3. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
3.3 PESQUISA DE CAMPO
A pesquisa de campo foi realizada por meio da aplicação de entrevistas. A entrevista é um procedimento utilizado para obter dados e/ou informações sobre um determinado assunto, ou problema, em diversos campos das ciências e áreas de trabalho. Constitui em uma conversa face a face de maneira metódica por meio da qual coleta-se informações do entrevistado (MARCONI; LAKATOS, 2017).
Os tipos de entrevistas variam de acordo com o propósito do entrevistador. Elas podem ser estruturadas, quando o entrevistador segue um roteiro previamente estabelecido a ser aplicado a determinadas pessoas, visando obter diferentes respostas a mesma pergunta; não estruturadas, onde o pesquisador tem a liberdade para desenvolver a situação na direção que considere adequada segundo as respostas obtidas (GERHARDT et al., 2009; MARCONI; LAKATOS, 2017), e semiestruturadas, nas quais o pesquisador organiza um roteiro com um conjunto de questões sobre o tema estudado a partir de uma ordem prevista, mas permite que o entrevistado fale sobre os assuntos que vão surgindo como desdobramentos das questões geradoras do tema (GERHARDT et al., 2009).
Neste estudo para coleta das informações optou-se pela utilização da entrevista semi-estruturada, por meio da aplicação de um roteiro com perguntas
previamente definidas que foram combinadas com eventuais perguntas de esclarecimento. Assim, foi elaborado um roteiro com 02 blocos de questões, no bloco 01 foram elaboradas perguntas com intuito de se identificar riscos organizacionais, no bloco 02 estão as perguntas que visam identificar, por meio da experiência dos atores, os elementos que configuram a governança local para P2R2, conforme Quadro 12 a seguir.
Quadro 12 - Roteiro das entrevistas.
BLOCO 01
Nº Categorias de riscos Questões
1 Riscos estratégicos CORCORULLO (2002); IBCG (2007); BRASILIANO (2016); MPG, 2017
1.1. Na sua opinião que tipo de evento ou situação poderia afetar as metas ou objetivos da instituição no desenvolvimento de ações relacionadas a P2R2, caso venha a ocorrer?
1.2. Quais seriam os efeitos destes eventos sobre os objetivos da organização?
1.3 O resultado desse tipo de evento poderia afetar a missão institucional? 2 Riscos Operacionais CORCORULLO (2002); IBCG (2007); BRASILIANO (2016)
2.1. Que tipo de eventos relacionados as rotinas e processos da organização como, por exemplo, recursos humanos, infraestrutura, capacidade técnica, tem dificultado ou pode afetar a realização de ações voltados a P2R2?
2.2. Em acidentes ou eventos com produtos químicos perigosos, quais as rotinas e protocolos adotados pela instituição relacionados a resposta e/ou ao atendimento?
2.3. Quais os incidentes mais frequentes e as principais dificuldades enfrentadas?
2.4. Na sua opinião as respostas a estes incidentes têm sido eficazes? O que poderia melhorar?
3 Riscos Legais ou de Conformidade CORCORULLO (2002); IBCG (2007); BRASILIANO (2016)
3.1. Existem questões normativas ou aspectos legais que afetam a realização de ações no contexto da política P2R2 e/ou controle de produtos químicos por parte da instituição?
3.2. Na sua opinião existem conflitos normativos relacionados as competências das instituições em relação as atividades de P2R2 ou no controle de PP? Quais os conflitos e como a instituição tem trabalhado essa questão?
4
Riscos financeiros e/ou orçamentários CORCORULLO (2002);
IBCG (2007); BRASILIANO (2016);
MPG (2017)
4.1. Na sua percepção, quais fatores relacionados a questões orçamentarias podem ser ajustados para que os resultados da realização de ações de controle e/ou P2R2 fossem atingidos da forma esperada?
4.2. No contexto da política P2R2 em Foz do Iguaçu, os investimentos deveriam ser priorizados em que tipo de ações? Prevenção, preparação ou resposta?
5 Riscos de Imagem ou reputação MPG, 2017; OLESKOVICZ; OLIVA; PEDROSO (2018)
5.1. Que tipo de situação poderia afetar a imagem ou a credibilidade da instituição no que se refere a P2R2, ou as ações relacionadas ao controle de PP?
5.2. De que forma a ocorrência de um acidente envolvendo produtos químicos perigosos de grande repercussão pode afetar a imagem da instituição? 5.3 como é trabalhada a imagem institucional frente aos resultados de eventos relacionados a produtos perigosos?
BLOCO 02
Nº Elementos degovernança Questões
1 Formalização ALBERS (2010); CARNAÚBA et al. (2012); SILVA; TAVARES; SILVA (2015)
1.1. Existem procedimentos de atuação conjunta e ou parcerias para o controle de produtos perigosos ou ações de P2R2?
1.2. Existem instrumentos formais da instituição para a P2R2 ou controle de PP?
1.3 Como se dá a mobilização para eventos relacionados a P2R2 e controle de PP?
2
Centralização ALBERS (2010); WEGNER (2012)
2.1. No contexto de execução de ações para P2R2 como as decisões são tomadas? Existe uma prevalência na tomada de decisão por parte de alguma instituição? 2.2. Existe uma estrutura específica para tomada de decisões e ou comunicação? Caso positivo, como está organizada?
3
Organizações FLEURY (2005); SILVA; TAVARES; SILVA (2015)
3.1. Quais organizações locais que você identifica que possui responsabilidades na P2R2? Quais seriam as funções destas organizações?
3.2 A sua organização tem participado do P2R2 nacional e/ou do PR? De que maneira?
4
Especialização FLEURY (2005); ALBERS (2010)
4.1. Você considera que existe uma especialização de funções entre os atores locais para a execução e implementação de atividades no âmbito das atividades de controle de PQP e P2R2?
4.2. Na sua percepção no contexto da P2R2 existe alguma instituição (pública ou privada) que têm atuado mais efetivamente, e/ou está mais preparada para as atividades relacionadas a acidentes envolvendo PP?
5 Coordenação ALBERS (2010); CARNAÚBA et al. (2012); SILVA; TAVARES; SILVA (2015);
5.1. Existem mecanismos institucionais de diálogo entre as organizações com responsabilidades na P2R2? Quais?
5.2. Como as ações são coordenadas nas situações de eventos envolvendo PP e P2R2?
6
Cooperação FLEURY (2005);
6.1. Existem instrumentos ou situações que tem possibilitem o compartilhamento de recursos para P2R2 ou controle de PP?
CARNAÚBA et al. (2012); SILVA; TAVARES; SILVA (2015); WEGNER
(2012)
6.2. Como ocorre o compartilhamento de informações, práticas ou experiências entre as organizações locais, ou com a comissão estadual pra P2R2 ou controle de PP? 7 Controle ALBERS (2010); CARNAÚBA et al. (2012); WEGNER (2012)
7.1. Como é avaliado o desempenho da instituição em relação aos eventos associados a P2R2 locais?
7.2. Existem controle interno ou externo das ações de resposta aos incidentes com produtos químicos perigosos ou de monitoramento?
Fonte: elaborado pela autora da pesquisa (2019).
As questões foram estruturadas com o propósito de orientar a abordagem e obter respostas para as questões fundamentais a serem exploradas, segundo os objetivos b) e c), respectivamente.
As entrevistas foram conduzidas pela autora da pesquisa, que aplicou o roteiro do Quadro 12 aos gestores ou responsáveis das instituições com competências relacionadas ao controle de produtos perigosos e/ou a P2R2 em emergências ambientais com produtos químicos perigosos em Foz do Iguaçu-PR. Inicialmente, foi planejado a realização de 16 entrevistas, no entanto, foi possível realizar 11 entrevistas às seguintes instituições: Defesa Civil; Corpo de Bombeiros; Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (IBAMA); Instituto Ambiental do Paraná (IAP); Secretaria Municipal de Meio Ambiente; Polícia Ambiental – Força Verde; Exército Brasileiro (34º BIMec); Polícia Rodoviária Federal (PRF); Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT); Secretaria Municipal de Saúde (Serviço de Atendimento Municipal de Urgência - SAMU) e SEST/SENAT. Durante o processo de agendamento a empresa especializada em resposta a emergências ambientais sediada na região, informou que não tinha disponibilidade de tempo para fazer entrevistas. Já a empresa que administra o porto seco, assim como, a empresa concessionária da Rodovia BR 277 e a capitania dos portos, não responderam a solicitação para agendamento da entrevista. Foi realizado o agendamento com o representante do Ministério Público, o qual solicitou posteriormente um reagendamento, não sendo possível a realização da entrevista no prazo planejado.
As entrevistas foram gravadas em mídia digital e transcritas em editor de texto. Para a análise, foi realizada a comparação das evidências empíricas encontradas nas respostas dos entrevistados com os padrões derivados das matrizes teóricas (YIN, 2006) conforme ilustrado na Figura 5.
Figura 5 - Evidências versus matriz teórica
Fonte: elaborado pela autora da pesquisa (2019).
As evidências coletadas por meio das entrevistas foram organizadas em planilha eletrônica de acordo com as respectivas categorias de análise. Assim, foram confeccionas duas planilhas, uma para as categorias de riscos organizacionais e outra para os elementos de governança. Com objetivo de demonstrar a representatividade de cada categoria em relação ao conjunto das evidências, as respostas dos entrevistados foram quantificadas segundo respectivas categorias. Com vistas a corrigir as distorções quantitativas em relação a percepção dos entrevistados, foi atribuída a pontuação de 0 para nenhuma evidência encontrada, 1 para uma evidência, 1,5 para 2 a 3 evidências, 2 para 4 a 5 evidências, e 2,5 para 6 ou mais evidências identificadas. Essa escala de valores foi utilizada para equacionar os casos em que em determinada categoria apenas um ou dois informantes apresentaram um grande número de evidências elevando o peso da categoria avaliada, e os demais nenhuma evidência. Ao passo que em outras categorias a maioria dos informantes relataram evidências. Os resultados foram ilustrados em gráficos.
Como vimos anteriormente, os riscos são situações e/ou eventos que tornam incerto que as instituições alcancem seus objetivos, e, normalmente, estes
eventos são expressos em termos de fontes de risco e suas consequências e probabilidades (ABNT NBR ISSO 31000, 2018). A partir da classificação das evidências de acordo com as categorias de riscos, foi realizado a descrição dos eventos de riscos, analisando-se suas possíveis fontes ou causas de riscos, e supostas consequências, utilizando-se como parâmetro o esquema conceitual apresentado na Figura 06.
Figura 6 - Esquema da descrição de um evento de risco.
Devido a<CAUSA/FONTE>, poderá acontecer<DESCRIÇÃO DO EVENTO DE RISCO>, o que poderá levar a <DESCRIÇÃO DO IMPACTO/EFEITO/CONSEQUENCIAS> impactando no/na <PROCESSO>.
Fonte: MPG (2017).
A pesquisa de campo tornou possível avaliar os eventos de riscos que podem afetar as organizações locais na atividade de controle e P2R2 em emergências envolvendo produtos químicos perigosos, assim como, identificar os elementos que configuram a governança para P2R2 em Foz do Iguaçu-PR. Os resultados da pesquisa são descritos e analisados no capítulo a seguir.