3 A MACRO-ESPACIALIDADE DA ESCRAVIDÃO: UMA ANÁLISE
3.5 O controle sobre os espaços: a manipulação das paisagens e a
3.5.3 Normatizações das relações sócio/espaciais: o beneficiamento das
3.5.3.1 Portos, pontes e abertura das margens 116
De forma geral, é possível elencar, como primeiro ponto de beneficiamento da paisagem, o melhoramento dos portos e áreas ribeirinhas dos principais arroios (Pelotas, São Gonçalo e Santa Bárbara), onde se escoa a produção do charque e circulam-se os diferentes produtos do comércio local (entre eles escravos). Essa questão já aparece nas primeiras sessões da Câmara. No mês de Maio de 183234, a câmara constitui comissão específica para o exame das estradas, fontes e margens de rios (com especial atenção para as margens dos arroios de São Gonçalo e Pelotas). Na sessão de 16 de Agosto de 1832, requere-se que se deixem francos ao trânsito público as margens dos arroios Pelotas, São Gonçalo. A preocupação com a livre navegação dos rios desponta novamente na documentação no dia 28 de Julho de 1845, por meio de um embargo exercido sobre uma obra feita pelos irmão Ribas no Porto de Pelotas. A comissão permanente indica que não pode consentir a “[...] estacadas e aterros que estreitem o mesmo rio e arroio, diminuem sua profundidade e interditam a navegação [...]”
Em conjunto a este processo, se estabelece a importância de ultrapassar as barreiras internas que os arroios impunham a livre circulação no interior da
34 Sessões de 8 e 9 de Maio de 1832.
cidade. Neste quadro, se situam as tentativas de facilitação dos meios de transporte e as preocupações com o trânsito público no interior da povoação.
A construção de pontes é uma problemática bastante presente nas discussões da Câmara e ilustra uma das formas de dinamizar o trânsito público no interior da cidade. Diferentes pontos da cidade, sob distintos aspectos, foram delimitados como de necessidade para o trânsito público local. Dentre estes está a proposta de ponte para o arroio São Gonçalo. No dia 7 de Julho de 1846, por proposta do Vice-Presidente da Província, discutiu-se a possibilidade de se constituir uma ponte na localidade “Liscano” ou em qualquer lugar do rio São Gonçalo
[...] A comissão permanente deu o urgente parecer acerca do ofício do mesmo senhor Vice Presidente de 30 do mês de junho em que exige informação desta Câmara sobre a possibilidade e conveniência de se estabelecer uma ponte no rio São Gonçalo: que a Câmara responda que supõe impraticável a colocação da referida ponte, de qualquer forma que ela seja no rio de São Gonçalo, sem que ofereça grandes obstáculos a frequente navegação do sobre citado rio, além do muito difícil trânsito da margem direita do mesmo rio, que na estação invernosa é alagado na largura de duas milhas, mais ou menos desde o sangradouro até a sua foz, bem como a esquerda o é também na sua maior extensão: pedida a urgência de deliberação pelo senhor Viana e aprovada foi o parecer unanimemente aprovado resolvendo-se que assim se respondesse ao mesmo senhor Vice Presidente [...]
Nota-se pelas impossibilidades citadas e pelas informações dadas pela comissão de forma geral, que a circulação do São Gonçalo era de suma importância tanto para as questões locais quanto provinciais.
A construção de pontes e pinguelas, também era demandada pelos proprietários da cidade. Francisco Carneiro da Fontoura, no dia 27 de Fevereiro de 1835, pede permissão para construir ponte nos terrenos de sua chácara no Arroio Pelotas. Há um imbróglio neste caso, sobre a abertura de uma picada em terrenos de um vizinho, para prosseguimento da dita ponte35. Igualmente, nos dias 22 e 23 de Novembro de 1832, discute-se a respeito construção de uma pinguela (ponte) no passo geral do arroio Santa Bárbara. Neste caso, a Câmara permitiu que Maximiano José de Almeida e Silva, construísse a dita pinguela, desde que não embaraçasse o trânsito público do dito passo geral.Estes casos
atestam a necessidade da constituição deste tipo de componente material para o franco trânsito público.
A utilidade das pontes, entre outras questões, é destacada pelo vereador Afonso Alves (presidente da Câmara no período), no momento em que ele destaca e elenca ao Presidente da Província algumas das necessidades urgentes da cidade. Em representação feita no dia 11 de Outubro de 1849, ao Presidente da Província, o vereador propõe
“[...] que esta Câmara dirija a Sua Excelência o senhor Presidente da Província uma representação tão enérgica quanto respeitosa, na qual descrevendo o estado de progressiva decadência do município lhe peça a pronta execução dos melhoramentos decretados pela Assembleia Provincial, isto é, o estabelecimento da colônia, a abertura da barra de São Gonçalo e Sangradouro, e a construção das pontes do Piratini e Santa Barbara, e com especialidades a de estas obras que facilitando os meios de transporte, e assim fomentando e promovendo o comércio desalentado pelas inúmeras dificuldades, que lhe colhem o progresso, proporcionarão trabalho a muitos operários nacionais e estrangeiros reduzidos a miséria por falta dele conservando-se deste modo o resto da proveitosa emigração que sem dispêndio dos cofres públicos os mesmos afluirá em consequência das desordens dos Estados vizinhos [...]”
No trecho acima, destacada ênfase se dá as questões de estruturação dos meios de transporte em sua relação com a fluidez do comércio local. Sem entrar em detalhes na importante referência a implementação de uma colônia de estrangeiros na Serra dos Tapes, percebe-se o destaque dado a construção de pontes, como fator fundamental da promoção do comércio.
O levantamento da ponte no arroio Santa Bárbara é uma temática recorrente das discussões da Câmara36. A construção da ponte era tida como de grande utilidade pública. Um dos motivos elencados era para facilitar o trânsito dos moradores, principalmente no inverno37. No dia 26 de Julho de 1847,o engenheiro Luiz José da França, envia a planta da ponte. Segundo Eduardo Arriada, em nota ao segundo livro das Atas da Câmara de Pelotas (2012, p.90)
“[...] A necessidade de articulação entre o entreposto da Praça das Carretas com o centro da Cidade, leva a Câmara a buscar superar o Arroio Santa Bárbara, para tanto constrói sobre o mesmo, um a pequena ponte de madeira, posteriormente em 1865, com projeto do
36 Esta temática é abordada nas sessões de 3 de Junho de 1845, 20 de Março de 1846, 21 de Junho de 1847 e 26 de Julho de 1847.
engenheiro Major José Manoel Pereira de Campos, é construída uma de pedra [...]”
Percebe-se que além da circulação dos moradores, a preocupação para o levantamento da ponte do Santa Bárbara, pode ter relações com as vias comerciais da cidade e a conexão entre as diferentes partes da cidade com a zona central, a Costa de Pelotas e o Passo dos Negros.
Destacar-se-á, nesse sentido, a importância da Costa de Pelotas e do Passo dos Negros, para o processo de circulação de mercadorias e pessoas e como pontos referenciais na conexão dos pontos da cidade;; mas principalmente, da cobrança de impostos.