de Bernd Löbach
3.1.5
Ao abordar a metodologia para design de produtos em sua obra Design Industrial – Bases para configuração de produtos industriais, Bernd Löbach prefere usar o termo “processo de design”, sugerindo talvez um olhar mais generalista para o design.
Löbach coloca o designer como ator importante no processo ao atribuir-lhe o ponto de partida de todo o processo, relativizando a importância do usuário do produto final ao impor-lhe apenas a função de avaliador do processo. (LÖBACH, 2001, p. 139) Além disso o autor deixa clara a importância da capacidade intelectual do designer associada a sua criati- vidade e que o designer que se destaca é aquele que articula bem as informações recolhidas no momento da criação.
[...] é da maior importância, para alcançar a solução de um problema, reunir e analisar todas as informações disponíveis. Quanto mais ampla for a abordagem do problema, mais aumentam as combinações possíveis entre as diversas variáveis e maior a probabilidade de se chegar a soluções novas. (LÖBACH, 2001, p. 140)
Mesmo colocando a fase analítica como ponto de partida fundamental para o projeto, um ponto interessante da abordagem de Löbach é o destaque para a fase criativa em que o designer deve se libertar das “restrições e soluções formais” e ser espontâneo – ele coloca a espontaneidade como uma das condições para a inventividade. (LÖBACH, 2001, p. 140). Essa visão do designer de mente liberta para explorar “coisas desconhecidas” pode ser comparada aos métodos de JONES (1992, p. 46) onde o designer funciona como Caixa Preta, e leva em
conta além da boa recolha de informações sobre o problema a experiência do próprio de- signer. Porém mesmo com essa visão, Löbach deixa claro que o processo de design é “tanto um processo criativo como um processo de solução de problemas” (2001, p. 141), o que pressupõe uma metodologia projetual que o autor esboça da seguinte maneira:
• Existe um problema que pode ser bem defi nido;
• Reúnem-se informações sobre o problema, que são analisadas e relacionadas criati-
vamente entre si;
• Criam-se alternativas de soluções para o problema, que são julgadas segundo critérios
estabelecidos;
• Desenvolve-se a alternativa mais adequada (por exemplo, transforma-se em produto).
Esse esboço é desenvolvido em um processo com quatro fases distintas mas que o autor deixa claro que na sua aplicação ao projeto elas se entrelaçam e se sobrepõem. A divisão desse processo, segundo o autor serve apenas como fi m didático.
Apesar de conseguirmos estabelecer facilmente a tríade análise-síntese-avaliação no pro- cesso de Löbach (fi g. 14), o autor deixa claro nos títulos que todas as fases são “criativas”, o que nos leva a concluir que em todas as fases existem processos caixa-preta em que o designer deve decidir/discernir usando sua intuitividade e experiência como designer. A abordagem do autor às fases de sua metodologia é bem pragmática, levando muito em conta os fatores industriais e de mercado, como pode ser observado nos processos da fase de análise na fi gura 14. LÖBACH também destaca a posição do designer nesse cenário in- dustrial, onde há pouco espaço para que ele problematize o projeto, sugerindo que boa parte das análises e pesquisas esse designer receberá pronta e sua função resume-se então a “propor a solução em forma de produto”. (LÖBACH, 2001, p. 143)
Para a defi nição do problema e dos objetivos, o autor propõe um método baseado/derivado do processo proposto por Alexander (1973), com a defi nição de uma lista de requisitos e o estudo das inter-relações entre eles, conforme a fi gura 16.
Segundo a metodologia de LÖBACH, após a recolha de dados e sua análise, estabelece-se a lista de requisitos (fi gura 15), a partir da qual todos os participantes do projeto devem chegar a um consenso sobre a problemática apresentada. Com isso pode-se formular a lista de inter-relações entre esses requisitos (fi gura 16). Esse processo deve ocorrer em paralelo à defi nição de objetivos e dão início ao processo criativo. Se anteriormente Löbach critica os processos industriais atuais em que o designer tem pouca infl uência na problematiza-
Fig. 14
Fonte: adaptação do gráfi co existente em LÖBACH (2001, p. 142)
1.
Fase da
preparação
2.
Fase da
geração
3.
Fase da
avaliação
4.
Fase da
realização
avaliação
síntese
análise
processo criativo processo de solução do problema processo de design Análise do problema Conhecimento do problema Coleta de informações Análise das informações Definição do problema, clarificação, definição dos objetivosAlternativas do problema
Escolha dos métodos de solucionar problemas, produção de ideias, geração de alternativas Avaliação das alternativas do problema
Exame das alternativas, processo de seleção Processo de avaliação Realização da solução do problema Nova avaliação da solução
• Análise do problema de design • Análise da necessidade
• Análise da relação social (homem-produto) • Análise da relação com o ambiente
(produto-ambiente) • Desenvolvimento histórico • Análise do mercado
• Análise da função (funções práticas) • Análise estrutural (estrutura de construção) • Análise de configuração (funções estéticas) • Análise de materiais e processos de
fabricação
• Patentes. legislação e normas • Análise de sistema de produtos
• Distribuição, montagem, serviço a clientes, manutenção
• Descrição das características do novo produto
• Exigências para com o novo produto • Alternativas de design
• Conceitos de design • Alternativas de solução • Esboço de ideias • Modelos
• Avaliação das alternativas de design • Escolha da melhor solução • Incorporação das características
ao novo produto
• Solução de design • Projeto mecânico • Projeto estrutural • Configuração dos detalhes
(raios, elementos de manejo etc.) • Desenvolvimento de modelos • Desenhos técnicos, desenhos
de representação
• Documentação do projeto, relatórios
ção do projeto, no momento em que esmiúça seus métodos ele o coloca como peça chave nesse processo.
Na fase seguinte, de geração de alternativas, Löbach postula que o designer deve traba- lhar “livremente, sem restrições, para gerar a maior quantidade possível de alternativas” (LÖBACH, 2001, p. 150), mas discrimina o modo de trabalhar dos artistas (aleatório) e dos designers (estruturada e baseada em métodos). Podemos aqui considerar ingênua a maneira
Fig. 15
Lista de requisitos de projeto. Fonte: LÖBACH, 2001, p.148.
Fig. 16
Inter-relações entre os requisitos de projeto. Fonte: LÖBACH, 2001, p. 149.
de enxergar o trabalho artístico dessa maneira ou como um apoio ao pragmatismo com o qual Löbach aborda o design industrial.
Porém, mesmo com essa visão mais objetiva, Löbach parece deixar claro que o processo de geração de alternativas de design é um processo do tipo caixa-preta:
Muitas vezes, isto é difícil para o designer industrial já que a análise do problema levou na maioria das vezes muito tempo e parece sem sentido durante a fase criativa “esquecer” todos
os conhecimentos acumulados. A preocupação intensa demais com os fatores restritivos inibe o processo da produção de ideias. [...] A técnica desta fase é a associação livre de ideias [...] Este processo pode ser provocado de novo, após um intervalo, mediante retroalimentação com o material analítico. [...] Nos intervalos de descanso, a mente continua a processar o problema de forma inconsciente, também chamada de incubação. (LÖBACH, 2001, p. 153)
A fase de avaliação do autor é complexa e englobaria a avaliação das alternativas de design, a realização do projeto e uma nova avaliação do mesmo. Para as avaliações, critérios de- vem ser adotados e fi xados para que a escolha e avaliação seja feita de maneira assertiva. A diferença seria na materialização das ideias, que no primeiro caso seriam por meio de desenhos e modelos e no segundo caso pelo projeto industrial com “um modelo visual e todos os desenhos necessários e textos explicativos” (LÖBACH, 2001, p. 155) e um protótipo cabeça de série.
O pragmatismo da metodologia proposta por Löbach, pode ser encarada como uma res- posta aos processos do design de produtos (industriais) onde as condições impostas para a produção em série demandam conhecimentos técnico-industriais sofi sticados que impõem restrições que não podem ser deixadas para trás. Essa característica limita a aplicação de sua metodologia de maneira mais abrangente e em outras áreas do design.