2. MÉTODO
3.2 PROGRAMAS
Foram encontrados cinco programas ao longo do período observado, desde 2016 até 2018, apresentados no Quadro 3, juntamente com a característica principal de cada projeto e seu status (se ativo ou não) no ano corrente.
Quadro 3 - Programas esportivos do Governo do Estado do Ceará e parcerias nacionais
Programa13 Objetivo Característica
principal Status
Programa Esporte e Lazer
da Cidade
Promover o esporte de maneira não competitiva, ou seja, voltada para o lazer
Promoção da prática esportiva Ativo Ceará atleta: o programa bolsa atleta do Ceará
Incentivar financeiramente atletas que estão abaixo da linha da pobreza Incentivo Financeiro Programa Esporte em três tempos
Promover o esporte nos campos Sesporte e nas Arenas, aliando a prática esportiva a palestras
educacionais a conteúdos como respeito, arte e paz Promoção da prática esportiva
Ativo (em fase de edital) Programa
Segundo Tempo
Democratizar o acesso ao esporte educacional de qualidade, como forma de inclusão social
Desativado Bolsa Esporte
Incentivar financeiramente e favorecer o desempenho esportivo dos atletas que estão abaixo
da linha da pobreza14
Incentivo Financeiro Fonte: Sesporte (2018a)
O Quadro 3 apresentou os objetivos, status e característica principal de cada programa. Estas iniciativas foram ordenadas levando em conta seu status, ou seja, se estavam ativas ou não no momento da finalização desta pesquisa. As iniciativas desativadas também foram discutidas, a fim de contextualizar as oportunidades de prática esportiva em um caminho histórico recente, evitando um olhar recortado da realidade abordada. A seguir, trataremos primeiro dos programas ativos e posteriormente dos programas desativados, discutindo brevemente e estabelecendo uma relação entre os dados e pesquisas encontradas sobre estes programas.
13 O Programa Segundo Tempo, Programa Esporte e Lazer da Cidade e Bolsa esporte são políticas nacionais
adotadas pela Sesporte.
14 Linha da pobreza é um índice econômico. Cada país possui um método para medição, fornecendo estes dados
ao WorldBank o qual adota a medida de 1,90 dólares por dia (aproximadamente R$3,46 – abril de 2018). Sendo este valor considerado insuficiente para as necessidades básicas do ser humano.
O Programa Esporte e Lazer da Cidade (PELC) conta com iniciativas de Ginástica, porém voltadas para o bem-estar e condicionamento físico, não abordando nenhuma das práticas ginásticas investigadas nesta pesquisa. O estudo desenvolvido por Vieira e colaboradores (2017) sobre o PELC no Nordeste, relacionou o PELC ao Índice de Desenvolvimento Humano. Assim, estes autores observaram que o Nordeste possui representatividade quanto ao número de convênios vigentes nos Estados que compõem essa Região, e, portanto, quanto ao número de iniciativas do programa, em teoria, em funcionamento na região. Porém, estes mesmos autores observaram uma divisão irregular destas iniciativas dentro da própria região Nordeste. Quando comparado com o restante do país, a região Sudeste se destaca, tendo São Paulo e Rio de Janeiro com os maiores números de iniciativas concentradas, o que significa que pode estar relacionado, segundo estes autores, à baixa quantidade de estados que compõem a região Sudeste e à alta concentração populacional desta região, evidenciando, uma discrepância da incidência do PELC entre eles e o resto do país (VIEIRA et al., 2017).
Por fim, quando realizada a relação dos locais onde o PELC estava presente com o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) local, observou-se que nas regiões Nordeste e Norte, a média de convênios é inferior à metade dos convênios na região Sudeste por exemplo. Tendo em vista que este é um programa público de democratização do esporte, a ausência de mais iniciativas em estados com baixo IDH, pode ser um fator que distancia a população da prática esportiva, sendo necessário que índices como este sejam levados em conta com maior peso nos editais, a fim de aumentar o número de iniciativas e oportunizar a prática esportiva em regiões mais carentes (Ibidem).
No caso do Programa Ceará atleta, iniciado em 2015, tendo edições no ano de 2017 e uma atual (2018) em fase de edital, o programa teria três linhas de atuação fornecendo bolsas, ou seja, incentivo financeiro independente da modalidade esportiva praticada pelos atletas: iniciantes em modalidades esportivas - R$100,00/mês; atletas que já participaram de competições locais tendo sido colocado até 10º lugar – R$130,00/mês - e atletas que já competiram em competições locais e que tenham atingido até o 6º lugar - R$260,00/mês (SESPORTE, 2018a). Como podemos observar, esta política direcionada a atletas abaixo da linha da pobreza, possui duas frentes direcionadas ao alto rendimento esportivo. Ademais, os valores ofertados parecem visar abrangência, porém não condiz com a realidade dos investimentos necessários para a manutenção de um atleta na prática esportiva (equipamentos, transporte e alimentação necessária). Em 2015, não foram encontrados dados sobre atletas e
modalidades contempladas na página direcionada ao programa. Já em 2017, seis ginastas receberam o incentivo (SESPORTE, 2018a), sendo cinco delas ginastas da Região Metropolitana de Fortaleza (Eusébio e Fortaleza) e uma do interior (Jaguaribe)15. Duas destas atletas (Raquel Rebouças e Nicole Oliveira), alunas da Rede Pública de Ensino de Fortaleza, que fazem parte do projeto social “Sonho em Movimento”, receberam o terceiro tipo de incentivo, mais elevado valor, enquanto as demais ginastas receberam o incentivo da categoria 1. Atletas de outras práticas esportivas como o Futebol, Futsal, Natação, Judô, Taekwondo, Handebol, Capoeira, Atletismo e Ciclismo também foram contemplados. Sendo a modalidade Futsal a que mais teve atletas contemplados (251), Atletismo (106) e Karatê (105) enquanto o Ciclismo e a Luta Olímpica foram as modalidades com menor número de atletas contemplados (3 cada). Nesse contexto, a Ginástica se apresentou como a penúltima modalidade/atletas contemplados, o que pode revelar uma diversidade de esportes praticados, porém indica para uma cultura esportiva que acompanha um cenário cultural esportivo nacional de acordo com esse programa, valorizando práticas como o Futebol e Futsal.
O Programa “Esporte em Três Tempos” foi inserido no site da Sesporte em 01 de março de 2018 e lançou seu primeiro edital, apresentando até o momento o objetivo e a logomarca do projeto, além da ficha e inscrição para monitores. Dados os locais descritos para a realização da ação (campinhos e areninhas), pode-se inferir que as práticas estão relacionadas ao Futebol de campo. Porém, é necessário esperar o andamento do projeto para que se obtenha mais informações sobre a efetividade desta ação na promoção do esporte e os benefícios sociais descritos na elaboração do projeto.
O Programa Segundo Tempo (PST) foi um programa do Governo Federal desenvolvido pelo Ministério do Esporte com abrangência nacional o qual tinha como objetivo a promoção do esporte educacional. Em parceria com o Governo do Estado do Ceará este programa esteve ativo no Estado, porém, no momento da presente pesquisa as informações sobre esse programa não estavam mais disponíveis para consulta na Secretária Estadual. No entanto, notícias sobre o programa confirmaram o funcionamento do Programa em 2013, bem como teve sua renovação realizada em 2015 (SESPORTE, 2018a; MINISTÉRIO DO ESPORTE, 2018a; 2015a; PREFEITURA DE FORTALEZA, 2013).
Estudos como os de Reis (2009) o qual utilizou o PST como campo para aplicação de uma proposta de prática gímnica não competitiva, e os estudos Dodó (2016) o qual avaliou
15 Atletas contempladas em 2017 pelo programa Ceará Atleta>Ginástica> Raquel Rebouças, Nicole Oliveira, Mikaelly Oliveira, Maria Eduarda Lima, Laura Stephane Rocha e Lílian Martins
a efetividade do PST em Fortaleza, capital do Ceará, revelam não só a existência, mas como os benefícios e problemáticas desta iniciativa em Fortaleza/CE, como aponta Dodó (2016, p. 85): “É inegável que o PST promoveu melhorias na vida de seus participantes, e forneceu elementos para a mudança dessas realidades a curto e longo prazo, constituindo-se assim em uma política pública efetiva”. Porém ressalta que núcleos do projeto foram desativados antes do fim do convênio, enquanto outros sequer foram abertos. Infelizmente, não são disponibilizadas no acervo digital da Sesporte informações sobre quais modalidades foram contempladas, nem o período de duração deste programa.
Com relação ao funcionamento deste programa na região Nordeste, de maneira mais ampla, o estudo de Santos, Starepravo e Souza Neto (2015) tratou do vazio que depõe contra a proposta de democratização do esporte, ou seja, a incapacidade de os implementadores (Governos Federal, Estadual e Municipal) de abranger 1029 municípios de oito dos nove estados do Nordeste. Quanto ao Ceará, este mesmo estudo revela que este foi o único estado a não fazer parte desse “vazio”, ou seja, sendo seus municípios contemplados pelo programa.
O programa Bolsa Esporte, teve edições em 2015 e 2017 e foi desativado em janeiro de 2018. Tratou-se de uma iniciativa estadual de incentivo financeiro destinado a todas as modalidades esportivas, porém, em função de sua desativação não foi possível encontrar mais informações disponíveis sobre este programa no site da Sesporte. Em ambos os anos nos quais houve iniciativas, não são disponibilizadas listas de contemplados e modalidades, portanto, não é possível saber sobre a efetividade deste programa no Ceará, seus dados e indicativos.
De maneira geral, quanto aos programas, observamos iniciativas recentes, enquanto outros programas tiveram descontinuidade, o que parece indicar uma política esportiva de um governo e/ou uma gestão/partido político. Esta afirmativa vai ao encontro dos estudos de Toledo e Antualpa (2014), o qual, fundamento em estudos da área, aponta para a ausência de uma política pública contínua e alicerçada nas demandas dos esportes. Essa descontinuidade pode inferir no cenário de prática esportiva em geral, acarretando no abandono esportivo, por falta de políticas, espaços e incentivos para a prática esportiva uma vez que os incentivos, principalmente para pessoas de baixa renda podem significar a participação (ou não) em competições regionais e nacionais e, consequentemente, permanência ou não no esporte.