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5 TDIC NA CULTURA ESCOLAR: DEPOIMENTO DOS

5.3 FORMAÇÃO APROPRIATIVA

5.3.3 Projetos na escola que envolvem tecnologia

Pensando em um uso apropriativo da tecnologia, parte dessa análise se propôs a investigar os projetos que são elaborados na escola com o uso de tecnologia pelo viés que Pretto (2011) apresenta como uma perspectiva interessante baseado no tipo de escola que a sociedade atual demanda: projetos com uma perspectiva plural, que articulem educação, cultura, ciência e tecnologia não apenas enquanto transmissão de informação.

Começamos por investigar os projetos socioeducativos multidisciplinares, elaborados durante a formação de 2012-2013 do Projeto UCA – que pretendia a construção de projetos interdisciplinares e socialmente relevantes à comunidade escolar, elaborado em parceria entre alunos e professores. Das escolas de nossa amostra, somente a A ainda desenvolve o projeto que foi elaborado na formação, no entanto com menos participação dos alunos: “A gente ainda faz o jornal, mas não usando mais o UCA. A gente faz com outros computadores” (Gestora A). Outra questão que mudou foi que a participação dos alunos diminuiu. Hoje em dia, o projeto é feito pela equipe docente, tendo o apoio de apenas alguns alunos.

Das escolas que não continuam com o projeto, a escola D, cujo uso do UCA foi interrompido por dois anos, relata:

Depois que o UCA saiu da nossa escola, pelo fato da construção, ele ficou um tempo parado e retornou apenas no início do ano de 2017. Então, nesse período que ele ficou parado, houve uma rotatividade muito grande de profissionais na nossa escola (Gestora D).

Já a escola B traz a explicação de que o projeto ocorria até 2013, nos “anos que o Monet trabalhou aqui, foram os anos que movimentamos a comunidade”. Ambas, a partir de diferentes realidades, acabam por relatar situações em que os projetos foram interrompidos porque os indivíduos que os desenvolviam foram embora da escola.

Quando questionadas sobre o uso de tecnologia nos dias de hoje em projetos similares, as escolas F, G e E trazem exemplos de projetos elaborados pela equipe de docentes que não envolvem o uso de

tecnologia. Por outro lado, as escolas B, C, D e H apresentam projetos que envolvem a comunidade, dando-lhe algum retorno como, por exemplo, o projeto de reutilização da água da chuva, que está sendo elaborado pela escola C a partir de uma ideia do governo do estado de Santa Catarina. Em todos os casos, as tecnologias são usadas de forma instrumental, servindo principalmente como meio de acesso a informações.

A participação dos alunos na construção do projeto ocorre nas atividades apresentadas pela escola H – oficinas de reciclagem de papel e de produção de sabão ecológico através do óleo de cozinha descartado pelas famílias da comunidade – “também participam juntamente na elaboração do projeto”(Gestora H). Quanto ao uso das tecnologias, além de ferramenta para pesquisa, há também o uso para elaboração de vídeo tutorial de registro dos processos, o que se mostra interessante enquanto produção e disseminação do conhecimento produzido na escola.

O projeto que mais se encaixa na proposta dos projetos socioeducativos multidisciplinares é o que a escola A apresentou. O grupo de educação ambiental fez um diagnóstico a respeito do rio que abastece a comunidade escolar e

Nesse rio, eles encontraram alguns problemas de preservação de mata ciliar de preservação de nascente, então eles vão desenvolver um projeto para tentar alertar a comunidade para esses problemas. Aí, eles fizeram pesquisas com imagens de satélite, pesquisas relacionadas ao tema de água, mata ciliar, e o que tem que ser feito em relação aos problemas que eles encontraram. (Gestora A)

A ideia do projeto partiu dos alunos e está sendo desenvolvida na escola. A apropriação da tecnologia se deu em termos de pesquisa e acesso a imagens que eram necessárias para o seu desenvolvimento. Realizado em grupo, a proposta se transformou em uma construção de conhecimento colaborativa enquanto prática ativista na comunidade.

Como muitos dos projetos citados pelas escolas não conseguiram trazer o uso de tecnologia – ou, quando o fizeram, trouxeram de maneira instrumental – foram solicitados exemplos de propostas de trabalhos em sala de aula utilizando as tecnologias, no contexto atual. As escolas D e F conseguiram trazer exemplos de projetos da época da formação do Projeto UCA. O curioso é que ambas as escolas apresentaram o mesmo projeto: um mapeamento dos entornos da escola (um sobre moradias e o outro sobre vegetação) em que os alunos saíam com seus UCA fazendo

o registro e, posteriormente, era produzido um vídeo com todos os registros e relatos das impressões dos alunos. Tal similaridade de proposta nos fez questionar se este trabalho não teria sido um exemplo desenvolvido durante a formação, sendo apropriado por diferentes escolas, mas não tivemos nesta pesquisa condições de ir adiante nessa investigação, pois dependeria de contato direto com os sujeitos que realizaram os projetos nas escolas, que não eram nossos sujeitos de pesquisa.

A escola A traz um exemplo de gincana feita com todas as turmas da escola em que as atividades eram passadas por QR code espalhados pela escola, com desafios em diversas áreas de conhecimento: “Por exemplo, fazerem paródias, responderem questões de conhecimentos gerais, fazerem campanha em prol de alguma instituição…Usavam os dispositivos para buscar as respostas e também para se comunicar entre eles” (Gestora A). Esse pode ser considerado um bom exemplo de apropriação crítica e criativa dos meios tecnológicos em práticas pedagógicas. A gestora ressalta resultados “tanto de integração, quanto de lazer, de fortalecimento de laços de amizade entre eles, como também refletiram na sala de aula nas notas” (Gestora A).

As outras cinco escolas (B, C, E, G e H) apresentam projetos em que o uso da tecnologia é feito de forma instrumental. Seja nas provas online, realizadas pelo professor de ciências da escola B; na pesquisa de conteúdo para a elaboração de charges sobre a Guerra Fria, proposto pela professora de História da escola E; ou ainda na escola C, em que a gestora relata: “A tecnologia agora é bem pouco utilizada. O que a gente tem montado são algumas apresentações”(Gestora C).

Uma questão pertinente é que, ainda que a Gestora H tenha relatado a produção em audiovisual, a construção desse registro nos leva a perceber o uso de forma similar ao do Powerpoint. Segundo essa profissional, a ideia surgiu como alternativa para uma apresentação de resultados de uma pesquisa: “Os alunos resolveram: não vamos fazer uma apresentação qualquer em sala de aula” (Gestora H). A apropriação de uma nova linguagem é algo extremamente importante, mas é interessante que seja feita de forma a explorar as diferentes possibilidades que esta apresenta. Usá-la para reproduzir algo que é feito com outras linguagens não configura uma apropriação.

A questão detalhada no parágrafo anterior tem relação com o uso das mídias na escola. Esse será nosso próximo e último tópico de análise.