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PROCESSO CRIATIVO

No documento Design bites (páginas 197-200)

NOTAS PRÉVIAS

4.3 PROCESSO CRIATIVO

O processo criativo apresenta-se com uma ordem e estrutura que, se- gundo Guntern, como referido em Tschimmel (2010), se forma por “au-

topoiese”,244 sendo por vezes caótico, irregular, e seguindo um caminho imprevisível, uma vez que existem muitos fatores que o podem influen- ciar. Ricard (2015) refere-se à criatividade como um impulso reflexivo e

imaginativo que surge das exigências da realidade, sendo o ato criativo motivado pela genética, o que leva o homem a descobrir alternativas capazes de superar a sua própria realidade quotidiana. No estudo de Tschimmel (2010), esta realidade representa uma resposta simples: “sem

criatividade nós não existiríamos, não haveria vida, nem humanidade, nem artefactos” (2010:191).

Segundo o modelo de Guntern citado por Tschimmel (2010), o caos e a

ordem influenciam-se e daqui resulta um processo que dá origem a uma nova forma/ideia/obra. Esta forma encontra-se no domínio da cultura material, onde o homem se situa, a qual, sendo positiva, faz parte da cul- tura e impulsionará a evolução, completando assim o processo criativo. Contudo, como refere Ricard (2015), não existe nenhuma forma meto-

dológica definitiva e absoluta que explique como se produz o momento

244 “‘Autopoiese’ significa algo como ‘auto-organização’: cada sistema pode ser caracterizado por uma operação bá- sica autorreferencial especial, através da qual ele reproduz as suas partes eféme- ras – e com isso a si mesmo” (Tschimmel, 2010:166).

criativo. “Não podemos ter a pretensão de explicar, racionalmente, para uma possível reedição, aquilo que fazemos intuitivamente e que só assim se pode cumprir na sua plenitude”245(Ricard, 2015:104).

Lerdahl (1998) citado em Tschimmel (2010) aborda o processo criativo en-

quanto movimento que atravessa o caos e a ordem, a divergência e a convergência, o estado transitório e a evolução. “O indivíduo que deseja uma mudança tem rapidamente a sensação de mal-estar, porque sente que existe mais do que a situação, a forma e o conhecimento presen- tes” (Tschimmel, 2010:195). Csikszentmihal (2004) e Ricard (2015) afirmam que

a criatividade, enquanto capacidade para a evolução cultural, resulta de um saber simbolicamente transmitido e organizado, um entendimento que, de acordo com Kant como citado em Ricard (2015), permite organi-

zar os recursos da sensibilidade.

Enquanto a evolução na natureza ocorre através de mutação, seleção e transmissão à próxima geração, a evolução cultural ocorre paralela- mente através de pensamento criativo, enquanto perceção de uma nova combinação, escolhida pelo painel de especialistas e integração no do- mínio cultural (Tschimmel, 2010:196).

Este pensamento criativo atua, então, em dois níveis: a inspiração e a reflexão (Ricard, 2015). “A intuição sugere, imagina; a razão examina e valo-

riza”246(Ricard, 2015:105).

Deste modo, segundo Guntern citado em Tschimmel (2010), Tschimmel (2010), Csikszentmihal (2004) e Ricard (2015), o processo criativo é carac-

terizado pela interação entre caos e ordem, para que surja algo novo. “O processo criativo é, pois, tudo menos linear; pelo contrário, é sobretu- do reticulado, recursivo e potencia-se a si próprio” (Tschimmel, 2010:196). O

processo criativo compreende inúmeros fatores que a seguir se descrevem. Em 1926, Wallas propôs um dos primeiros modelos de criatividade, no qual subdividia o pensamento criativo em quatro fases: 1.ª - preparação; 2.ª - incubação; 3.ª - iluminação e 4.ª - verificação.

245TLA: “No podemos tener la preten- sión de explicar, racionalmente, para su posible reedición, aquello que hacemos intuitivamente y que sólo así puede cum- plirse en plenitud.”

246TLA: “la intuición sugiere, imagina; la razón examina y valora.”

A preparação envolve uma análise preliminar de um problema, confi- gurando-o. A preparação envolve um trabalho consciente e baseia-se na educação, habilidades analíticas e conhecimento relevante para o problema. Segue-se a fase de incubação. Durante a incubação, não há trabalho mental consciente sobre o problema. Uma pessoa pode estar a trabalhar conscientemente noutros problemas, ou simples- mente a relaxar, fazendo uma pausa. Inconscientemente, no entan- to, a mente continua a trabalhar no problema, formando associações encadeadas. Acredita-se que muitas associações ou combinações de ideias ocorram durante a incubação. A mente inconsciente rejeita a maioria dessas combinações como inúteis, mas ocasionalmente en- contra uma ideia promissora. (...) Uma terceira fase, chamada ilumi- nação, pode ser caracterizada como “flash”, um esclarecimento súbi- to. Wallas sugeriu que a iluminação é frequentemente conduzida por um sentimento intuitivo de que uma ideia está a surgir. (...) A fase de iluminação é supostamente delicada, facilmente perturbada por in- terrupções externas ou tentativas de apressar a ideia emergente. Após a iluminação, há uma fase de trabalho consciente, chamado verifica- ção, que envolve avaliar, refinar e desenvolver a ideia. Wallas (1926) observou que, durante a resolução criativa de problemas, uma pes- soa poderia retornar a fases anteriores do processo247(Lubart, 2001:298).

FIG. 36 – Esquema adaptado de Ricard (2015). Fonte: Ricard, 2015. INFORMAÇÃO ESPECÍFICA

MEMÓRIAS ESQUECIDAS

EDUCAÇÃO

PERCEÇÃO NÃO SIGNIFICATIVA EXPERIÊNCIA INSTINTO ANALOGIA INTUIÇÃO PROCESSO CRIATIVO

247 TLA: “Preparation involves a pre- liminary analysis of a problem, defining and setting up the problem. Preparation involves conscious work and draws on one’s education, analytical skills, and problem-relevant knowledge. The incu- bation phase follows. During incubation, there is no conscious mental work on the problem. A person may be working con- sciously on other problems or simply re- laxing, taking a break from the problem. Unconsciously, however, the mind con- tinues to work on the problem, forming trains of associations. Many associations or idea combinations are believed to oc- cur during incubation. The unconscious mind rejects most of these combinations as useless but occasionally finds a prom- ising idea. (...) A third phase, called illu- mination, occurs when the promising idea breaks through to conscious awareness. Illumination can be characterized by a “flash”, a sudden enlightenment.Wallas suggested that illumination is often pro- ceeded by an intuitive feeling that an idea is coming. (...) The illumination phase is hypothesized to be somewhat delicate, easily disturbed by outside interruptions or trying to rush the emerging idea. Fol- lowing the illumination, there is a phase of conscious work called verification, which involves evaluating, refining, and developing one’s idea. Wallas (1926) not- ed that during creative problem solving a person could return to earlier phases in the process.”

Nesta perspetiva, segundo Lubart (2001), Parreira (2014)e Tschimmel (2010),

embora a última autora ainda se refira aos modelos de Wirz (1970), Baxter (2000)e ao modelo de Guntern como mais completos, o processo criati-

vo leva-nos a um resultado no qual está envolvido o sujeito criativo, o contexto onde se insere e o objeto como resultado. Como refere Lubart

(2001), este processo consiste na “sequência de pensamentos e ações que

leva a uma produção inovadora e adaptativa”.248 Nos anos 50 do século xx, Guildford considerou que a análise de Wallas (1926) e o seu modelo de

quatro fases era superficial, porque não considerava adequadamente as operações mentais que ocorrem durante o processo. Sobre a evolução e desenvolvimento dos processos criativos consultem-se os estudos das au- toras (Tschimmel, 2010; Parreira, 2014).

No documento Design bites (páginas 197-200)