2011, p. 25, trad. nossa). No caso da apropriação re- ligiosa do Facebook, as matrizes operacionais disponibilizadas pela plataforma são ativadas por um conjunto de práticas sociais específicas, integrando a plataforma na execução de gestos re- ligiosos (como o envio de orações), desdobrando a plataforma a partir de novos modelos de cognição (como quando o “cur- tir” recebe uma nova carga simbólica espiritual, semelhante ao “amém”), chegando até a inovações sociotécnicas (mediante, por exemplo, o abandono de plataformas anteriores e o surgimento
154
Midiatização e r
edes digitais: os usos e as apr
opriações entr
e a dádi
va e os mer
cados
de novas, que respondam aos desejos e necessidades religiosos específicos, como a criação da plataforma evangélica Faceglória). Assim, a apropriação aponta para uma “multiplicida- de de ‘táticas’ articuladas” (CERTEAU, 2012, p. 41) na relação dos indivíduos com as plataformas digitais, articulando usos específicos e práticas estabelecidas, o que pode gerar “inume- ráveis e infinitesimais metamorfoses” (ibid., 40) não apenas sobre o aparato eletrônico, mas, a partir dele, sobre o funciona- mento dos campos sociais em geral – inclusive a religião. Tais microrresistências são constituídas pelas “mil práticas pelas quais usuários se reapropriam do espaço organizado pelas téc- nicas da produção sociocultural” ou eclesial (ibid., p. 41). No processo de apropriação, portanto, manifestam-se “possibili- dades de autonomia e de emancipação para os indivíduos e os grupos” (PROULX, 2008, p. 2, trad. nossa)
Em nosso caso, a apropriação das plataformas digitais para práticas religiosas faz surgir elementos de novidade que geram efeitos tanto sobre o próprio processo de uso das redes sociais digitais quanto sobre a prática religiosa em seus desdo- bramentos sociossimbólicos. Nesse sentido, a apropriação reli- giosa das redes digitais, mediante experimentações religiosas e “práticas bricoladoras” (CERTEAU, 2012), aponta para novas formas de construção social de sentidos religiosos, em novos flu- xos de circulação comunicacional, como veremos.