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Capítulo I Projetos de cidades modernas e projetos de habitação popular: das reações à

I.1. Projetos de Cidade Moderna

I.1.2. Projetos de cidades no Brasil

I.1.2.2. Quadro Brasileiro

Assim como os demais países da América Latina, ao contrário do que acontecera na Europa, durante o século XIX não ocorreu no Brasil um desenvolvimento técnico-industrial evidente, processo que ocorreria somente em finais daquele século e início do século XX. Assim sendo, os males que afligiam as cidades europeias naquele momento, em especial as inglesas, devido à industrialização e reorganização urbana, com aumento demográfico e degradação do ambiente, incutindo nos profissionais o germe dos projetos de cidades e sociedades modernas, não ressoavam ainda nos núcleos urbanos brasileiros.

Como salientado por Morse (1970), as cidades brasileiras eram, à exceção da capital Rio de Janeiro, ainda pouco populosas e caracterizavam-se como apêndices da economia agrária, fosse de culturas como a cana-de-açúcar e, depois da metade do século XIX, o café, fosse da criação de animais ou ainda da atividade mineradora. Mesmo na capital, que tivera maior desenvolvimento após o estabelecimento da família real portuguesa no Brasil em 1808, quando ocupou uma posição economicamente favorecida em relação às demais cidades brasileiras, inquietações quanto ao mau funcionamento do núcleo urbano e posteriores propostas de soluções para os problemas encontrados, fariam sentir-se somente em finais do século XIX, tal como em outras aglomerações. Outro fator ainda quanto a pouca movimentação no campo do projeto urbano é ressaltado por Andrade (1992:100):

na Colônia e Império o desenho urbano não carecia acentuar uma diferença entre as classes sociais que a sociedade já estabelecia juridicamente, pois então os cidadãos não eram iguais perante a lei. É a partir do aparecimento do regime de trabalho livre que as cidades expressarão, em sua morfologia e estrutura, as diferenças entre as classes sociais, pois nelas, ao menos teoricamente, todos os cidadãos são iguais perante a lei. Com a República serão aplicadas nas cidades brasileiras as estratégias de segregação espacial e esquadrinhamento do espaço urbano, assim como de confinamento dos corpos.

Em fins do século XIX as preocupações recairiam sobre o superpovoamento urbano ocasionado principalmente pelo fim da escravidão, que permitiu aos ex-escravos se estabelecer nas

cidades, e, especificamente nos estados em que se desenvolveu a economia cafeeira pelo aumento do número de imigrantes destinados a trabalhar nas lavouras de café em substituição à mão-de-obra escrava, que acabavam em parte ficando nos núcleos urbanizados, o que contribuiu para a notória precariedade das condições sanitárias, até então menos visíveis.

É evidente a similitude entre estes fatores e aqueles que suscitaram os processos de planejamento socioeconômico e urbanístico na Europa pós-Revolução Industrial; contudo, é preciso salientar que as causas que levaram a estas condições são divergentes: no caso europeu, a transformação dos núcleos existentes em cidades industriais e, no caso brasileiro, o crescimento da atividade cafeeira e do poder das oligarquias agrárias, marcante principalmente em São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, e ainda a propaganda republicana, motivando aspectos de representatividade da nova ordem, que incluíam as novas capitais estaduais. Foi comum, porém, devido às similaridades das condições urbanas, que os profissionais envolvidos com as obras de urbanização, que naquele momento significavam a remodelação ou a adequação dos núcleos urbanos com padrão ainda colonial às novas necessidades, importassem da Europa os exemplos lá implantados e os adaptassem às condições locais, projetando nas obras urbanísticas as aspirações políticas e econômicas da elite agrária e confirmando o que Gorelik (In MIRANDA, 1999) chama de ”modernização conservadora”.

Já nas primeiras décadas do século XX, na Europa, a preocupação novamente recaía na construção de cidades ou setores urbanos capazes de solucionar a questão da falta de moradias, neste caso não apenas devido aos processos de industrialização, mas principalmente devido aos inúmeros desabrigados após a Primeira Guerra Mundial. No Brasil, a partir de 1930, ao mesmo tempo em que importava criar um novo país expresso na indústria e no homem brasileiro, também o alojamento operário seria abordado de maneira mais efetiva pelo Estado. Os projetos urbanísticos refletiriam a proposta nacional-desenvolvimentista na construção de novas cidades, e tanto a expansão da urbanização para o interior do território brasileiro quanto a criação de indústrias estatais protagonizariam a proposição de novos núcleos urbanos, cujas referências mais uma vez viriam da discussão internacional sobre a cidade moderna.

Algumas das principais referências utilizadas pelos profissionais brasileiros nos planos elaborados, tanto para as obras de embelezamento e sanitarismo das cidades existentes quanto para as novas cidades, vieram dos projetos de construção de Washington e de reconstrução de Paris e Viena. Outra referência pioneira viria da cidade-jardim inglesa, desenvolvida por Ebenezer Howard e do subúrbio-jardim inglês de Unwin e Parker, bem como do modelo americano de Perry, Stein e Wright; mais alguns anos se passariam até que os conceitos do urbanismo racionalista dos CIAM fossem recebidos pelos profissionais brasileiros através de periódicos, livros e intercâmbio de profissionais. Deste modo, como aponta Correia (1999:02) “as teorias europeias desenvolvidas em

resposta à modernização chegaram ao Brasil antes que a modernização acontecesse” de fato; modernização que aqui entendemos como em Morse (1970), relativamente à urbanização resultante das necessidades impostas pela industrialização das cidades.

Desse modo, o quadro exposto anteriormente é fundamental para a compreensão do processo de urbanização brasileiro, que, como apontam Morse e Gorelik, diferencia-se amplamente – assim como nos demais países latino-americanos – daqueles processos originados nas práticas do capitalismo industrial, conformadores dos núcleos urbanos na Europa Ocidental no período pós- Revolução Industrial, que lá impulsionariam os projetos de cidades modernas.

O Brasil vê-se forçado a importar técnicas que caracterizam o capitalismo industrial de sociedades que conjuntamente com essas técnicas desenvolveram organizações sociais e hábitos mentais. Mas atitudes mentais e formas de estrutura social não podem ser trazidas de fora e incorporadas como se fossem máquinas ou estradas de ferro. (MORSE, 1970:299).

A manutenção das estruturas sociais e do pensamento tradicional seria apontada por diversos autores como característica fundamental do processo de urbanização brasileiro. Conforme Furtado (2003:III) “a situação periférica” do país associada à “reprodução de grandes assimetrias sociais” prejudicaram a difusão do progresso técnico e consequentemente, dificultaram a apropriação do “movimento de transformação capitalista”. Entendemos esse “movimento de transformação capitalista” tal como a modernização apontada por Campos (2002:25) que “resumiria as múltiplas transformações sociais, econômicas, demográficas, culturais, comportamentais, institucionais e políticas que acompanham o processo de implantação do modo de produção capitalista e as novas realidades e relações resultantes”.

Nesse sentido, a definição de Campos (2002) se distancia um pouco daquela de Gorelik (In MIRANDA, 1999), em que a modernização é percebida unicamente como uma transformação material e dissociada dos processos de industrialização – que compreendem o modo de produção capitalista –, mas igualmente seria resultante da modernidade, entendida em Campos (2002) como realidade atingida através de reformas estruturais capazes de inserir na sociedade o modo de produção capitalista. Para o autor, no entanto, o Brasil não experimenta a modernidade e sim uma “vontade modernizadora”, processo que “pretende alcançar estágio semelhante de desenvolvimento sem passar por indispensáveis transformações na base social” (CAMPOS, 2002:25). Dessa modernidade inalcançada resultaria um processo de modernização urbana brasileira “parcial e excludente”, uma aspiração ao moderno que tentou implantar o urbanismo modernizador num quadro que, contudo, mantinha inalterada a estruturação social, compreensão que é fundamental para o desenvolvimento de nossa pesquisa.

Leme (In LEME, 1999:21) afirma que no período que vai desde os últimos anos do século XIX até a década de 1960, que corresponde ao período de crescimento centrípeto de Morse e ao “ciclo

progressista” destacado por Gorelik na América Latina, se configuraram duas linhas de planejamento urbano no Brasil, uma iniciada “nos planos de melhoramentos que, em seguida se ampliaram para o conjunto da área urbana [...]” e outra “que tem origem no movimento modernista e se difunde com os congressos do CIAM”.

O citado intervalo entre finais do século XIX e meados do século XX é ainda dividido por Leme (In LEME, 1999) em três períodos de urbanização com características distintas. O primeiro se inicia em 1895, com a elaboração do projeto para Belo Horizonte, que a autora considera a primeira cidade planejada no país – posição assumida também em nosso texto –, e se estende até 1930, sendo caracterizado pelas propostas e realizações de melhoramentos urbanos pontuais sobre as cidades já existentes, como obras de saneamento, abertura e regularização de vias. O enfoque destas realizações recai principalmente sobre as condições sanitárias nos núcleos urbanos, sobre os problemas recorrentes da circulação nas ruas coloniais despreparadas para o tráfego de veículos e, ainda, sobre a questão do embelezamento do espaço urbano. Esse período corresponde ao momento descrito por Gorelik (In MIRANDA, 1999) como de “modernização conservadora”, o primeiro do ciclo progressista na América Latina.

O segundo período sugerido por Leme (In LEME, 1999) vai de 1930 a 1950 e é marcado pela elaboração de projetos que tem por objeto o conjunto da área urbana à época, com uma visão de totalidade que possibilitava maior articulação entre os diferentes setores urbanos23. É nesse momento que Leme considera a consolidação do urbanismo como disciplina autônoma no Brasil. Também este segundo período se assemelha ao segundo momento proposto por Gorelik (In MIRANDA, 1999), o das vanguardas, quando o Estado terá participação ativa na criação de novas cidades e núcleos operários ligados às indústrias estatais.

O terceiro período proposto pela autora se estende desde 1950 até 1964, quando têm início os planos em escala regional. Vale destacar que em 1950, 36,2% da população brasileira viviam em cidades e que a partir de então este número cresceria ano a ano, em proporções muito superiores às encontradas até aquele momento (SCHIFFER In Deák & Schiffer, 1999). O marco de finalização deste período é a criação do SERFHAU em 1964, órgão governamental que concentraria os projetos de arquitetura e urbanismo. Aqui se nota uma correspondência temporal ao terceiro momento do ciclo progressista de Gorelik (In MIRANDA, 1999), o desenvolvimentismo, mas em termos conceituais os temas apresentados pelos autores se diferenciam sem, contudo, excluir-se mutuamente.

Descreveremos a seguir alguns dos projetos que consideramos mais relevantes na história do urbanismo no Brasil devido aos conceitos utilizados na sua elaboração, facilmente identificados como pertencentes ao ideário nacional de sua época e como reverberações do diálogo internacional

23 LEME (1999) aponta, porém, que os planos de saneamento elaborados no período anterior, em particular os

quanto ao planejamento urbano. As propostas serão separadas em dois temas que se aproximam da divisão feita por Leme e Gorelik24: os primeiros projetos apresentados abrangem obras baseadas nos princípios do sanitarismo e do embelezamento, realizadas entre o final do século XIX e o início do século XX; o segundo tema, por sua vez, contempla projetos de cidades caracterizados como planos gerais, em que se pode perceber o enfoque sobre a industrialização e a representatividade do núcleo urbano como parte da nação brasileira.25