Diagrama 1: Esquema do Modelo Organon
2.4. Processo de tradução
Atualmente, a área da tradução é vista como uma “prática culturalmente incontornável como ato de comunicação” (PINHO, 2011), no entanto, não deve nem pode ser encarada como um ato de comunicação isolado dos outros atos de comunicação que existem.
32 O processo de tradução, segundo Nida (1964), pode ser dividido em duas categorias: técnico e organizacional, sendo que a primeira é a que mais interessa a este trabalho. O processo técnico baseia-se na passagem de um texto da língua de partida para um texto na língua de chegada, enquanto o processo organizacional envolve a organização do processo técnico que um tradutor realiza. O processo técnico da tradução pode ainda ser dividido em três fases, isto é, análise das respetivas línguas (partida e de chegada), estudo do texto da língua de partida e determinação dos equivalentes (NIDA, 1964). Ao presente ponto, a fase mais importante, diz respeito à análise das línguas fonte e alvo do processo técnico.
De modo a que o processo de tradução seja facilitado, o tradutor deve ser fluente tanto na língua de partida como na língua de chegada, se possível bilingue (NIDA, 1964), mas são raros os casos em que isto acontece.
Relativamente ao processo de tradução, este tem, portanto, o propósito de criar textos na língua de chegada que transmitam a mesma mensagem que os textos na língua de partida. Assim, na tradução de línguas de especialidade, esta criação de textos, também inclui o entendimento, a estruturação e a especificação de correspondências entre as unidades de conhecimento especializado nas diferentes línguas (FABER & GÓMEZ- MONTERO, 2012). No centro da discussão sobre a tradução reside a questão sobre se a tradução deve ser realizada por meio da correspondência ou da equivalência.
A equivalência decorre do significado conceptual que é partilhado, sob a forma de correspondência interlinguística e intertextual, que é o principal objetivo que o tradutor possui quando exerce a sua atividade profissional (FABER & GÓMEZ-MONTERO, 2012). Segundo Catford (1965), a equivalência textual pode também ser considerada como qualquer forma de texto da língua alvo que é direcionada para ser equivalente de uma determinada forma de texto da língua fonte. Quando se faz referência a “equivalência” é no sentido em que é necessário um conjunto de formalidades que uma tradução deve reunir enquanto conexão de correspondência entre palavras ou expressões entre duas línguas que são diferentes (ROBINSON, 1997).
Assim, a tradução por equivalência pode opor-se à tradução literal uma vez que existem termos que são transportados de uma língua para a outra por meio da equivalência, por meio dos quais a tradução se torna equivalente à língua de partida, por outro lado, a equivalência também dá lugar às metáforas e a outro tipo de expressões
33 idiomáticas, dado que a tradução literal ou palavra-a-palavra poderá revelar-se como uma tradução pouco fiel em relação ao original, assim, o mais aconselhável é adequar ou adaptar essas expressões à língua de partida.
Para que o processo de equivalência entre os dois textos, o de partida e o de chegada, seja o mais adequado, é necessário, tal como já foi referido, que o tradutor seja fluente em ambas as línguas de trabalho e, assim sendo, deve comportar-se como emissor e recetor tanto do texto de partida como do texto de chegada e colocar-se muitas vezes no papel do público-alvo.
2.4.1. Emissor
O processo de tradução, tal como aludido por Faber & Gómez-Moreno (2012), é constituído por dois emissores textuais, o da língua de partida e o da língua de chegada. Estes dois emissores, no entanto, confluem numa pessoa apenas, o tradutor. O emissor do texto da língua de partida ajusta o teor textual de acordo com as expectativas de um determinado grupo de recetores e também ajusta os objetivos de comunicação que pretende obter com a mensagem que transmite. As opiniões em relação à forma como o conhecimento do texto são partilhadas influenciam a escolha das formas linguísticas que foram selecionadas para transmitir a mensagem do texto. Na comunicação especializada, os emissores do texto da língua de partida são especialistas no campo do conhecimento técnico, sendo que, para tal, têm que possuir um grande domínio da terminologia do texto que estão a transmitir.
Em conformidade com os mesmos autores, o uso de termos mais ou menos especializados, que se centram num determinado conceito, refletem o grupo para o qual se destina a mensagem do texto, sendo que, para tal, é importante refletir sobre o género de texto, assim como sobre as construções que, por vezes, tornam o texto impessoal (tal como os textos técnicos e científicos), para já não falar das macroestruturas textuais que fazem parte da língua de chegada.
2.4.2. Recetor
A tradução enquanto processo linguístico é constituída por dois emissores, isto é, o emissor do texto original e o emissor do texto de chegada e, consequentemente, a tradução
34 também é constituída por dois recetores, o recetor do texto da língua de partida e o recetor do texto da língua de chegada. Um dos principais recetores do texto da língua de chegada é o tradutor enquanto profissional, mas também na qualidade de leitor. No entanto, o texto da língua de partida não foi redigido única e exclusivamente para o tradutor, mas sim para outros destinatários ou públicos-alvo da língua de chegada. Por outro lado, os recetores do texto na língua de chegada têm o seu papel facilitado, uma vez que o tradutor tem por missão tornar o texto mais acessível para que os leitores consigam compreender o significado do texto original (FABER & GÓMEZ-MORENO, 2012).
2.4.3. Tradutor como emissor / recetor dos textos de chegada
O tradutor, enquanto comunicador e principal responsável no processo de tradução, dirige-se a um determinado público-alvo e, como tal, é seu dever cumprir a função informativa necessária (GUTT, 1989). O tradutor é também considerado como um intermediário fundamental que deve ser reconhecido pelo seu trabalho como emissor e recetor dos textos de partida e de chegada. Também deve ser reconhecido nessa comunicação como o elo de ligação entre o autor do texto original e o público do texto de chegada. Assim, o tradutor deve optar pela melhor tradução, ou seja, “aquela que melhor se adequa ao contexto de comunicação” (TEIXEIRA & OSÓRIO, 2009).
Tal como abordado anteriormente, idealmente, o tradutor deveria ser bilingue nas línguas a ser trabalhadas ou deveria traduzir para a sua língua materna. No entanto, este perfil do tradutor ideal raramente se verifica (NIDA, 1964). Contudo, continua a ser fundamental que o tradutor possua um amplo conhecimento extralinguístico da língua e cultura de partida (TEIXEIRA & OSÓRIO, 2009).
No processo de tradução, o tradutor tem duas funções, a de emissor e de recetor do texto da língua de partida, bem como a de emissor e de recetor do texto da língua de chegada (FABER & GÓMEZ-MORENO, 2012), pelo que, e como já foi referido, deve ter competências linguísticas múltiplas (NIDA, 1964).
Deste modo, o tradutor enquanto emissor/recetor do texto de chegada não se deve sobrepor ao texto, de modo a que os recetores da língua de chegada nem se apercebam que se trata de um texto traduzido, mas sim de um original. No entanto, este é um processo
35 difícil de realizar, uma vez que o tradutor é dotado de crenças e suposições, o que poderá dificultar a compreensão para os recetores de uma língua e cultura diferentes.
Tendo em conta as dificuldades de tradução por parte do tradutor no processo de tradução, é possível concluir que um dos principais problemas inerentes a este processo é a terminologia utilizada na língua de partida que codifica o texto e conhecimento a uma determinada área de especialidade.
O texto na língua de partida foi redigido para um grupo de recetores da língua de chegada que, à partida, tem que ter o mesmo nível de especialização dos emissores do texto da língua de partida, deste modo, o tradutor deve ser capaz de reconhecer a quem se destina o texto original e, desta forma, criar uma espécie de perfil de leitor que corresponde aos recetores tanto da língua fonte como da língua alvo. Este perfil deve ser desenvolvido tendo por base os conceitos de especialização dos domínios de conhecimento, uma vez que nem sempre o tradutor é mestre num determinado domínio (FABER & GÓMEZ-MORENO, 2012; MIRA, 2013).
No entanto, mesmo que um tradutor não seja especialista numa determinada área deve desenvolver capacidades para entender qual o verdadeiro valor da mensagem para o público-alvo. Assim, também deve ser capaz de resolver os problemas que possam sugerir quando a mensagem é transferida para o novo contexto linguístico e cultural, ou seja, deve ser capaz de encontrar a melhor solução para as dificuldades de compreensão que podem sugerir (FABER & GÓMEZ-MORENO, 2012).
Em questões mais práticas, para que o processo de tradução seja bem-sucedido deve assentar em alguns princípios descritos por Pacte (2003) apud Faber & Gómez-Moreno (2012), com destaque para:
domínio de ambas as línguas de trabalho;
(desenvolvimento) de competências extralinguísticas que estão ligadas aos recetores do texto;
destreza profissional, tanto nos conceitos especializados como dos instrumentos de apoio.
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