Direito Constitucional
4.2 Princípios do Direito Administrativo brasileiro
Princípios são proposições básicas que esclarecem as ciências.
Assim, sempre marcaram a ciência jurídica, por incidirem em
enunciados éticos extraídos da lei, orientando os que a interpretam.
Sob essa ótica, Silva (2012, p. 1095) afirma que
princípios, no plural, quer significar as normas elementares ou os requisitos primordiais instituídos como base, como alicerce de alguma coisa. E, assim, princípios revelam o conjunto de regras ou preceitos, que se fixaram para servir de norma a toda espécie de ação jurídica, trançando, assim, a conduta a ser tida em qualquer operação jurídica.
Do exposto, compreendemos que os princípios jurídicos, ao exercerem suas funções, têm extrema relevância na construção, compreensão e aplicação do ordenamento jurídico. Tais funções são as seguintes:
• Servir de base para a criação de uma lei: nesse caso, o princípio fundamenta os valores que devem ser observados pelo legislador na elaboração de uma lei.
Nader (2018, p. 200) explica que “o ponto de partida para a composição de um ato legislativo deve ser o da seleção dos valores e princípios que se quer consagrar, que se deseja infundir no ordenamento jurídico”. O autor ainda complementa mencionando que “se os princípios não forem justos, a obra legislativa não poderá ser justa” (NADER, 2018, p. 200).
Por exemplo, na elaboração de uma lei, o Poder Legislativo deve sempre considerar o princípio da dignidade humana (previsto na Constituição Federal brasileira), segundo o qual o ser humano deve ser respeitado e protegido em sua integridade física, moral e espiritual (BRASIL, 1988). Dessa forma, ao ser criada, a lei não deve desrespeitar tal preceito.
• Auxiliar na interpretação das normas jurídicas: a observação dos princípios serve de critério de orientação àqueles que aplicam a lei e aos que tentam compreendê-la.
• Preencher as lacunas da lei: na falta da lei, o aplicador do Direito se serve dos princípios para preencher tal lacuna, como está previsto em alguns dispositivos do ordenamento jurídico brasileiro, tais como o artigo 4º do Decreto-Lei n. 4.657, de 4 de setembro de 1942, denominado Lei de Introdução às normas de Direito Brasileiro, que assim determina: “Quando a lei for omissa, o juiz decidirá o caso de acordo com a analogia, os costumes e os princípios gerais de direito” (BRASIL, 1942).
Assim como existem os princípios gerais do Direito, os quais se aplicam a todos os ramos jurídicos, também há os princípios específicos a cada área do Direito. Por exemplo, no Direito Processual existe o princípio do contraditório, segundo o qual, em um processo judicial, o réu tem o direito de apresentar seus argumentos e de ser ouvido. Por sua vez, no Direito Penal há o princípio da estrita legalidade, o qual determina que todo o crime está descrito em lei, assim como sua pena.
Os princípios que norteiam o Direito Administrativo estão previstos no artigo 37, caput, da Constituição Federal, conforme apresentado a seguir (BRASIL, 1988): “A Administração Pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade administrativa, publicidade e eficiência [...]”.
Cabe analisarmos agora cada um dos princípios constitucionais supracitados.
4.2.1 Princípio da legalidade
Em relação ao princípio de legalidade, Meirelles (2012, p. 89) menciona o seguinte:
a legalidade como princípio da administração significa que o administrador público está, em toda a atividade
funcional, sujeito aos mandamentos da lei e às exigências do bem comum, e deles não se pode afastar ou desviar sob pena de praticar ato inválido e expor-se a responsabilidade disciplinar, civil e criminal, conforme o caso.
A partir de tal ensinamento, podemos concluir que todo ato praticado pela Administração Pública deve se ater ao que determina a lei. Enquanto aos particulares é permitido fazer tudo o que a norma jurídica não proíbe, aos que trabalham no serviço público só é permitido fazer o que a lei determina, sob pena de responsabilização por atos realizados sem respaldo legal. E tal situação ocorre para proteger os administrados de abusos praticados pelo Poder Público, bem como para delimitar os poderes da Administração Pública.
4.2.2 Princípio da impessoalidade
O princípio da impessoalidade determina que as ações praticadas no serviço público devem estar voltadas apenas para o bem- -estar dos administrados. Isto é, não deve ocorrer interferência de interesses pessoais do órgão ou da pessoa responsável pela decisão administrativa, uma vez que a atuação da Administração Pública deve ser voltada ao interesse público.
Ainda, tal princípio busca evitar a autopromoção daqueles que executam o serviço público. Ao atuar de maneira contrária ao princípio da impessoalidade, desviando-se assim do interesse público, a Administração Pública praticará desvio de finalidade, fato que poderá gerar a nulidade do ato administrativo praticado.
A esse respeito, acompanhe o seguinte exemplo: um chefe de departamento de uma repartição pública determina a remoção de um de seus subordinados, porque o colaborador em questão não lhe prestou um favor pessoal. Nesse caso, o princípio da impessoalidade não foi respeitado, uma vez que a remoção não foi determinada para atender a um interesse público.
4.2.3 Princípio da moralidade administrativa
O princípio da moralidade administrativa é de extrema relevância ao Direito Administrativo, por ser um requisito para a convalidação dos atos praticados pela Administração Pública.
Meirelles (2012, p. 90) explica que não se trata de uma moral comum e que tal princípio faz com que o Poder Público não precise decidir somente “entre o legal e o ilegal, o justo e o injusto, o conveniente e o inconveniente, o oportuno e o inoportuno, mas também entre o honesto e o desonesto”. Tal princípio norteador das atividades praticadas pela Administração Pública estabelece que sua atuação deve ser permeada não só pela lei, como também pelo decoro e pela honradez.
Além da norma jurídica, as ações praticadas pelos entes administrativos devem obedecer à lei ética da própria instituição em que tais entes atuam, colocando o interesse público em primeiro lugar, pois legalidade não é, necessariamente, sinônimo de honestidade (MEIRELLES, 2012, p. 90). Portanto, além de restringir suas ações conforme o que prevê a lei, também é necessário que a Administração Pública paute seus atos nos valores morais da própria instituição.
O princípio da moralidade é tão relevante que a Constituição Federal de 1988, no artigo 5º, inciso LXXIII, determina como um dos fundamentos de ação popular aquele que implica ofensa à moralidade administrativa:
qualquer cidadão é parte legítima para propor ação popular que vise a anular ato lesivo ao patrimônio público ou de entidade de que o Estado participe, à moralidade administrativa, ao meio ambiente, ao patrimônio histórico e cultural, ficando o autor, salvo má-fé, isento de custas judiciais e do ônus da sucumbência. (BRASIL, 1988, grifo nosso)
A intenção do legislador constituinte, ao fazer a previsão de ajuizamento de ação popular com fundamento na moralidade administrativa, certamente foi a de ressaltar que a Administração Pública terá anulada, por decisão do Poder Judiciário, a atuação que não se respaldar em tal princípio.
4.2.4 Princípio da publicidade
O princípio da publicidade se aplica porque o Poder Público, em virtude de sua atuação ser voltada aos interesses do povo, deve agir com a maior transparência possível. Assim, os administrados podem ter amplo acesso a tudo o que a Administração Pública está fazendo, além de saber como são praticados os atos administrativos.
A publicidade é um requisito de eficácia e moralidade dos atos administrativos. Apenas as informações da administração pública relativas à segurança da sociedade e do Estado não precisam ser publicadas, conforme determinado no artigo 5º, inciso XXXIII, da Constituição Federal:
todos têm direito a receber dos órgãos públicos informações de seu interesse particular, ou de interesse coletivo ou geral, que serão prestadas no prazo da lei, sob pena de responsabilidade, ressalvadas aquelas cujo sigilo seja imprescindível à segurança da sociedade e do Estado.
(BRASIL, 1988)
A publicidade dos atos administrativos ocorre por meio de sua divulgação na imprensa oficial ou em jornais de grande circulação, bem como de editais afixados nos locais de divulgação de atos públicos, para conhecimento do público em geral.
O respeito ao princípio da publicidade é importante porque possibilita o controle, pela população ou mesmo por órgãos da Administração Pública, das ações praticadas pelo Poder Público.
4.2.5 Princípio da eficiência
O princípio da eficiência é a mais recente diretriz prevista na Constituição Federal, uma vez que foi adicionado a partir de 1998, depois da chamada Reforma Administrativa feita pela Emenda Constitucional n. 19.
Assim, de acordo com os ensinamentos de Di Pietro (2015, p. 117):
o princípio apresenta-se sob dois aspectos, podendo tanto ser considerado sob a forma de atuação do agente público, do qual se espera o melhor desempenho possível de suas atuações e atribuições, para lograr os melhores resultados, como também ao modo racional de se organizar, estruturar, disciplinar a administração pública, e também com o intuito de alcance de resultados na prestação de serviços públicos.
Portanto, tal princípio está voltado à capacidade de boa gestão no serviço público, sem se afastar do princípio da legalidade, o qual é extremamente relevante na aplicação de todos os demais princípios.