Barra, Cecília M. Pires1, Rodrigues, João Paulo C.2
1 Mestre em Segurança aos Incêndios Urbanos pela Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra.
Câmara Municipal de Loulé, Portugal, [email protected]
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Departamento de Engenharia Civil da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra. Rua Luís Reis Santos, Polo II, 3030-788 – Coimbra – Portugal, [email protected]
1. INTRODUÇÃO
Os Centros Urbanos Antigos (CUA) caracterizam-se pelas suas construções antigas, construídas com madeira nos pavimentos, nas escadas, nas paredes divisórias e coberturas, sem grande protecção com as edificações vizinhas, as ruas são estreitas e os edifícios encontram-se directamente em confronto e a pequena distância uns dos outros.
As paredes de fachada apresentam por vezes aberturas consideráveis que em situação de incêndio são um “irradiador” para as fachadas dos edifícios vizinhos.
As coberturas estão normalmente todas ao mesmo nível sendo a propagação de incêndio entre edifícios vizinhos bastante facilitada.
Os edifícios existentes nos CUA apresentam geralmente um elevado risco de incêndio com consequências por vezes bastante dramáticas e devastadoras com perdas de vidas humanas e de património ambiental e cultural se, tardiamente detectado ou se mesmo detectado a tempo o acesso aos seus edifícios for dificultado pela acessibilidade.
Devido à sua localização e constituição os edifícios antigos são bastante vulneráveis aos incêndios, devido ao elevado número de factores desfavoráveis que facilitam a deflagração do incêndio, dificultam o ataque e facilitam a sua propagação.
A avaliação do risco de incêndio, dos CUA, pode ser quantificada através de um conjunto de factores que determinam a probabilidade esperada de ocorrer o acontecimento, o grau esperado de exposição a esse acontecimento e a maior ou menor capacidade potencial de afectação que o acontecimento pode apresentar.
A avaliação do risco de incêndio num edifício é algo que ainda não é consensual e, basta verificar pela quantidade de métodos de cálculo que actualmente existem e as diferenças dos seus resultados na aplicação a um mesmo edifício, (Barra, 2010).
Pretende-se avaliar os diversos riscos existentes nos CUA e apresentar medidas para os eliminar ou minorar.
Para este estudo serviu de base o CUA de Loulé pelas características que encerra caracterizadoras dos demais CUA Portugueses.
2. CARACTERISTICAS DOS CUA
Os CUA caracterizam-se pela largura reduzida dos seus arruamentos, o que significa que quando há um incêndio num determinado edifício, o que está fronteiro vai ficar sujeito a uma intensa radiação, que será tanto mais intensa quanto maior for a carga calorífica do edifício sujeito ao incêndio e quanto maior forem as aberturas deste último.
As ruas estreitas, Figura 2.1, dificultam a acessibilidade aos edifícios pelas viaturas pesadas dos bombeiros em caso de sinistro, e essa dificuldade fica ainda mais acentuada quando há ligação entre edifícios opostos.
Figura 2.1 – Ruas estreitas
É assim importante definir quais as ruas que se encontram inacessíveis às viaturas de socorro para, em caso de incêndio num edifício, saber-se atempadamente quais as alternativas possíveis para chegar mais rapidamente ao local e nas melhores condições de segurança.
É na evacuação das pessoas que se colocam alguns dos problemas mais graves, e de mais difícil resolução.
Aspectos relacionados com a compartimentação interior dos fogos, com as escadas de tiro, com as larguras reduzidas das mesmas, com a ausência de circulações horizontais comuns, não são de fácil resolução.
As instalações técnicas e principalmente as eléctricas constituem o maior risco para os edifícios antigos, pelo que é de toda a importância uma intervenção sistemática a este nível.
Associado aos materiais utilizados na construção das edificações, existe a possibilidade de coexistência de diferentes utilizações-tipo no mesmo edifício.
Assim, às cargas de incêndio agregadas às habitações podem acrescer-se as cargas de incêndio resultantes de actividades inerentes à própria vivência da cidade como comércio, serviços e restauração.
Outro problema existente nos CUA diz respeito aos estacionamentos, além das ruas serem estreitas há viaturas estacionadas indevidamente que diminuem a largura útil das mesmas.
A colocação de mobiliário urbano nos passeios deverá ter em atenção não só as pessoas com mobilidade condicionada mas igualmente não ser um impedimento na acessibilidade aos edifícios, Figura 2.2.
Figura 2.2 – Estacionamento indevido e mobiliário urbano
3. PROPAGAÇÃO DE INCÊNDIO NOS CUA
No interior de um edifício o incêndio pode propagar-se tanto na vertical como na horizontal, partindo do local de origem do foco de incêndio e propagando-se pelos espaços contíguos.
A propagação vertical é mais provável no sentido ascendente, ditado pelo efeito da convecção (efeito chaminé), mas situações particulares podem originar igualmente uma propagação vertical no sentido descendente.
No interior de um edifício a propagação de incêndio está dependente da compartimentação, da disposição dos diversos espaços, das características dos elementos de construção (paredes, tectos, portas, pavimentos, etc.) e da relação de pressões, interior e exterior ao edifício (Coelho, 2001).
Assim, a propagação de incêndio no interior do edifício pode efectuar-se através das comunicações horizontais comuns, através das redes técnicas e através de espaços ou locais de difícil acesso como é o caso de caves e sótãos.
Pelo exterior, a propagação de incêndio pode afectar e propagar-se a outros pisos do mesmo edifício e a outros prédios adjacentes ou em confronto.
4. CONCLUSÕES
Intervindo com medidas correctivas para melhorar as condições existentes no edifício, vai permitir a redução da probabilidade de ocorrência de um incêndio.
Essa actuação deverá ter dois níveis distintos, o primeiro nível é caracterizado por edifícios com ocupação já existente e o segundo nível relativo a novos tipos de ocupações, principalmente certos estabelecimentos cujos usos não devem em princípio ser permitidos, como é o caso das industrias ainda que por vezes sejam pequenas (Coelho, 2001).
Relativamente aos edifícios já existentes é possível organizar campanhas sistemáticas que podem ir desde pequenas intervenções ao nível físico do edifício até à sensibilização das pessoas para o perigo real e para o seu comportamento diário de modo a não comprometer a segurança.
Sensibilizar as pessoas para a limpeza dos seus espaços, nomeadamente zonas de armazenagem, com regularidade para assim se evitar a acumulação de lixos e de elevadas cargas de incêndio sem qualquer protecção ou segurança ao incêndio. Dar formação às pessoas não só na forma de utilização dos meios de 1ª intervenção, principalmente extintores, no caso de idosos e crianças que não têm força ou altura para os retirar dos suportes e usá-los, mas também formá-los no sentido de saberem que medidas tomar em caso de incêndio.
As intervenções tendo em vista a limitação da propagação do incêndio podem ser efectuadas no interior do edifício e entre edifícios vizinhos.
A propagação do incêndio no interior do edifício pode ocorrer através das janelas passando de um piso inferior para um piso superior, pelos pavimentos, ou através da caixa de escadas.
Na passagem do incêndio pelo exterior, de um piso inferior para um piso superior através das janelas, a possibilidade de intervenção é quase nula se elas forem de sacada e altas.
Na propagação de incêndio através dos pavimentos é possível actuar de forma a melhorar a sua capacidade de desempenho, mesmo continuando a utilizar pavimentos de madeira.
Mas, uma forma de atingir essa melhoria pode passar pela substituição integral dos pavimentos existentes por outros novos, ou actuando apenas no melhoramento do seu comportamento ao fogo.
Para melhorar a resistência ao fogo dos pavimentos de madeira pode-se efectuar a ignifugação da madeira usada nesses pavimentos e pela execução de pavimentos duplos com caixa-de-ar preenchida com material de isolamento.
Na propagação do incêndio de uns edifícios para os outros, a possibilidade de intervenção é reduzida mas o perigo é bem maior.
Uma intervenção ao nível das coberturas é também possível, mediante uma actuação sobre o material de revestimento, e procedendo a uma limpeza regular dessas coberturas e de possíveis tectos falsos.
Deve ser permitido aos bombeiros, ou a outros corpos de intervenção e socorro, adequadas condições de acesso e ataque ao incêndio e devem possuir um perfeito conhecimento das zonas sob a sua responsabilidade.
A criação de novas infra-estruturas nomeadamente no que se refere ao abastecimento de água para combate ao incêndio, dotando estas zonas de hidrantes com capacidade para no local abastecer as viaturas de socorro.
A dinamização de um centro histórico ou CUA passa por acções de requalificação ambiental, incentivos para a fixação de unidades comerciais e serviços na zona e criação de melhores condições para a função habitacional, que será sempre a melhor solução para a revitalização e valorização das suas potencialidades.
A função residencial deverá ser sempre defendida, apoiada e valorizada para que sejam garantidas as vivências e a qualidade urbana destes locais.
5. REFERÊNCIAS
Barra, C.M.P. (2010) – Risco e Propagação de Incêndios em Centros Urbanos Antigos – Tese de Mestrado em Segurança aos Incêndios Urbanos, Universidade de Coimbra;