CAPÍTULO 02. FAZER-SE FEMINISTA: OS CAMINHOS E SIGNIFICADOS DA AUTO-
III.IV. Significados da auto-organização das mulheres trabalhadoras rurais do Nordeste
III.IV.II Porta aberta: mulheres que ensinam mulheres
Ao percorremos os caminhos enaltecidos pelas trabalhadoras rurais para pensar sobre si e sobre o movimento social que constituem, observamos que se trata de um processo no qual a vida cotidiana das mulheres torna-se referência para a construção do conhecimento que desejam sobre/para a luta política das trabalhadoras. É no reconhecimento das suas opressões nos mais diversos espaços que é possível ensinar e aprender a partir das estratégias de resistências e produzir um posicionamento crítico sobre si e sobre o mundo. Para nós, a tradução deste processo materializada na EEF reflete a construção de uma identidade feminista que vem sendo erguida a partir da perspectiva de auto-organização. Na elaboração conceitual sobre o que seria estar auto- organizada destacamos alguns significados que nos parecem basilares para a reflexão das trabalhadoras rurais.
“-O que é a auto-organização? O que é o auto? Vera81
disse assim: “O MMTR/NE não defende a mulher”, parece um absurdo, né? Aí Gil82
logo se doeu, diga ai? (MADALENA, EEF-MMTR/NE, 2015). - A gente tem a mania de dizer que a gente entra na discussão para defender a mulher, mas não é para defender a mulher, é para nos defender. Por exemplo, se eu chego e tem alguém esculhambando com Iasmim, aí eu entro para defender Iasmim, mas não é Iasmim como mulher, somos nós, todas as mulheres. Nós entramos nas discussões para defender um todo, não é para defender a mulher, pobrezinha, coitadinha, somos nós. Foi isso? (VÂNIA83, EEF-MMTR/NE, 2015).
-Foi. Nós somos mulheres que estamos nos defendendo, não é defender uma mulher ali que sofre violência. Quando uma mulher sofre violência, todas nós somos violentadas. Essa é a diferença que já se falou aqui. Tinha uma ação que tinha mais assessoras que trabalhadoras, e era uma ação de trabalhadoras, então esta diferença, não é que a gente não quer as colaboradoras, a gente quer, mas a questão da auto-organização é a questão que nós mulheres devemos nos organizar e nos defender, quem têm que fazer somos nós” (MADALENA, EEF-MMTR/NE, 2015).
81 Secretária executiva do MMTR/NE
82 Diretora regional do MMTR/NE pelo estado do Rio Grande do Norte presente no curso da EEF. 83 Vânia é trabalhadora rural de Pernambuco, tem 38 anos e é diretora regional pelo estado por duas gestões do MMTR/NE (2014-2019).
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Este diálogo nos parece revelador de um primeiro significado elaborado pelo Movimento para refletir sobre a auto-organização de mulheres trabalhadoras rurais do Nordeste. A princípio, o questionamento de que não se defende “a mulher” que poderíamos ler como “aquela que não sou eu” nos parece emblemático, pois o pensamento evocado desconstrói as ideias que não possibilitam visualizar o ponto comum que produz as opressões sobre todas, muitas vezes as mesmas ideias que hierarquizam mulheres dentro do feminismo. Acreditamos que este posicionamento se entrelaça com a história do feminismo e com a relação com grupos de mulheres populares, sobretudo no contexto de profissionalização das ONGs que discutimos a partir de Thayer (2001) na seção anterior. A revisão elaborada pelo Movimento de que não é para “defender a mulher” ou “aquela alheia a mim”, nos situa dentro de um escopo de luta feminista em que não se faz algo por elas, mas por todas nós. Parece-nos que é no exercício de se enxergar em todas as mulheres que se fortalecem os sentimentos comuns e que se oportuniza dar um sentido coletivo às ações do Movimento.
No entanto, ainda que esta afirmação seja um demarcador positivo, as ponderações são feitas quando, logo em seguida, complementa-se com a explicação de que “o ato de fazer” e aqui inferimos também como “pensar sobre si e para si”, diz respeito a um lugar de fala que não deve ser ocultado. Neste sentido, dissolver hierarquias não significa homogeneizar ou invisibilizar diferenças entre mulheres.
Quando Abramovay e Castro (1998) discutem a ideia do “novo feminismo” no cotidiano das mulheres de grupos de base, este argumento vem da observação de que há uma potencial capacidade de diálogos com o “outro” que as mulheres constroem em suas lutas diárias. O que não significa, necessariamente, ruptura com o feminismo que se ergue tendo por base a experiência de mulheres brancas, de classes economicamente privilegiadas. O novo se associa muito mais a uma ideia de fazer-se feminista, em uma perspectiva de maior complementariedade do que de negação do que foi posto anteriormente. Para debater essa realidade, as autoras argumentam que as mulheres líderes da base transitam por muitos espaços e o feminismo aparece muito mais como uma postura de vida do que como rótulos, que combinam direitos sociais universais e respeito às diferenças.
Este “novo” feminismo proveniente das classes populares não trabalha com as bases. Essas lideranças são as bases, revelando um feminismo muito próprio que possui relações com os feminismos urbanos, dado o contexto histórico facilmente observável a
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partir das ONGs feministas84. O que as autoras observam nessas organizações, que contam com lideranças mulheres de setores populares, é que o feminismo nelas produzido alavanca polêmicas sobre geral e específico, sobre objetivo e subjetivo, necessidades de sobrevivência econômica, mudanças culturais, afirmação de individuação e de diferenças. Há, neste caminho, possibilidades criativas de combinação entre diferentes perspectivas de lutas feministas (ABRAMOVAY E CASTRO, 1998, p. 106).
O que estamos compreendendo por combinação entre diferentes perspectivas de lutas diz respeito ao contato que mulheres ligadas aos setores populares constroem com a luta feminista de modo geral, se relacionando, muitas vezes, com discussões até então inaugurais, como saúde da mulher, aborto, direitos sobre a sua sexualidade, divisão sexual do trabalho e representação política das mulheres em instâncias de poder85. O outro polo da relação reúne elementos vinculados à realidade cotidiana dessas mulheres que, por vezes, passam a ser potencializadas no contato com discussões feministas, incorporadas ou ressignificadas. A combinação desta relação reflete, em alguma medida, as expressões feministas que se constroem vinculadas às mulheres populares.
A porta aberta para o reconhecimento do lugar de fala de mulher se abre quando é possível coletivamente construir um espaço no qual as diferentes experiências das mulheres caibam e possam construir uma rede de significados capazes de informar um modo de ser mulher rural, que considera desde as suas estratégias de resistências no âmbito da família, até os seus engajamentos políticos em organizações sociais. Um dos grandes saltos nas análises destes processos diz respeito à necessidade constante de aprender e ensinar.
Quando nos referimos ao ato de aprender e ensinar a partir das experiências de vida, não desconsideramos que haja diálogos com a produção intelectual que há sobre o feminismo no Brasil e no mundo. Pelo contrário, a EEF busca oportunizar o contato das mulheres rurais com este arcabouço de conhecimentos. No entanto, observamos que isto é feito a partir da compreensão de que os tipos de conhecimentos não são verdades absolutas, mas estão permanentemente em (re)construção.
Se a auto-organização para as trabalhadoras rurais diz respeito a este exercício de coletivizar as experiências das mulheres sem ocultar relações de poder, se refere
84 Alvarez (2014) relata que neste momento histórico, as ONGs feministas atuavam a partir de projetos direcionados a mulheres pobres financiados por capital internacional.
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também ao fato de que mulheres ensinam mulheres. A educação transformadora compõe um dos elementos que estruturam a ideia da auto-organização para o MMTR/NE.
“Saiu durante o nosso debate que a mulher ainda não descobriu o poder que ela tem, porque isso foi algo culturalmente imposto, que já foi discutido aqui. Isso é como se fosse uma doença proposital, que foi proposta de que as mulheres são frágeis e são quebráveis e que é como se fosse uma vida posta nas mulheres para ela não enxergar esse poder que ela tem. Essa auto-organização que a gente está discutindo aqui é justamente esta venda que as mulheres vão tirar e enxergar o poder que têm para assumir o seu espaço e deixar esse discurso de que mulher não pode fazer isso, de que mulher é o sexo frágil. No entanto, a gente vê também que por mais que a gente queira aplicar uma injeção de cura, por mais que a gente queira tirar essa venda das mulheres, sempre vai existir aquelas em que não vão aceitar, como uma amiga dela que disse que sabia que tudo que a gente fala é certo. Muitas mulheres sabem tudo o que a gente está discutindo aqui é certo, que vai favorecer ela, mas dizem: “eu não vou arrumar um namorado se eu chegar com esse discurso”. E não vê que isto é um processo de repressão. Eu também já escutei isso de um amigo meu, quando a gente discute sobre tudo e ele disse: “Maria, eu não consigo arrumar namorada, eu não sei o por quê”. Na verdade, eu já sabia, mas eu queria escutar, e daí ele disse que: “nenhum homem está preparado para se relacionar com você com a autonomia que você tem sobre diversos aspectos, você quer fazer as coisas você faz, você não pede”, ele disse. Na verdade, as mulheres não enxergam que é pedir, é diálogo, eu não vou poder fazer isso, por que eu não posso? Por que a gente não pode fazer? Vamos discutir, vamos dialogar, ela não enxerga isso abertamente. Essa autogestão, esta auto-organização vem para isso. Trouxe também a questão da educação, que é a base da pirâmide para que essa auto-organização aconteça, de nós que estamos aqui, que estamos participando desta Escola e estamos compreendendo o que é este empoderamento, nosso empoderamento, de trazer [as mulheres] e não reprimir. Eu digo por mim, eu faço isso, por mais que esteja no nosso inconsciente, a gente faz, aquela mulher ali é uma prostituta, mas aí tem toda uma questão histórica que a gente vive disputando o espaço das mulheres, a gente sempre reprime as mulheres pelos atos de fazerem determinada coisa e que tem que ser a boazinha, mas aí é todo um contexto diferente que a maioria das mulheres não abriu para enxergar essa questão” (MARIA NECA, EEF-MMTR/NE, 2015).
Nesta consideração de Maria Neca, que é trabalhadora rural de Pernambuco, tem 28 anos e participa do MMTR/NE há 2 anos, a ideia de que a educação é a base do processo de auto-organização é nítida. Para ela, que refletiu em grupo sobre este significado, a educação transformadora permite empoderar mulheres e auxiliar no despertar quanto à noção de direitos e quanto aos discursos naturalistas que
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subalternizam a mulher. Neste sentido, pensar a educação no MMTR/NE em muito nos remete aos ensinamentos da educação popular.
Este modo de educar permite que as classes populares se eduquem a partir de sua própria prática. Não está a serviço de algum fim imediato, mas consiste em ser um trabalho coletivo em si mesmo, no qual a partir de trocas de experiências as pessoas envolvidas podem consolidar saberes comprometidos ou socialmente engajados para vivenciar a situações de poder compartilhado (BRANDÃO, 1984).
A ideia de compartilhar poder pressupõe um sistema no qual os saberes estão distribuídos de modo hierárquico. Imbuídos em relações de poder, não é demasiado falar que em se tratando de mulheres trabalhadoras rurais do Nordeste seus conhecimentos são invisibilizados ou, quando considerados, tratados de modo exótico ou muito particularista. Garcia (1980), relacionando este debate com a educação popular, considera que “o fortalecimento do saber/poder popular se dá quando os grupos se encontram e se reconhecem como iguais e se percebem analisando o mundo que os cercam” (GARCIA, 1980:102). O autor ainda considera que este posicionamento implica em controle do processo educativo das pessoas protagonistas, para que elas possam definir seus interesses e construir autonomia no fazer e no dizer. Isso tudo deságua na construção um espaço no qual os saberes populares possam se expressar.
A educação popular compreende que o ato de educar não deve estar relacionado com ações que visam capacitar as pessoas com uma introjeção unilateral, mas com uma prática que esteja a serviço da libertação, parta do diálogo e estimule a reflexão e a ação dos indivíduos sobre a realidade (FREIRE, 1983). Dentro dessa mesma ótica freiriana, Calado (2005) elenca alguns traços característicos dessa educação. Para uma caracterização mais elucidativa, sublinhamos como:
“- A capacidade de despertar em todos e todas que a formam, o sentido de sua incompleteza, da sua condição inconclusa, o que propicia uma permanente disposição de irem se tornando...
- que propicie aos seus membros o permanente aprimoramento de sua capacidade perceptiva, ajudando-os a ver, a ouvir, a sentir, a intuir mais e melhor o que, ou antes não conseguiram, ou só conseguiam de forma muito fragmentária e descontínua;
- que seja capaz de trazer para dentro de si os desafios do dia-a-dia enfrentados pelos alunos e alunas, ao mesmo tempo em que se dispõe a ensinar e a aprender, a partir de e com as pessoas comuns do campo e da cidade;
- Uma educação Popular que estimule a capacidade de sonhar de seus protagonistas, numa perspectiva de utopia libertadora” (CALADO, 2005: 14-16).
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No exercício de educar-se coletivamente, o MMTR/NE, através das suas experiências de formação, materializa a educação popular quando utiliza como narrativa primordial os saberes construídos na vida individual de cada militante. Ao reconhecerem em suas vidas os momentos em que iniciam um processo de conscientização sobre o seu lugar no mundo, reconhecem nos espaços auto-organizados a oportunidade de construir referências e instrumentalizar-se de conteúdos e reflexões que as potencializem na luta política que constroem.
Nos perguntamos, então, quais são os impactos em suas vidas de todo esse processo educativo que é conduzido pela EEF. Isto, de alguma forma, nos auxilia a entender os conhecimentos que elas produzem sobre suas formas de organização política e qual é a incidência deste processo em seus cotidianos. Gorethe é trabalhadora rural do Piauí, tem 41 anos e participa do MMTR/NE há 15. Registramos seu depoimento quando ela relatava o momento em que casou e teve quatro filhos/as.
“Fiquei lá penando com esse monte de menino. Jesus [o marido] sempre foi grosso, sempre foi daquela cultura, e, ainda pior, eu morava perto da sogra e a sogra também ficava naquele negócio, claro, defendia o filho dela. Ela achava que o filho dela estava certo que ela também foi acostumada daquele jeito. Depois dona Dezuíta86 começou a me convidar e agradeço todo dia que eu vejo ela. Ela começou a me convidar devagar, “vamos para reunião”, eu ia meio acanhada, começava a ir e ficava pensando “o que é que eu vou falar? Eu não sei falar”, comecei ir. Depois fui para mais longe um pouco, comecei a vir para cá [Caruaru-PE], e o certo é que hoje eu vejo que a minha vida mudou. Claro que eu não superei toda coisa, tem algumas coisas que eu ainda preciso superar, mas eu vou conseguir, é que realmente é muita coisa para uma cabeça só. Mas eu vejo que hoje eu já estou aos poucos em vários espaços. Não estou mais só naquele espaço rural e nem no espaço privado, eu já consigo sair de casa, eu digo que vou e vou. Às vezes ainda tem lugar que eu sinto vontade de ir, mas eu não vou, por exemplo, festa, eu não me sinto à vontade de ir em festa. Parece que é assim, ele [o marido] está em casa e eu estou aqui e todo mundo vai para a festa, mas ele está lá em casa e é como se ele tivesse aqui dizendo para eu não ir. É realmente ainda um trauma conseguir superar isso ou se eu vou e o pessoal fica dizendo para dançar eu não consigo dançar que é como se ele tivesse dizendo “não vai dançar não”. Graças a Deus hoje eu vejo que sou uma mulher feminista, consegui superar muitas coisas e vou consegui superar o resto também” (GORETHE, EEF-MMTR/NE, 2015).
A fala de Gorethe nos revela um processo interessante de fortalecimento entre mulheres e resume em alguma medida as discussões que desenvolvemos até então. Na
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observação dos processos de opressão, começa a romper com a ‘casa pequena mundo fechado’ e no caminhar com outras mulheres ultrapassa as fronteiras da reclusão, reconhece os avanços que conquistou e os desafios que ainda precisam ser superados.
Na chave da educação popular, como nos orienta os autores citados, compreendemos que toda a educação para a transformação social diz respeito a mudanças de comportamentos e de hábitos de vida. A realidade de Gorethe representa um processo de construção da identidade política de mulheres rurais no qual é possível observar a reflexão aprofundada que elas fazem sobre si e os dilemas postos na vivência desta construção.
Estar auto-organizada permite potencializar a fala e resgatar, por meio da oralidade, um modo de manifestar e construir seus saberes, possibilitando criar um espaço de cuidado em que as mulheres se sintam seguras para manifestar contradições e edificar um sentido que seja capaz transformar suas realidades. Maria de Mogeiro é trabalhadora rural da Paraíba, tem 40 anos e participa do MMTR/NE há 12 anos. Durante a formação, reforça o sentido da auto-organização dizendo: “Penso que o
Movimento é transitório, essa auto-organização eu tenho que passar para aquela que vem depois de mim” (MARIA DE MOGEIRO, EEF-MMTR/NE, 2015).
Sendo o Movimento transitório e situado historicamente, a auto-organização torna-se perspectiva de uma dinâmica de luta social que propicia transformação, autonomia e caminho para visibilizar a construção do conhecimento. Em entrevista para a pesquisa, Verônica Santana, secretária executiva do MMTR/NE, sintetiza o que compreende sobre estar auto-organizada para produzir conhecimento:
“O quarto módulo é a gente trabalhar a questão do feminismo em uma perspectiva da auto-organização das mulheres. Aí a gente começou: “que feminismo a gente precisa trabalhar?”. E a gente disse então: “O Feminismo Rural”. Mas o que é o Feminismo Rural? Às vezes, na nossa cabeça de tanto dizer feminismo rural, dizemos: feminismo rural é o feminismo rural, é ser uma feminista rural. Mas, a gente precisava então conceituar o que é esse feminismo rural, ou seja, como construir as bases dele, o argumento. Então, a gente disse: vamos trabalhar e tentar construir um conceito, consensuar entre nós o que é esse feminismo rural, nessa perspectiva da auto-organização, ou seja, que as próprias mulheres a partir da reflexão, se descobrissem ou não feministas, enfim” (VERÔNICA SANTANA, entrevista em outubro de 2015).
A partir da análise sobre os caminhos e os significados da auto-organização para o MMTR/NE, podemos compreender que se trata de uma estratégia metodológica que
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evidencia o protagonismo da mulher rural na construção de um arcabouço de ideias que nasce, diretamente, de suas experiências individuais. Compartilhadas no ato de ensinar/aprender, estas experiências singulares conectadas traduzem uma vida coletiva amplamente partilhada, o que, de alguma forma, produz um sentimento de pertença que auxilia na formação feminista proposta a partir da EEF. Trata-se de uma pedagogia muito própria, em que o cuidado entre mulheres é aguçado no desenvolvimento da análise das suas experiências e na percepção do mundo enquanto trabalhadoras rurais do Nordeste.
Os trajetos entre a “casa pequena-mundo fechado” e o “mundo aberto lá fora”, demonstram as resistências construídas para o enfrentamento da ofensiva patriarcal, o que fortalece a identidade feminista das trabalhadoras rurais. Isto fica ainda mais perceptível quando a “porta aberta como mulher” não possui mais cadeados, e no “livre” trânsito de ensinar umas às outras, ampliam suas capacidades de produzir conhecimentos coletivos. Continuaremos observando estas produções no processo de conceituar o feminismo rural, tema do nosso próximo capítulo.
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