Azevedo, Ruia; Martins, Cristinaa; Sá, Maria Manuela; Teixeira, Joséb; Barroso, Mónicab
aInstituto Superior da Maia (ISMAI), Av. Carlos de Oliveira Campos, Avioso S. Pedro, Castêlo da Maia
[email protected];[email protected]; [email protected]
bUniversidade do Minho, Campus de Azurém, 4800-058 Guimarães, [email protected];[email protected]
1. INTRODUÇÃO
O tronco é o segmento do corpo humano com maior massa corporal (Winter, 1995; Van der Burg, 2003). Decorre deste facto que qualquer movimento deste segmento, mesmo que ligeiro, causa deslocações consideráveis ao nível do Centro de Massa (CM) corporal, colocando em causa a estabilidade do equilíbrio postural (Van der Burg, 2003), que é tanto mais instável quanto mais próximo se encontrar o CM do limite da base de suporte.
Elevar um objecto a partir do nível do solo implica, de acordo com Toussaintetal. (1998), partir de uma posição estática de equilíbrio, efectuar a flexão frontal do tronco para alcançar o objecto, agarrar o objecto, elevá-lo até à posição desejada e finalmente estabelecer uma nova posição estática de equilíbrio. Esta tarefa é acompanhada por um processo dinâmico de manutenção do equilíbrio postural (Toussaintetal., 1997a). Quando esta movimentação é efectuada frontalmente, utilizando as duas mãos, a massa do objecto é adicionada ao indivíduo, e consequentemente o CM do sujeito é deslocado anteriormente, sendo esta deslocação mais notória no momento de pega do objecto (Toussaintetal, 1998).
A deslocação anterior do CM em relação à base de suporte perturba o equilíbrio postural, potenciando a ocorrência de quedas. Roberts, (1995), Kollmitzeret al. (2002) e Panetal. (2003) alargam este conceito para a generalidade das operações de movimentação manual cargas, porque, segundo estes autores, o CM do corpo humano é deslocado para a periferia da base de suporte, aumentando a amplitude das oscilações corporais, o que contribui para a ocorrência de situações de desequilíbrio. Neste contexto, para manter o equilíbrio postural, é necessário que o corpo humano efectue ajustes posturais, que permitam anular este efeito. A correcção do CM com vista à sua manutenção dentro dos limites de suporte será efectuada através da execução de movimentos voluntários e/ou involuntários, com activação de diversos músculos (Kollmitzeretal., 2002) que garantam a deslocação do Centro de pressão (CP) ao longo da base de suporte. Estudos para comparar as características do movimento de elevação de uma carga a partir do solo utilizando duas posturas diferentes, com flexão do tronco ou com flexão dos membros inferiores, foram levados a efeito por Toussaintetal. (1997b).Este autor verificou que independentemente da técnica utilizada, é fundamental que o CM se mantenha, sempre, no interior da base de suporte,verificando que a técnica de elevação da carga através de flexão dos membros inferiores é mais instável, sobretudo na fase de elevação inicial do objecto, devido ao deslocamento excessivo do CM em sentido anterior.
Considerando que estudos ergonómicos, nesta área, referem que a elevação de cargas deve ser realizada, preferencialmente, através de flexão dos membros inferiores, para prevenir a ocorrência de lesões músculo-esqueléticas, verifica-se ser pertinente clarificar qual o contributo desta estratégia de elevação de cargas para a ocorrência de acidentes por queda.
Assim, para contrapor os resultados obtidos por Toussaintetal (1997) procedeu-se ao estudo da estabilidade postural em tarefas de elevação de carga nomeadamente por flexão do tronco e flexão dos membros inferiores, utilizando uma metodologia experimental distinta, através do cálculo do Índice de Estabilidade Postural proposto por Bagcheeetal. (1998).
2. MATERIAIS E MÉTODOS
A realização do presente estudo de caso envolveu a participação de um sujeito do sexo masculino com 28 anos, sem historial de lesões músculo-esqueléticas ou neurológicas com influência ao nível do equilíbrio postural
A complexidade de manutenção do equilíbrio postural no homem, não se compadece com uma análise baseada numa simples variável, pelo que se procedeu ao cálculo do Índice de Proximidade ao Limite de Estabilidade (IPLE), que corresponde à aproximação do Centro de Pressão ao limite de estabilidade(Bagcheeetal., 1998). Segundo Bagcheeetal. (1998), este índice é calculado de acordo com a equação 1, em que P representa a mínima distância registada entre o Centro de Pressão(CP) e o limite de estabilidade e Rmax a distância entre a origem do referencial e o limite de estabilidade. Ainda de acordo com Bagcheeetal (1998) quanto maior for o valor de IPLE, maior será a estabilidade postural do sujeito.
Foi solicitado, ao sujeito, que subisse para uma plataforma de forças (marca RSSCAN) e unisse os calcanhares, com a parte anterior dos pés afastada 30º, com vista a determinar o limite de estabilidade, que corresponde ao contorno exterior dos pés.
Para cálculo do Rmaxfoi solicitado, ao sujeito, que se inclinasse, lentamente, em sentido anterior, utilizando como eixo de rotação a articulação do tornozelo, sem mover os pés. Este valor corresponde ao ponto em que o sujeito regista uma perda de equilíbrio, ou seja quando a componente vertical do COP atinge o valor mínimo (Bagcheeetal., 1998). Este ponto foi detectado na plataforma de forças, sendo medida a distância a que se encontra da origem do referencial. O valor de P corresponde à migração do CP, em sentido anterior, registada na plataforma de forças aquando da realização dos ensaios.
O IPLE foi determinado para seis tarefas distintas: - Elevação com flexão do tronco, sem carga; - Elevação com flexão dos joelhos, sem carga;
- Elevação de uma carga de 5 Kg com flexão do tronco; - Elevação de uma carga de 5 Kg com flexão dos joelhos; - Elevação de uma carga de 15 Kg com flexão do tronco; - Elevação de uma carga de 15 Kg com flexão dos joelhos;
Posteriormente procedeu-se à análise ANOVA dos valores obtidos para cada ensaio, complementada com o teste de comparação múltipla HSDTukey.
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os resultados obtidos da determinação do índice de Proximidade ao Limite de Estabilidade encontram-se na tabela 1, assim como o valor médio e respectivo desvio padrão. Procedeu-se à análise ANOVA da média dos resultados para cada ensaio, complementada com o teste de comparação múltipla HSD Tukey.
Tabela 1 – Resultados obtidos para IPLE em função da estratégia de elevação e peso da carga Flexão de tronco Flexão de joelhos Sem carga 5 kg 15 kg Sem carga 5 kg 15 kg
586,21 965,51 293,10 603,45 577,59 112,07
500,00 433,96 245,28 537,74 339,62 198,11
288,29 612,61 216,22 702,70 540,54 333,33
Média 458,17 670,69 251,53 614,63 485,92 214,50
D.P. 153,3 270,49 38,82 83,05 128,04 111,54
Pelo teste ANOVA (Tabela 2) verificou-se a existência de diferenças estatisticamente significativas, nas médias dos valores de IPLE obtidos para as diferentes tarefas, com nível de significância de 5%.
Tabela 2 – Análise ANOVA para os resultados obtidos para IPLE
Soma dos quadrados Graus de liberdade Quadrado das médias F Sig.
Entre grupos 516028,569 5 103205,714 4,624 0,014
Intra grupos 267815,259 12 22317,938
Total 783843,827 17
O Teste H.S.D. de Tukey indica a existência de dois grupos homogéneos. De acordo com o resultado do teste verifica-se diferenças estatisticamente significativas no valor das médias de IPLE quando é elevada uma carga de 15 Kg em relação à tarefa de elevação de uma carga de 5 Kg, sendo que os valores obtidos para a carga mais pesada são inferiores aos obtidos para a carga mais leve.
Constata-se, ainda, não existir diferenças estatisticamente significativas entre os valores obtidos quando a tarefa é desempenhada com flexão do tronco ou com flexão dos membros inferiores.
4. CONCLUSÃO
Não se verifica qualquer diferença estatisticamente significativa nos valores de IPLE quando a elevação de carga é efectuada através de flexão do tronco ou flexão dos membros inferiores, pelo que se conclui que a estratégia de elevação de carga parece não ter influência ao nível da manutenção de equilíbrio postural.
Sob o ponto de vista biomecânico, o risco de queda não é influenciado pela postura adoptada para elevação de carga, contrariando os resultados obtidos por Toussaintetal. (1997b). Assim sendo, os resultados ora obtidos vêm corroborar as recomendações dos diversos Organismos Oficiais, Médicos e Ergonomistas no sentido de efectuar a elevação de cargas através da flexão dos membros inferiores.
Complementarmente, verifica-se, ainda, que a elevação de cargas mais pesadas apresenta valores de IPLE mais reduzidos, em relação aos obtidos com elevação de cargas mais leves. Conclui-se, portanto, que a elevação de cargas mais pesadas potencia a ocorrência de situações de desequilíbrio, e, consequentemente a ocorrência de quedas.
Importa mencionar que os resultados apresentados referem-se a um estudo de caso, que ilustra, apenas, o comportamento de um individuo, pelo que a conclusão não pode ser generalizada. Este estudo irá ser aprofundado através de utilização de uma amostra de maior dimensão.
5. REFERÊNCIAS
Bagchee, A., Bhattacharya, A., Succop, P. A., &Emerich, R. (1998). Postural Stability Assessment During Task Performance. Occupational Ergonomics , 1 (1), pp. 41-53.
Kollmitzer, J., L., O., Ebenbichler, G. R., E., G. J., & DeLuca, C. J. (2002). Postural Control During Lifting. Journal of Biomechanics , 35, pp. 585-594.
Pan, C. S., Chiou, S., & Hendricks, S. (2003). The effect of drywall lifting method on workers' balance in a laboratory-based simulation. Occupational Ergonomics , 3, pp. 253-249.
Roberts, T. D. (1995). Understanding Balance - The mechanics of posture and locomotion (1ª Ediçãoed.). London: Chapman & Hall. Toussaint, H. M., Commissaris, D. A., Hoozemans, M. J., &Beek, P. J. (1997a). Anticipatory postural adjustments prior to load pick- up in a bi-manual whole-body lifting task. Medicine and Science in Sports and Exercise , 29, pp. 1208-1215.
Toussaint, H. M., Commissaris, D. A., & J., B. P. (1997b). Anticipatory postural adjustments in the back and leg lift. Medicine and science in sports and exercise , 29, pp. 1216-1224.
Toussaint, H. M., Michies, Y. M., Faber, M. N., Commissaris, D. A., & van Dieën, J. H. (1998).Scalling anticipatory postural adjustments dependent on confidence of load in a bi-manual whole-body lifting task.Exerimental brain research , 120, pp. 85-94. van der Burg, J. C. (2003). Lifting Objects - Surprised by the Mass. Amsterdam: Print Partners Ipskamb BV. Enschede. Winter, D. A. (1995). Human balance and posture control during standing and walking. Gait &Posture , 3, pp. 193-214.