2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.4 PROPOSTA DE SEQUÊNCIAS DE ATIVIDADES DE RILDO COSSON
Nesses novos tempos, estamos diante de mudanças na educação, mudanças que nem sempre trazem consequências positivas, como é caso da literatura na escola. A escola está aberta às novas tecnologias, aos temas atuais, porém, de maneira deturpada, limitando a literatura como uma mera manifestação cultural.
Em muitas instituições, não se considera necessário trabalhar com a literatura, pois basta ao aluno estar informado, se esquecendo da necessidade da construção humana. Dessa forma, a literatura torna-se conhecimento dispensável, trocando-se a formação pela informação. Este fenômeno esteve descrito desde o início do século pela noção de ―indústria
cultural‖, por estudiosos, como Horkheimer e Adorno, da Escola de Frankfurt. Na obra, Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos, eles orientam quanto ao enfraquecimento do ―eu‖ no indivíduo da sociedade industrial. Os autores fazem uma profunda análise da formação cultural, tal como historicamente construída, isto é, como signo da escravidão, do totalitarismo e da barbárie (HORKHEIMER e ADORNO, 1985).
Diante disso, o objetivo da ―indústria cultural‖ consiste em atingir a capacidade de percepção das pessoas, tanto que impossibilita a formação de indivíduos autônomos, independentes, capazes de julgar e de decidir conscientemente. Adorno discute como o gosto é imposto às pessoas, por isso a ideia de ―indústria cultural‖:
Com a propriedade burguesa, a cultura também se difundiu. Ela havia empurrado a paranóia para os recantos obscuros da sociedade e da alma. Mas como a real emancipação dos homens não ocorreu ao mesmo tempo que o esclarecimento do espírito, a própria cultura ficou doente. Quanto mais a realidade social se afastava da consciência cultivada, tanto mais esta se via submetida a um processo de reificação. A cultura converteu-se totalmente numa mercadoria, difundida como uma informação, sem penetrar nos indivíduos dela informados [...]. O pensamento reduzido ao saber é neutralizado e mobilizado para a simples qualificação nos mercados de trabalho específicos e para aumentar o valor mercantil da personalidade. Assim naufraga essa auto-reflexão do espírito que se opõe à paranóia (HORKHEIMER; ADORNO, 1985, p. 184).
Para Cosson, o ensino de literatura está sendo tratado na escola de maneira indevida e podemos notar o que o estudioso aborda, efetivamente, sobre a influência da ―indústria cultural‖:
Sob o argumento da democratização da cultura ou da valorização da diversidade cultural contemporânea, defende-se que as obras literárias representadas pelos livros cedam lugar aos filmes, shows, vídeos, programas televisivos e tudo o mais que compõe, como já vimos, o cenário atual da vida dos jovens (COSSON, 2014, p. 14).
Observa-se que o ensino de literatura está enfrentando um momento difícil. Ela não é ensinada a fim de construir e reconstruir a palavra que nos humaniza; a literatura, quando trabalhada na escola, se faz de maneira inadequada e superficial, pois, sem ler e sem livros, não é possível alcançar o objetivo de se formar leitor literários.
A partir da necessidade de se trabalhar com o texto literário de maneira que contemple a sua função na sociedade, Cosson propõe ocupar-se com sequências em seu livro, Letramento Literário: teoria e prática, no intuito de promover o letramento literário no ensino de literatura na escola básica. Nele, o autor considera que o ―[...] letramento literário é uma prática social e, como tal, responsabilidade da escola.‖ (COSSON, 2009, p. 23).
O professor apresenta práticas do letramento literário, em sala de aula, com exemplos de uma sequência didática básica e uma sequência expandida, fundamentadas em três perspectivas metodológicas. A primeira técnica é de oficina: trata-se de ludicidade e de criatividade verbal aliadas ao caráter de aprender fazendo. A segunda técnica, a do andaime, trata-se a ideia da troca de conhecimentos entre docente e aluno. E a terceira tática é a do portfólio, que permite o registro e o encadeamento das atividades.
A sequência básica é constituída por quatro passos: motivação, introdução, leitura e interpretação.
A motivação é o primeiro passo para o letramento literário. Consiste em preparar o aluno para entrar no texto, pois a leitura demanda uma preparação. O autor orienta que as práticas de motivação mais bem-sucedidas são aquelas que estabelecem laços estreitos com o texto escolhido para leitura. Cosson afirma que o encontro do leitor com a obra depende de boa motivação e que exerce uma influência sobre as expectativas do leitor, mas não tem o poder de determinar a leitura.
O segundo passo da sequência didática é a introdução. Refere-se à apresentação do escritor e da obra. O autor orienta que, apesar de ser uma atividade considerada simples, o professor deve tomar alguns cuidados para que a apresentação do autor não se transforme em extensiva aula sobre a sua biografia e para que não se pretenda reconstituir a intenção do escritor ao escrever a obra. Outro aspecto importante é a apresentação física da obra, momento que pode ser aproveitado pelo professor para chamar a atenção dos alunos acerca de elementos paratextuais, como leitura da capa, leitura da orelha etc.
A leitura é o terceiro passo para o letramento literário e Cosson alerta que, ao ensinarmos leitura, não podemos perder de vista os objetivos, visto que a leitura escolar precisa de acompanhamento e direcionamento. Porém, o professor não deve confundir acompanhamento com policiamento, não devendo vigiar a leitura do aluno, mas auxiliá-lo em suas dificuldades. Devemos ressaltar, ainda, os intervalos sugeridos no livro, pois é justamente nesses espaços de tempo que o professor terá a oportunidade de perceber as dificuldades de leitura dos alunos, funcionando como um diagnóstico da etapa da decifração no processo de leitura, logo, podendo o professor resolver problemas relacionados ao vocabulário e à estrutura composicional do texto, entre outros.
O último passo da sequência básica é a interpretação. De acordo com o autor, parte do entretecimento dos enunciados, constitui-se das inferências para se chegar à construção do sentido do texto, dentro de um diálogo que envolve autor, leitor e comunidade. Cosson destaca que o importante na interpretação é que o aluno tenha a oportunidade de fazer uma
reflexão sobre a obra lida e externalizá-la: ―O momento externo é a concretização, a materialização da interpretação como o ato de construção de sentido em uma determinada comunidade.‖ (COSSON, 2009, p. 65). Por consequência, é possível estabelecer o diálogo entre os leitores da comunidade escolar.
A sequência expandida, segundo o autor, pretende não só responder às inquietações dos professores do ensino médio, mas, também, explicitar a presença de outras aprendizagens da literatura dentro dos passos orientados para a sequência básica. Além dos quatro passos da sequência básica (motivação, introdução, leitura e interpretação), a sequência expandida constitui-se em acrescentar mais passos de aprofundamento, a saber: primeira interpretação, contextualização (teórica, histórica, estilística, poética, crítica, presentificadora e temática), segunda interpretação e expansão.
A primeira interpretação destina-se a uma apreensão global da obra – leitura do aluno. A contextualização compreende aprofundamento da leitura por meio dos contextos que a obra traz consigo, sendo apresentada em sete concepções:
a. teórica: procura tornar explícitas as ideias que sustentam ou estão encenadas na obra;
b. histórica: abre a obra para a época que ela encena ou o período de sua publicação – relaciona o texto com a sociedade que o gerou ou com a qual ele se propõe a abordar internamente;
c. estilística: refere-se aos estilos de época, busca analisar o diálogo entre obra e período, mostrando como uma alimenta o outro;
d. poética: responde pela estruturação e composição da obra, quais os princípios de sua organização;
e. crítica: análise de outras leituras que tem por objetivo contribuir para a ampliação do horizonte de leitura da turma;
f. presentificadora: busca a correspondência da obra com o presente da leitura, com a atualidade do texto e
g. temática: retoma o caminho do leitor, sem compromisso com o saber literário, podendo ser considerada a definição de tema ou temas expressos na obra. A abordagem temática é a maneira mais familiar de tratar uma obra para qualquer leitor dentro ou fora da sala de aula. Porém, para que o processo de letramento literário seja possível, a contextualização temática precisa ser desenvolvida com mais rigor na escola.
A segunda interpretação objetiva a leitura aprofundada de um de seus aspectos, podendo estar centrada sobre um personagem, um tema ou um traço estilístico, correspondendo com questões contemporâneas e históricas, de acordo com a contextualização realizada.
A expansão é o movimento de ultrapassagem do limite de um texto para outros, possibilitando a intertextualidade no campo literário. Busca-se destacar o diálogo que toda obra articula com os textos que a precederam ou são posteriores.
O que diferencia uma sequência da outra é a complexidade do trabalho a ser desenvolvido com os alunos, visto que a proposta exposta nesta pesquisa se destina a alunos do 6º ano do ensino fundamental. Por isso, entendemos que a sequência básica será a mais adequada para o desenvolvimento da sequência didática que será preconizada como intervenção na escola selecionada.
Cosson deixa claro que há muitas outras possibilidades de combinação entre as duas sequências e que elas devem ser tomadas como exemplares e não modelares, sendo a sequência básica utilizada como norteadora para formular a sequência didática, que constituirá a proposição de intervenção desta pesquisa.