3 A MACRO-ESPACIALIDADE DA ESCRAVIDÃO: UMA ANÁLISE
3.4 As Posturas Policiais: espacialidades escravistas e tecnologias disciplinares
3.4.1 Temáticas gerais das Posturas Policiais (1829 / 1834) 98
3.4.1.1 Posturas Policiais (1829) 99
Segue a descrição das temáticas e capítulos da primeira postura reguladora da então incipiente Freguesia São Francisco de Paula (depois cidade de Pelotas).
Capítulo I – Limites dos prédios urbanos, Polícia Interior da Vila e da Povoação do Termo. Neste capítulo aborda-se a delimitação espacial do que
configuram os limites dos prédios urbanos, as questões relacionadas a segurança e a ordem de fechamento de estabelecimentos (tabernas, botequins, bilhares, casas de pasto) depois do toque de silêncio. O art. 3 e seus incisos falam sobre a função policial desempenhada pelos juízes de paz e descrevem a obrigação que os cidadãos livres tinham em prestar o serviço das rondas.
Capítulo II – Sobre os Capitães do Mato. Como o título já antecipa, este
item aborda a delimitação da profissão de capitão do mato. O Art. 4, inciso I, fica a cargo da Câmara, nomear capitães do mato nos lugares que se demonstrar sua utilidade e conveniência “para apanharem os escravos fugidos e destruir os quilombos”. No inciso II a Câmara fica com a responsabilidade de indicar quantos soldados devem acompanhar o capitão do mato (conforme as circunstâncias do lugar). No inciso 3 delimita-se os vencimentos pela apreensão de escravos. Destinam-se uma seqüência crescente de valores. Dentro da povoação ou Vila (dois mil réis);; fora (4 mil réis);; em quilombos (6 mil réis);; em quilombos com até dez escravos (10 mil reis), até vinte (12 mil e oitocentos réis), e daí pra cima (16 mil réis), tudo a custa do proprietário dos ditos escravos. Indica-se que os escravos capturados, fossem levados a prisão local e que não fossem retirados até que o capitão fosse pago e as despesas na prisão fossem satisfeitas.
Capítulo III – Sobre correr em Cavalos dentro das Povoações, tê-los amarrados nas portas e frentes de casas. Indica-se punição a quem corra ou
amarre cavalos no interior da Vila. No art. 5, Inciso I, evidenciam-se as punições para quem correr a cavalo dentro da Vila ou Povoação. Sendo escravos a cavalo, ficarão presos, se forem livres, terão o cavalo apreendido para servir de caução ao pagamento da multa. Sugere-se que as andanças de escravos a cavalo,
fossem questões recorrentes, na dinâmica da cidade.Mais interessante é a indicação da regulação da moradia escrava, presente no inciso III. Diz o texto: “Nenhuma pessoa escrava poderá viver sobre si, nem ter casa alugada, sem licença do Juiz de Paz;; no caso de contravenção será o escravo recolhido à Cadeia, e seu senhor pagará dez mil réis pela primeira vez, e vinte mil réis pela segunda e mais vezes, estando preso o escravo até que seu senhor pague.
Capítulo IV – Sobre frutas verdes e gêneros corruptos. O artigo 6º em
seus 3 incisos, proíbem a venda de frutas verdes e gêneros corruptos, viciados ou alterados. Indica-se o despejo dos alimentos estragados no mar, para que ninguém se valha deles novamente.
Capítulo V – Sobre taberneiros. No art. 7º, proíbe-se que os taberneiros
consintam que escravos fiquem parados sem necessidade, nem comendo, jogando ou conversando. Indica-se multa para os que estiverem com portas mal abertas ou fechadas para encobrir este tipo de prática.
Capítulo VI – Sobre edifícios, construção e terrenos por edificar.
Regulam-se as construções nas áreas de formação da cidade de Rio Grande.
Capítulo VII – Sobre animais soltos na rua, carretas sem guia, casas arruinadas, animais mortos, imundice nas ruas e águas infectadas. Indicam-se,
dos artigos 11º ao 16º normas para o controle dos cachorros nas ruas. Regulam- se o trânsito de carretas, com obrigatoriedade da presença de guias a frente (a pé). O intuito parece ser de evitar acidentes e danos. Quer se impedir a circulação de animais soltos e de sujeiras nas ruas da cidade. Casas arruinadas devem ser destruídas.
Capítulo VIII – Polícia nas Estradas, Pontes e Fontes. Regulam-se, no
art. 17º ações sobre os esgotos das casas, precipícios, aterro de pântanos. Indica-se a punição ao morador que presenciar algum crime (arrombamento, morte, delito grave) e não acionar os vizinhos ou viandantes para a imediata autenticidade e socorro. Neste artigo, no inciso VII, se encontra a referência ao uso de escravos no serviço público, como parte da obrigação dos moradores dos distritos em coadjuvar obras públicas.
Capítulo IX – Rendas. Abordam-se os tributos direcionados aos
estabelecimentos comerciais (lojas de fazenda, boticas, lojas de louças, ferragens), aos quitandeiros (art. 19;; cem réis por mês ou mil e duzentos réis por ano).
Capítulo X – Aplicação das Rendas e Economia: Arquivo. Apresentam-
se os pagamentos de funcionários públicos e a formação de um arquivo da Câmara, onde guardam-se todos os documentos relacionados a administração local. Estes documentos seriam guardados em um cofre.
Capítulo XI – Expostos. Item revela as ações relacionadas a relação do
poder público com as crianças expostas.
Capítulo XII – Aferidores. Citam-se as obrigações dos aferidores de
medidas, sobre o comércio local. Ilustram-se alguns produtos que cada profissão comercializaria: Marceneiro e Especieiro venderiam especiarias, manteiga, toucinho, queijo, entre outros. Os vendelhões ou Taberneiros teriam sob sua posse grãos (milho, feijão, etc.), vinho, aguardente, azeite (licores no geral), fumo, etc. As lojas da fazenda (Mascates) realizariam entre outras coisas, venda de panos, fitas (art.34).
Capítulo XII – Sobre Praça para Carros, Quitandeiras, atravessadores, e gados sem Pastar. O artigo 35º designa o comércio de bens nas praças públicas
e regula os locais de parada dos carros e carretas de produtos. Destina-se também local para quitandeiros e quitandeiras.
Capítulo XIV – Disposições gerais. Versam sobre diversas questões,
dentre elas sobre vozerio e tumultos depois do toque de recolher e da proibição da venda de pólvora ou fogos de artifício nas ruas da Vila.