O modelo de justiça em vigor não surgiu de maneira isolada do contexto histórico. As características violentas do Sistema de Justiça, essencialmente fundado na retribuição e nos castigos, são coerentes com um modelo civilizatório ancestral fundado na cultura de guerra. Em contrapartida, a Justiça Restaurativa se fundamenta na cultura da paz, cujos valores se baseiam principalmente no diálogo, respeito, perdão e reconciliação.
O perdão e a reconciliação ocupam lugar central em todas as grandes e importantes teorias religiosas, filosóficas, éticas, psicológicas. A cultura de perdoar é clara, universal e tão velha quanto a humanidade. O citado abaixo ilustra bem o que é o amor ao próximo.
Com fundamento em que a alma de um infiel ou descrente sofre por estar separada do verdadeiro Deus, pois que o inferno a ameaça, têm os crentes cristãos, feito tentativas de conversão, no exercício do seu dever de amor do próximo – mesmo com o emprego da força.
Imediatamente ocorre entender o preceito do amor do próximo no sentido de que ele exige que prestemos ajuda a todo aquele que – com culpa ou sem ela – subjetivamente sofre ou se encontra necessitado. Neste caso, ele não pressupõe na sua aplicação qualquer espécie de ordem social e assim se distingue das outras normas de justiça. Isso, porém, não é razão para firmar que o preceito do amor do próximo não constitui sequer uma norma de justiça, como por vezes se faz (KELSEN ,1963, p. 59).
O mais famoso testemunho dos nossos tempos foi sem dúvida de Mahatma Gandhi, que, apesar de não ser cristão, através da sua vida e de seus ensinamentos de não violência, de perdão e reconciliação mostrou à humanidade que é possível perdoar e viver em paz. O lema de Gandhi "o amor é a força mais abstrata, e também a mais potente, que há no mundo" (<http://www.culturabrasil.pro.br/gandhi.htm>). Segundo ele, todavia, "a nossa natureza está inclinada a ver só o mal do adversário, a atribuir-lhe sempre o mal, e mesmo o mal que nem existe. O mal que vemos nele depende quase sempre do nosso modo apressado e mesquinho de ver o homem" (<http://www.culturabrasil.pro.br/gandhi.htm>)
Os cristãos, por excelência, deveriam também perdoar, seguindo o ensinamento bíblico do evangelho de Mateus (Mt 18,22), em que o perdão deve acontecer não apenas sete vezes, mas setenta vezes sete, ou seja, sempre.
A Bíblia, o livro mais lido no mundo, está repleta de textos que ensinam a prática do perdão, como por exemplo, a parábola do Filho Pródigo no Novo Testamento, ou também intitulada como ‘Pai misericordioso’. Este é um dos textos mais marcantes no ensinamento cristão de como deveria ser o perdão. Outro exemplo está na carta do apóstolo Paulo à comunidade que vivia em Roma, quando ele ressalta que a perseguição e a vingança não são o caminho do cristão, mas o contrário:
Abençoem os que perseguem vocês; abençoem e não amaldiçoem. Alegrem-se com os que se alegrem, e chorem com os que choram. Vivam em harmonia uns com os outros. Não se deixem levar pela mania de grandeza, mas se afeiçoem as coisas modestas. Não se consideram sábios. Não paguem a ninguém o mal com o mal; a preocupação de vocês seja fazer o bem a todos os homens (Rm 12,14-18).
A ordem cristã é bem clara: é preciso perdoar e não pagar o mal com o mal. O perdão é o exercício mais importante e ao mesmo tempo o mais difícil para o ser humano.
O professor e teólogo Willian A. Meninger (2006, p. 69) descreve em seu livro "O processo do perdão" que para alcançar o estado da paz em um processo restaurativo o ser humano passa por cinco estágios: a) o primeiro é o de assumir a ferida recebida, ou seja, a violência sofrida; b) no segundo estágio, a pessoa busca uma explicação sobre o acontecimento violento, e procura a razão e se uma parte da culpa encontra-se em si mesmo; c) no terceiro estágio, a pessoa descobre, segundo Meninger (2006, p. 70), o seu ser vítima: “Pessoas neste estágio tornam-se caminhantes feridos. Elas perdem sua individualidade e sua personalidade para se identificar com seus ferimentos. Vêm-se somente em função de sua dor e feridas”. Comenta Peter Berger a situação de isolamento social em função da privação de liberdade pela coerção:
[...] A sociedade, como fato objetivo e externo, manifesta-se sobretudo na forma de coerção. Suas instituições moldam nossas ações e até mesmo nossas expectativas. Recompensam-se na medida em que nos ativermos a nossos papéis. Se saímos fora desses papéis, a sociedade dispõe de um número quase infinito de meios de controle e coerção. As sanções da sociedade são capazes, a todo momento da existência, de nos isolar entre os outros homens, expor-nos ao ridículo, privar-nos de nosso sustento e de nossa liberdade e, em último recurso, privar-nos da própria vida. A lei e a moralidade da sociedade e podem apresentar complexas justificativas para cada uma dessas sanções, e a maioria de nossos concidadãos aprovará que sejam usadas contra nós como castigo por nosso desvio (BERGER, 1986, p.105).
Para muitas pessoas é nestes primeiros estágios que nasce o desejo de vingança. "O estágio de vítima é um grito por ajuda. É um apelo por compreensão, conforto e consolo, mas singularmente disfarçado" (MENINGER, 2006, p. 70). Muitas vítimas no Brasil não recebem a devida atenção, já que o ordenamento jurídico praticamente exclui a vítima do processo criminal. Este estágio de carência gera, consequentemente, uma insatisfação que se projeta no grito pela justiça, ou melhor, no desejo de vingança. Assim, a pessoa chega ao quarto estágio, sentindo uma imensa ira. Muitas pessoas estacionam nesta fase, onde a dor e a mágoa são tão fortes que eles perdem a serenidade, dando lugar à vingança e ao ódio.
No lugar da autocompaixão, agora colocamos o ultraje. Podemos usar isso construtivamente, se escolhermos. Ele não precisa ser destrutivo. Se escolhermos direcionar essa energia para a vingança, ela destruirá nossos ofensores e nós mesmos. Se a direcionarmos para objetivos positivos, ela será decisiva para mover-nos para a integridade (MENINGER, 2006, p. 74). Esse é o momento mais decisivo para a prática da Justiça Restaurativa: acolher os sentimentos de ira e escolher a vida e não a vingança. Cabe aos mediadores da Justiça Restaurativa acompanhar especialmente a vítima nesta fase para que ela possa vivenciar essas emoções com serenidade e maturidade. Assim é possível que a paz se restaure. A paz é mais do que uma simples conciliação ou um acordo celebrado entre as partes.
Infelizmente o nosso ordenamento jurídico não está cumprindo com a devida atenção para a pessoa da vítima. A ausência do Estado fomenta ainda mais a ira sobre a dor sofrida, o sentimento de injustiça e impotência, gerando vingança.
A autora Petra Silvia Pfaller, membro da Pastoral Carcerária, em seu artigo intitulado Direito Penal e a Prática do Perdão: a Justiça Restaurativa, toma como base os ensinamentos de Meninger, e assim comenta o quinto estágio citado pelo autor em discussão:
Quem sente de fato essa fome de vingança é a vítima. Por isso, é necessário um trabalho pessoal, pois, quem vive o estágio da ira com serenidade, um sentimento humano e normal, sabendo lidar com ela e direcionando suas energias numa direção construtiva, chega ao quinto estágio a etapa final do processo de perdão, que segundo o teólogo Meninger é a fase da integração pessoal. "Em cada estágio, há o perigo de estacionar. Algumas vezes, uma pessoa leva anos, ou mesmo uma vida inteira, em um dos primeiros quatro passos, e até retrocede ocasionalmente para um ou outro." Por isso, a Justiça Restaurativa não deve seguir somente um ordenamento jurídico rígido, estabelecendo prazos e regras objetivas. É um processo que leva em consideração a personalidade do
ofensor, da vítima e todo contexto social em que ambos vivem (PFALLER, 2011, s/p).
Logo, é possível dizer que tanto a visão quanto a prática da Justiça Restaurativa são formadas por diversos valores fundamentais que a distinguem de outras abordagens mais adversas da justiça para a resolução de conflitos. Os mais importantes desses valores incluem a participação das pessoas que são afetadas diretamente ou indiretamente pelo conflito; ao respeito mútuo em que todos os seres humanos têm valor igual e inerente, independente de suas ações, sua raça, cultura, gênero, orientação sexual; a fala honesta é essencial para se fazer justiça, ela requer que as pessoas falem abertamente e honestamente sobre sua experiência relativa à transgressão, a seus sentimentos e responsabilidades morais; uma postura de humildade.
Todas as pessoas devem ser consideradas seres humanos com limitações. Há interconexão entre o indivíduo e a comunidade em que vive, entre a vítima e o agressor, pois ambos são membros da mesma sociedade. Embora, cada dano causado traga uma responsabilidade do ofensor para reparar o dano como obrigação moral, o empoderamento, já que todo ser humano requer um grau de autodeterminação e autonomia em sua vida, e ainda a esperança, não importa quão intenso tenha sido o delito, é sempre possível para a comunidade que haja reconciliação.
A evolução deste processo de reconstrução perdão/reconciliação do modelo de regulação social, segundo Bonafé-Schmitt, indica que o momento é de transição de “[...] um modelo repressivo para um modelo mais consensual de gestão dos conflitos [...]”, “[...] de uma modalidade conflitual e sancionatória para uma modalidade consensual e restaurativa” (BONAFÉ-SCHMITT, 1997, p. 21 e 25). Esta transição pode ser percorrida com a mediação, desde que valorizada em seu aspecto comunicativo-relacional, o qual põe em relevo o objetivo de construir novas relações entre os indivíduos e entre estes e o ordenamento jurídico e restituir às partes o poder de gerir os próprios conflitos.
O paradigma restaurativo propõe uma abordagem holística e relacional do conflito que cerca o fato delituoso, numa concepção ressignificada e ampliada de justiça, firmado na busca da fraternidade, através do diálogo, do perdão, e da conciliação.
2.5 JUSTIÇA RESTAURATIVA: TERMINOLOGIA, CRONOLOGIA E