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CAPÍTULO 4 – ANÁLISE DOS ELEMENTOS DE CRIATIVIDADE EMPREGADOS NA

4.2 Programa de número 170, exibido em 26/12/2011

Caracterizado por ser uma seleção dos melhores momentos do ano de 2011 do CQC (CQC - Custe o que custar, 2011), este programa possui diversas rubricas que nos chamaram atenção. Em uma matéria de cobertura esportiva, o repórter Felipe Andreoli entrevista torcedores que estão em um estádio e convence um dos entrevistados a rasgar o cartaz que pedia a um narrador esportivo, de outra emissora, para aparecer na televisão (Figura 34). Em troca, ele e os amigos iriam aparecer no programa CQC. Em um ato de ousadia o repórter afirma que aparecer no CQC “é muito mais legal”, uma clara provocação à emissora concorrente, já que, rasgar o cartaz é simbolicamente depreciar a importância que era dada a outra emissora.

Figura 34. Imagem do repórter convencendo torcedores a rasgar cartaz com logomarca de outra emissora.

O entrevistado aceita rasgar o cartaz e o repórter diz: “Chupa Galvão”, estabelecendo uma adequação de linguagem. Esse ato muda a representação fortalecendo a cobertura como um Produto Criativo, já que há uma descontextualização da proposta originada pelo próprio criador do cartaz, demonstrando a sensibilidade e ousadia da equipe em descobrir novas oportunidades de audiência a partir dessas narrativas paralelas. Neste caso, solucionou-se a questão da incerteza se os intervenientes iriam aparecer na televisão e se alterou a relação dos protagonistas para com a outra emissora, ao se propor uma resolução desse problema criado.

A cobertura do evento popular “Batalha das Laranjas”, na Itália, realizado por Rafael Cortez, nos chamou atenção pois estabelece-se uma mudança de relação com os protagonistas (repórter e entrevistado). Assim se observa uma construção de Processo Criativo em que o repórter se apresenta com uma indumentária inusitada, com macacão laranja e um capacete da mesma cor, trocando seu terno por uma fantasia que chama de “Laranjino”, um super Herói Brasileiro que teria como objetivo jogar laranjas nos integrantes que estavam no caminhão e no público (Figura 35).

Figura 35. Imagens do repórter sugestionando transformação para fantasia de “Laranjino”.

As cores parecem estabelecer uma relação simbólica com as laranjas, inclusive a associação de ideias estabelecida, já que o Brasil é um dos maiores produtores e exportadores do mundo de suco de laranja (Portal do Agronegócio, 2019).

Cabe destacar que o capacete estabelece relação com um problema previsto naquela situação, que era a ameaça de levar uma laranja no rosto. A Atitude Criativa pode ser filtrada em diversos momentos. À medida em que o repórter deixa de ser quem direciona a cobertura, passando a participar da brincadeira e dando lugar a um repórter do CQC Chile (que também está lá e assume por momentos o microfone em seu lugar, chamando as pessoas que estão ao redor para estrear o repórter e jogar laranja nele) cria-se uma situação duplamente inusitada para o público. Observa-se uma inversão de papéis quando o repórter passa a ser o protagonista da própria matéria (Figura 36) e o fato de trocar de função na cobertura com outro entrevistador cria uma mudança de representação, já que o repórter responsável não está mais no controle do tema, deixando a audiência insegura quanto ao seu desfecho. Esta estratégia agrega uma atratividade do Produto Criativo, pois a sociedade atual valoriza uma dinâmica de transformação impulsionada pelo novo, pelo que é fora do padrão; e, neste sentido, o CQC se torna uma opção bastante promissora com sua irreverência.

Figura 36. Imagem do repórter CQC assumindo o protagonismo da própria matéria enquanto um novo repórter assume a função.

O Processo Criativo que norteava a rubrica “Identidade Nacional” propunha algumas pegadinhas ideológicas, criando uma situação onde se esperava revelar traços de comportamento dos atores sociais envolvidos, a partir do emprego de câmeras e microfones escondidos em enquadramentos que poderiam revelar situações inusitadas; para isso, eram escolhidos ângulos e planos favoráveis à descoberta de problemas. Em um episódio, Danilo Gentili se passa por um cliente que pretende comprar um cachorro para comer. Essa proposta inusitada, gera indignação nos vendedores e/ou dono da loja, pois ressignifica uma construção social de cão amigo do homem. Isso é reforçado quando se faz uso de avaliação tangível sobre um dos cães, observando sua composição de carne ou volume, por exemplo.

Em outra situação selecionada por nós, Gentili simula estar fazendo sexo virtual com namorada em uma lan house. Para estimular a reação dos atores sociais envolvidos diante dos problemas previstos que são apresentados, Gentili satiriza a situação, exagerando seu comportamento no local. Em um momento ele desce a calça, dança e faz uma série de insinuações, como se estivesse provocando a mesma, explorando diversas possibilidades para estimular a reação de populares que se encontravam no local.

Em outra abordagem, ele se passa por “cego abusado”, fazendo compras de roupas íntimas para sua esposa. O Processo Criativo estimula a imaginação do público de como a situação vai se desenvolver, Gentili pede à atendente para apalpar seus seios, já que essa seria sua única referência para associar o volume ou tamanho do seio de sua esposa. Ao propor esse desafio de relação dos protagonistas no desenrolar de um problema previsto imposto no roteiro, constrói-se uma narrativa inusitada, onde não se sabe como deve terminar.

Ao se propor roteiros com uma proposta de infoentretenimento, às vezes pode-se cair no erro da “mistura” ou a associação de ideias acabar por reforçar alguns preconceitos, sendo esse, um grande desafio para qualquer tipo de proposta de humor hoje, principalmente se considerarmos que há muitas conquistas justas, em especial de minorias ou grupos que foram historicamente excluídos.

Em uma cobertura política com a Presidenta Dilma Rousseff, Monica Iozzi pretende alcançar um objetivo diferente dos demais membros da imprensa: se desvencilhar da equipe de seguranças e aproveitar a oportunidade de estar em um local propício ao desenvolvimento de uma narrativa paralela. O desenvolvimento desse Processo Criativo é favoravél, já que ela possui uma credencial de imprensa, facilitando a realização do objetivo inusitado: entregar um par de canetas de presente à presidenta (Figura 37).

Figura 37. Imagens do presente a ser entregue à Presidenta Dilma Rousselff. Em 37A vê-se a imagem de um par de canetas com inserção de videografismo (Made in Paraguay) e em 37B vê-se a imagem de um cartão que acompanha as canetas.

A equipe do CQC aproveitou a oportunidade e entregou a um dos assessores da presidenta, que, após receber, observa e chama a repórter para agradecer. Após conseguir se aproximar (Figura 38), a repórter diz para a presidenta não reparar a simplicidade do presente, pois ela ganha mal, evidenciando uma sátira direta a própria organização em que a repórter trabalha e trazendo, com isso, outro comportamento inusitado, já que não é comum um funcionário criticar a empresa em que desenvolve sua atividade profissional, num contexto público, onde seus superiores vão assistir.

Figura 38. Imagem da repórter levantando a Mão para chamar atenção da Presidenta.

Essa contraposição entre elementos da personalidade da repórter em detrimento de questões pertinentes à cobertura, é outra característica do CQC que ajuda a audiência a se projetar na situação da jornalista. Dessa forma, desperta-se o interesse em assistir o programa, já que a repórter, neste caso específico, está agindo com simplicidade na comunicação, conforme observamos no produto audiovisual; forma de atuação essa que poderia advir de qualquer pessoa comum, fora do cenário televisivo.

Ao retornar à bancada, Marcelo Tas agradece a participação da presidenta Dilma Rousseff e levanta uma perspectiva associacionista através de uma declaração da própria ao dizer que a caneta era “fina”, tanto no sentido de refinado e requintado, quanto em relação à espessura inferior, logo, com pouca quantidade de tinta. Marco Luque completa, de forma sarcástica, dizendo que, caso ela utilizasse a caneta para demitir Ministros, a tinta acabaria rapidamente.

Ainda na bancada, Mônica fala: “eu não aguento mais conviver com político. É uma coisa ruim que você vai pegando” e, através dessa sátira, consegue-se ridicularizar comportamentos desviantes dos líderes políticos ao revelar que adquiriu algumas manias por eles propagadas, como, por exemplo, colocar dinheiro na meia, na cueca, etc. O apresentador aproveita esse gancho e se mostra impressionado, já que cueca supostamente é uma roupa íntima de uso masculino, então Marco Luque e Marcelo Tas aproveitam esse deslize para fazer uma série de insinuações e associações de ideias com interpretação de duplo sentido com ela. Tas se levanta da cadeira e diz “mas eu fiquei muito excitado” sendo uma afirmação completamente ousada e inusitada em um contexto de apresentação de programa de TV.

Ainda na continuidade das provocações à Mônica, Tas se reporta a uma matéria realizada com o senador Suplicy, onde ele oferecia um alimento quente, perguntando: “como

foi a comida que o senador te deu?”. Mônica diz: “como deu para ver nas imagens, foi quente”. Aqui observamos ambos usando a associação de ideias com duplo sentido na composição da sátira, estabelecendo uma relação de palavras que supunha algo que não procede, sendo apenas figuras de linguagem.

Na rubrica “Documento da semana” verificamos diversas situações em que a construção do Processo Criativo levanta tabus ou pontos delicados. Abordar o sexo é sempre um desafio grande, principalmente para os veículos tradicionais de comunicação, onde há amplo público, sujeitos a críticas diversas. Quando pensamos o horário a ser exibido e a emissora, isso pode ser ainda mais limitado. Quebrar tabus e experienciar a ousadia parece ser uma interessante marca de criatividade, pois há um empenho em pensar diferente da média, conectando a imaginação a novas e ousadas possibilidades. Uma cobertura interessante feita por este programa CQC foi sobre um casal que posta vídeos íntimos na internet. A reportagem de Danilo Gentili utiliza uma handycam, revelando de maneira muito inusitada alguns momentos íntimos do casal, assumindo uma nova construção de sua atuação, agora em um papel de videomaker de filme pornô, Gentili saririza a situação, seja pela escolha de planos de filmagem, seja por direcionar momentos, falas e performances do casal. Na construção simbólica das situações de intimidade do casal, ele faz diversas associações de ideias de duplo sentido, estimulando, assim, a quebra de tabus por se falar explicitamente sobre o tema.

Estar aberto a refletir sobre as próprias escolhas, preconceitos e possíveis mudanças, é algo bastante positivo. Nesse sentido, observamos o Processo Criativo de uma rubrica em que Felipe Andreoli aborda a questão do preconceito para estimular a reflexão sobre estereótipos criados. Na proposta, um cidadão é abordado na rua e, a partir de uma breve observação visual de alguns atores sociais previamente selecionados, convida-o a julgar quem é: “folgado; quem não toma banho ou é sujo; quem é suspeito e quem não tem cultura”, somente em função da aparência. O repórter questiona se o entrevistado se julga preconceituoso e é a partir desse fio norteador que se desenvolve a matéria. Ao levar pessoas com características diferentes e permitir que os intervenientes expressem seus pensamentos em torno somente da imagem que observam,consegue-se estabelecer novas associações de ideias criadas pelo próprio entrevistado. Dessa forma, adota-se uma nova abordagem para levar a audiência a refletir sobre preconceitos e/ou pré-julgamentos em uma narrativa inusitada, onde um “popular” estabelece juízos de valor sobre outras pessoas a partir de referências visuais, associadas principalmente a elementos tangíveis, como roupas, cabelo, cor da pele, acessórios, etc,.

A rubrica “Proteste Já” selecionada neste episódio busca explicações dos responsáveis por uma construção que gerava problemas para moradores de uma região, no bairro Nova

Gameleira, em Belo horizonte. O Processo Criativo privilegiou uma escolha do conteúdo para desenvolvimento da narrativa que nos parece muito pertinente, já que tem amplo interesse público, sendo um conjunto de obras que atinge negativamente muitas pessoas e outras que poderiam ter problemas em razão da má prestação de serviços da empresa.

A partir de apuração na fase de pré-produção, a equipe chega até um local onde seria a sede de uma das empresas associadas ao problema. O repórter Oscar Filho questiona a relação da empresa subsidiária com a empresa identificada e pergunta sobre o paradeiro dos responsáveis e se o entrevistado os conhecia. Dentro do contexto de Atitude Criativa observamos a exploração de diversas possibilidades para concretizar a cobertura. A equipe não é bem recebida e, ao sinal de uma negativa do empresário em receber os membros do CQC para dialogar, a equipe persiste no propósito, estabelecendo uma inusitada solução para o problema da dificuldade de comunicação, ao providenciar um caminhão grua, que consegue deixar o repórter acima do nível da entrada. Neste processo, há a identificação de um problema previsto: ser visto mas não ser ouvido devido à distância; e a estipulação de uma solução: utilizar um megafone para ser ouvido (Figura 39).

Figura 39. Imagens do repórter Oscar Filho para chamar atenção do empresário.

Em uma exposição de bancada selecionada dentro dos melhores momentos do ano 2011, observamos alguns indicadores de Atitude Criativa na exposição de Marcelo Tas, que expressa

sua flexibilidade de pensamento, se sentindo à vontade para explorar uma situação de cunho pessoal e externalizar sua resposta ao deputado federal Jair Bolsonaro em relação a escolha da sexualidade, que foi tratada pelo deputado como promiscuidade. A comunicação verbal é consolidada com Tas apresentando a foto de sua filha, dizendo que ela é gay e que tem muito orgulho dela (Figura 40). Isso é expressado enquanto ele está olhando diretamente para câmera lateral que é utilizada para dar um ar de maior intimidade com os apresentadores e, neste caso, uma expressão de sentimentos relacionados a comunicação não-verbal em que um olhar profundo sobre a câmera insinua reprovação à fala anterior do deputado.

Figura 40. Imagem do apresentador Marcelo Tas mostrando a foto de sua filha para câmera

Em outro trecho, Rafael Cortez está junto aos outros apresentadores do CQC no palco e, se voltando para uma das câmeras laterais, que capta de maneira mais efetiva as manifestações mais expressivas ou de caráter pessoal, se dirige diretamente para câmera ao correspondente internacional Felipe Andreolie. Em tom desafiador e ao mesmo tempo irônico, ele comemora estar aparecendo em quatro dos cinco momentos selecionados do ano. Marco Luque emprega atitude questionante e sarcasmo diante do próprio contexto em que está inserido e diz: “ser correspondente internacional de um programa onde na bancada tem eu? Não é muita coisa não velho” (Figura 41).

Figura 41. Imagem de Rafael Cortez apontando o dedo para câmera e de Marco Luque falando diretamente para câmera lateral

Alguns aspectos de Atitude Critiva podem ser observados em outra proposta, em que o apresentador Faustão, da Rede Globo é entrevistado por Mônica Iozzi. A repórter emprega sarcasmo e afirma que já o viu mentir no programa apresentado por Faustão: “as vezes vai uma bandinha fubá em seu programa e vc diz: quem sabe faz ao vivo”. Faustão revida a capacidade crítica da repórter, puxando o microfone da mão dela e afirmando que, os artistas não recebem nem cachê, por isso ele não poderia dizer que é uma alternativa ruim. Interessante observar que é estabelecido, no início da interpelação com os entrevistados, uma espécie de acordo a se construir uma abordagem humorística seja através da comunicação verbal ou da não-verbal, deixando implícito ou explícito o tom que vai ser empregado na entrevista e, portanto, dando oportunidade ao entrevistado de agir de maneira recíproca e até surpreendente. O entrevistado menciona que não se pode dizer que as bandas ruins que vão em seu programa “são uma merda”, depois diz que não se pode pensar em roubar disco de ouro porque é de plástico. “Quando você fala: vendeu 20 milhões, lógico que é mentira pô”. O apresentador ainda menciona Hélio Vargas (diretor artístico da TV Bandeirantes) e diz que o programa CQC é melhor que o da Argentina, na versão original. Além da habilidade em se estabelecer esse acordo sobre o tom da entrevista desde o início, cabe destacar a capacidade expressiva da repórter, que se sente desinibida para questionar de forma muito direta este ponto bastante delicado e ainda, um apresentador de outra emissora.

A Atitude Criativa de Mônica Iozzi pode ser observada na cobertura da rubrica “Estrelas”, ao entrevistar o diretor Miguel Falabella da Rede Globo. No decorrer da sequência de perguntas, Iozzi instiga o entrevistado a lhe dar um beijo e é retribuida pelo ator durante a entrevista (Figura 42).

Figura 42. Imagem da repórter Monica Yozzi beijando Miguel Falabella

Aqui cabe o especial destaque para o “acordo” sobre o tom da abordagem que se estabelece no início da interlocução. Ainda neste sentido, podemos afirmar que é recorrente nos episódios, que os repórteres beijem alguns entrevistados e isso nos parece fazer parte de uma associação à fábula, onde o herói tem uma conquista por alcançar. O beijo não seria a única, nem a principal, mas uma das situações inusitadas, que causa um pouco de estranhamento na audiência, quando se compara ao padrão de entrevistas, e que, altera a representação e o padrão de atitude esperado pelo repórter. Acreditamos que no decorrer dos anos, foi-se entendendo a ousadia do formato e passou a ser uma marca forte do CQC. Após ganhar o beijo, que foi uma provocação feita por ela mesma, Mônica externaliza uma interpretação em que sua linguagem corporal e facial expressa falta de reação e estabelece contato visual com a câmera e/ou audiência em um olhar vago (Figura 43).

Figura 43. Imagem da repórter Monica Yozzi com olhar de decepção, e em seguida, com olhar vago para câmera

A seleção de material anual da rubrica “cobertura política” é definida como um momento do programa em que se cobra “ética, cidadania e trabalho”. Em um matéria, a repórter Mônica Iozzi está em Brasília, no centro administrativo do país, onde se localiza a

representação superior do Poder Executivo, Legislativo e Judiciário. O Processo Criativo se desdobra a partir de perguntas aos políticos, buscando identificar se os mesmos sabem em que local está sendo construída a Usina Hidrelétrica de Belo Monte, que, naquele momento representava uma grande obra de desenvolvimento nacional, mas que vinha com uma série de polêmicas, tais como autorizações ambientais ilícitas. Essa apuração nos parece inusitada, pois busca-se uma narrativa paralela fora da objetividade jornalística, criando uma abertura para satirizar os indivíduos, a partir da falta de exatidão de suas respostas. No roteiro, a ambientação inicial escolhida, foi o repórter lendo jornal em um sofá. Esse comportamento rotineiro para alguns, parece nos aproximar do público, criando identificação, pois remete a uma pessoa “comum” lendo um jornal e questionando algo, neste caso, a localização da usina. Enquanto o deputado federal Ronaldo Benedet (PMDB - Santa Catarina) responde que a usina está sendo construída em um local que não corresponde com a verdade, a repórter externaliza uma linguagem corporal e linguagem facial sem estabelecer troca, com olhar vago, evidenciando reprovação e, que, pode ser associado a um contato identificando perplexidade junto ao público. Esse gesto de negação ou reprovação às atitudes ou respostas dos entrevistados, com emprego de olhar vago para câmera, se tornou uma característica marcante do CQC. A capacidade questionante da repórter também é reforçada pela sua capacidade expressiva, com uso de gestos amplos, como no momento que ela emprega sarcasmo afirmando que o importante é que seja construída a usina, independente da região, ironizando a fala do deputado entrevistado, ou também quando a repórter diz ao deputado “é importante que o senhor saiba que não é no Nordeste”.

O Produto Criativo é observado em um contexto em que se emprega composição da paisagem sonora, fundo musical que nos remete aos antigos filmes de comédia para agregar uma abordagem hilariante da mesma maneira. Diversos deputados erram ao responder. Uma série de recursos de videografismo simples são empregados para direcionar a interpretação da audiência. Ao errar a resposta, o deputado federal Ronaldo Benedet (PMDB - Santa Catarina) tem um par orelhas de burro inseridas em sua cabeça e quando o mesmo insiste na resposta, acrescenta-se uma mão que dá um soco na cara dele, chegando a espirrar sangue (Figura 44). Além disso, os sobe sons reforçam a ideia de desqualificar o entrevistado, utilizando efeitos sonoros como um zunido de “HUUUU” idênticos a vaias em razão do erro cometido pelo