6 PROUCA na escola: relato dos professores
6.2 PROUCA na escola: perspectivas de uma professora
O problema central, que norteou o projeto foi entender de que maneira um trabalho pedagógico que faz uso de leitura virtual contribui para a compreensão leitora dos alunos. Os desafios que, inicialmente, enfrentei em sala de aula foram diversos. A maioria dos alunos não tem o hábito da leitura, tanto por falta de incentivo cultural (não veem pessoas de seu convívio se interessarem pela leitura), quanto por não acharem leituras que se adaptem a sua linguagem e ao seu mundo e não menos importante, por não compreenderem o que leem.
Desde o início da minha docência, visualizava esse quadro e notava o quanto é difícil para um professor introduzir a leitura de um conto, uma crônica ou até uma notícia em sala de aula. Se o aluno não compreende e não se interessa pelo que lê, não há trabalho pedagógico, por mais lúdico que se apresente, que tenha valia na aprendizagem do estudante.
A primeira pergunta era: onde está a resposta do fracasso escolar e da falta de aprendizagem dos alunos? Há diferenças entre a aprendizagem dos alunos de escolas públicas e privadas? Constata-se que:
[...] o sistema de ensino, seja público, seja particular, reflete sempre a sociedade que está inserido. A escola não é isolada do sistema socioeconômico, mas, pelo contrário, é um reflexo dele. Professores em escolas desestruturadas, sem apoio material e pedagógico, desqualificados pela sociedade, pelas famílias, pelos alunos não podem ocupar bem o lugar de quem ensina tornando o conhecimento desejável pelo aluno. É preciso que o professor competente e valorizado encontre o prazer de ensinar para que possibilite o prazer de aprender. (WEIIS, 2008, P. 18).
O grande diferencial do projeto para o sucesso da aprendizagem dos alunos foi o estímulo a mim dado. A obtenção de um material didático diferenciado, lúdico e bem estruturado deu ânimo às minhas aulas. O material foi planejado com muita atenção, respeitando a faixa etária e série dos alunos. Nesse contexto, com um forte instrumento de trabalho em mãos, a minha motivação aumentou e contagiou os estudantes.
No início do trabalho, os estudantes estavam temerosos. Os alunos estavam acostumados com o uso da tecnologia em sala de aula, alguns, desde as séries iniciais do ensino fundamental. Porém, reparei que os estudantes ainda têm muito apego aos métodos tradicionais e temem o novo. Na verdade, seria vã a ideia de que inclusive nós, professores, não tememos o novo. Em primeiro lugar pelo apego aos métodos tradicionais. Em segundo lugar e não menos importante, pelo receio de como usar a máquina sem banalizar a aula.
O objeto principal do projeto (a leitura) deixava os estudantes apreensivos, pois eles não se sentiam capazes de atingir os objetivos. A maioria se intitulava não leitora. O uso da tecnologia nesse sentido foi uma grande aliada, pois os adolescentes e adultos gostaram do desafio de ler no “Lap Top” e poder produzir seus exercícios de compreensão por ali. Observei que os estudantes têm mais acesso a leitura do que pensam, pois entendem por texto apenas os contidos em grandes clássicos, de imensa largura e lidos na escola, por exigência. Na realidade, esse conceito de leitura escolar é mal interpretado não somente pelos alunos, mas pela sociedade em geral:
[...] A leitura é uma prática social escolarizada, isto é, numa sociedade como a nossa, as pessoas consideram que uma das funções da instituição escolar é ensinar a ler. Porém, a leitura não é uma prática escolar: uma pessoa pode aprender a ler sem ter ido à escola, ou, mesmo quem tenha aprendido a ler na escola, pode desenvolver habilidades de leitura diferentes daquelas que a escola lhe apresentou, e ler textos pertencentes a gêneros com os quais não teve contato em contexto escolar. (PIETRI, 2009, p. 11).
Essa citação ilustra bem o que ocorreu com as minhas turmas de sétima série da escola, que se diziam não leitoras, mas à medida que concluíam o Bloco “Texto Instrucional” o identificavam em seu dia a dia, principalmente nas instruções da disciplina de Educação Física e em receitas de culinária.
Com as turmas da Educação de Jovens e Adultos, constatei, não só pela observação, mas pela própria fala dos alunos, que o projeto foi de grande eficácia por três grandes motivos. Primeiramente, porque sentiram sua autoestima elevada em verem-se pertencentes a um projeto tão grandioso. Segundo, porque puderam se unir e ampliar seu círculo de amizades e a afetividade é fundamental para essa modalidade. E terceiro porque realmente aprenderam e reviram coisas que estavam esquecidas no tempo em que estiveram longe dos estudos. Além disso,
como relatou um estudante, a aproximação com a era digital é de suma importância para adolescentes e adultos, que já estão trabalhando com as tecnologias no mercado de trabalho, ou que planejam melhorar de vida, tendo esse conhecimento também.
Os alunos do ensino regular gostavam de fazer as atividades sozinhos, cada qual ao seu tempo, com bastante autonomia. Solicitavam a minha ajuda e da monitora, mas somente quando sentiam muita necessidade. Eles relatavam sempre o quanto as atividades do projeto eram desafiadoras e que gostavam disso. Em contrapartida, os alunos da Educação de Jovens e Adultos gostavam de fazer as atividades juntos. Diziam que se sentiam mais unidos e seguros ao fazerem as atividades dessa forma.
Um bom diferencial do projeto foi ter contado com a ajuda de uma aluna bolsista. Por maior que seja o conhecimento que o professor tem, quem melhor que um (a) aluno (a) para saber as preferências e dificuldades de seus colegas? Quem melhor para palpitar, concordar e discordar do nível de dificuldade de algumas atividades que um (a) aluno (a)? Notei que os alunos se sentiram mais confiantes ao saber que uma de suas colegas já conhecia a maioria das atividades e testemunhava que eram boas, divertidas e eficazes.
Quanto ao uso das tecnologias em sala de aula, percebi que realmente fazem diferença. Hoje em dia nossos adolescentes vivem em um mundo informatizado e ter um projeto que vai ao encontro disso quebra a barreira que existe entre educando/educação. Deste modo, os educandos sentem que a educação está dentro do seu universo e além do mais, notam que os “Lap Tops” não são meras “máquinas de escrever”, tampouco central de jogos ou “Lan House” para uso de internet, apenas. Veem sentido no uso dos computadores, o respeitam e cuidam mais, inclusive. Acaba-se atingindo vários propósitos, não apenas o “conteudista” mas também o social, o humano, o educador.
A maioria dos alunos teve aumento significante de vocabulário, interpretação, ortografia e raciocínio. Os erros eram importantes para o processo de aprendizagem e lidados com naturalidade. Paulo Freire já previa que um ensino com aceitação sempre se dá de maneira mais natural:
Ensinar é, enquanto ensino, testemunhar aos alunos o quanto me é fundamental respeitá-los e respeitar-me são tarefas que jamais
dicotomizei. Nunca me foi possível separar em dois momentos o ensino dos conteúdos da formação ética dos educandos. (FREIRE, 2011. p.92) Os equívocos dos estudantes foram respeitados o projeto todo, fazendo assim a aprendizagem ser mais leve, sem obrigação e mais natural. As respostas erradas que eram dadas eram sempre discutidas pela classe para que todos pudessem entender e evoluir. O respeito ao projeto, ao meu trabalho e ao esforço dos alunos foi mútuo, de muita relevância e provavelmente o maior responsável pela aprendizagem dos alunos.
O projeto infelizmente chegou ao fim, mas nossa jornada com a educação digital não. Os alunos me perguntam sobre o projeto, questionam porque teve que acabar e mostram no olhar o quanto sentem falta da “rotina” do PROUCA. Tudo isso me recompensa como educadora, pois noto que nossos esforços foram recompensados e valorizados pelos estudantes. Nossos exercícios continuam vinculados ao projeto e tornou-se um hábito na escola. Os novos alunos da totalidade 6 da educação de jovens e adultos me perguntaram, desde o primeiro dia de aula, se também teriam o privilégio de aprender da maneira “legal” que os estudantes que se formaram e participaram do projeto aprenderam. Também estamos trabalhando com o projeto nessas turmas de EJA. Eles estão adorando, felizes e admirados. E eu, particularmente, não tenho palavras para agradecer o aprendizado que tive, as transformações positivas que ocorreram na minha forma de dar aula e o sorriso dos meus alunos.