3. Doença do Usutu
3.4. Quadro Clínico e Lesional
3.4.2. Quadro Lesional
Passando para o quadro lesional, o USUV provoca múltiplas lesões em vários órgãos. Diferentes estudos analisaram os cadáveres de aves com infeções pelo USUV confirmadas e as alterações patológicas post-mortem nestas revelaram lesões similares (Steinmetz et al., 2011).
3.4.2.1. Lesões Post-mortem Macroscópicas
Na necropsia de aves com Usutu identificaram-se estados nutricionais desde fraco a bom (Chvala et al., 2004; Höfle et al., 2013; Steinmetz et al., 2011), identificando-se em algumas total ausência de gordura subcutânea e visceral e atrofia parcial dos músculos peitorais (Höfle et al., 2013). No estudo de Chvala et al. (2004), o estado nutricional das aves era caquético em 2 das 38 aves analisadas, moderadamente emaciado em 25 das 38 aves analisadas e, bom em 11 das 38 aves analisadas.
Na tabela 2 encontram-se as lesões e alterações macroscópicas observadas em diferentes estudos.
Tabela 2 – Lesões macroscópicas observadas nas necropsias de aves com doença do Usutu. Em alguns dos estudos é possível denotar a prevalência de algumas das lesões na amostra de aves
estudada.
Quadro lesional macroscópico
Órgão/ Sistema Lesão/ Alteração Referências
Sistema nervoso central
Meninge hiperémica (Manarolla et al., 2010; Savini et al., 2011)
Cérebro hiperémico (Manarolla et al., 2010; Savini et al., 2011)
Fígado
Ligeira hepatomegalia (Steinmetz et al., 2011) Hepatomegalia
(Bakonyi et al., 2007; Garigliany et al., 2017; Manarolla et al., 2010; Savini et al., 2011; Weissenböck et al., 2003, 2002) Hepatomegalia (2 em 4 aves) (Rijks et al., 2016)
Hepatomegalia moderada (6
em 38 aves) (Chvala et al., 2004)
Hepatomegalia severa (28 em
38 aves) (Chvala et al., 2004)
Fígado congestionado
(Garigliany et al., 2017; Manarolla et al., 2010; Savini et al., 2011)
Vesícula biliar Vesícula aumentada
(Manarolla et al., 2010; Savini et al., 2011)
Vesícula distendida (Manarolla et al., 2010)
Baço
Esplenomegalia
(Bakonyi et al., 2007; Chvala et al., 2005; Savini et al., 2011; Van Borm et al., 2017; Weissenböck et al., 2003, 2002) Esplenomegalia (4 em 4 aves) (Rijks et al., 2016)
Esplenomegalia moderada (2
36 Esplenomegalia severa (21 em
38 aves) (Chvala et al., 2004)
Esplenomegalia demarcada na
maioria das aves (Steinmetz et al., 2011) Atrofia esplénica (3 em 38 aves) (Chvala et al., 2004)
Rins Nefromegalia (Manarolla et al., 2010)
Descoloramento (Manarolla et al., 2010)
Pulmões
Pulmões hiperémicos (Rijks et al., 2016; Steinmetz et al., 2011)
Edema pulmonar (Chvala et al., 2004; Rijks et al., 2016)
Congestão pulmonar moderada (Chvala et al., 2004) Hemorragia pulmonar (Chvala et al., 2004)
Trato digestivo
Ausência de alimento no
estômago (30 em 38 aves) (Chvala et al., 2004) Enterite seromucosa (28 em 38
aves) (Chvala et al., 2004)
Enterite seromucosa (Weissenböck et al., 2002)
Vários órgãos Congestão (Bakonyi et al., 2007; Höfle et
al., 2013)
3.4.2.2. Lesões Post-mortem Histopatológicas
Em diferentes estudos foram recolhidas amostras de diversos órgãos e foram fixadas para análise histopatológica. Os resultados encontram-se na tabela 3.
Tabela 3 - Lesões histopatológicas observadas nos órgãos de aves com doença do Usutu. Em alguns casos é possível denotar a prevalência da lesão na amostra de aves estudada.
Órgão/ Sistema/ Tecido Lesão/ Alteração Referências
Sistema Nervoso Central
Necrose neuronal
(Garigliany et al., 2017; Höfle et al., 2013; Steinmetz et al., 2011; Weissenböck et al., 2003) Necrose multifocal no córtex
cerebral e tronco cerebral – moderada (11 em 40 aves)
(Chvala et al., 2004) Necrose multifocal no córtex
cerebral e tronco cerebral – severa (4 em 40 aves) (Chvala et al., 2004) Degeneração neuronal multifocal no cérebro e do tronco cerebral (Garigliany et al., 2014) Degeneração neuronal (Garigliany et al., 2017) Edema perivascular (Bakonyi et al., 2007) Edema perineuronal (Bakonyi et al., 2007) Nódulos gliais ao redor das
células de Purkinje no cerebelo (Garigliany et al., 2014) Escassos nódulos gliais ao
redor das células de Purkinje no cerebelo (10 em 31 aves)
(Chvala et al., 2004) Moderados nódulos gliais ao
redor das células de Purkinje no cerebelo (7 em 31 aves)
(Chvala et al., 2004) Nódulos gliais simples no
cerebelo (12 em 40 aves) (Chvala et al., 2004) Nódulos gliais numerosos no
37 Nódulos gliais (Weissenböck et al., 2003) Congestão cerebral (Höfle et al., 2013)
Regalos perivasculares
(Chvala et al., 2005, 2004, Garigliany et al., 2017, 2014; Rijks et al., 2016)
Neuronofagia
(Garigliany et al., 2017; Höfle et al., 2013; Manarolla et al., 2010; Weissenböck et al., 2002)
Microgliose (Höfle et al., 2013;
Weissenböck et al., 2002) Necrose das células de Purkinje (Garigliany et al., 2014; Höfle et
al., 2013)
Satelitose (Garigliany et al., 2017; Höfle et al., 2013; Manarolla et al., 2010) Tumefação de células
endoteliais (Höfle et al., 2013)
Vasculite (Höfle et al., 2013)
Fígado
Hepatite necrosante
(Bakonyi et al., 2007; Garigliany et al., 2017, 2014; Manarolla et al., 2010; Weissenböck et al., 2003) Necrose de coagulação multifocal moderada (13 em 38 aves) (Chvala et al., 2004) Necrose de coagulação multifocal severa (11 em 38 aves) (Chvala et al., 2004) Hepatite necrosante com
infiltrado inflamatório linfoplasmocitário 4 em 4 aves)
(Rijks et al., 2016)
Hemossiderose (Chvala et al., 2004; Höfle et al., 2013)
Infiltrado inflamatório linfoplasmocitário
(Chvala et al., 2004; Garigliany et al., 2017; Manarolla et al., 2010)
Necrose miliar (Steinmetz et al., 2011) Infiltrado inflamatório linfocítico
folicular e perivascular (Chvala et al., 2005)
Baço
Necrose esplénica (Bakonyi et al., 2007; Garigliany et al., 2017)
Necrose de coagulação (Manarolla et al., 2010) Esplenite necrosante (20 em 37
aves) (Chvala et al., 2004)
Esplenite apresentando necrose e infiltrado inflamatório linfoplasmocitário (2 em 3 aves)
(Rijks et al., 2016) Infiltrado inflamatório
linfoplasmocitário (Manarolla et al., 2010)
Hemossiderose (Chvala et al., 2004; Höfle et al., 2013)
Congestão ativa leve (8 em 37
aves) (Chvala et al., 2004)
Congestão ativa moderada (17
em 37 aves) (Chvala et al., 2004)
Hiperplasia folicular (5 em 37
aves) (Chvala et al., 2004)
Hiperplasia da polpa vermelha
38 Hiperplasia folicular (Chvala et al., 2005)
Coração
Degenerescência do miocárdio (Weissenböck et al., 2003) Degenerescência do miocárdio
(2 em 4 aves) (Rijks et al., 2016)
Miocardite (Rijks et al., 2016; Weissenböck et al., 2003)
Infiltrado inflamatório linfoplasmocitário
(Chvala et al., 2004; Manarolla et al., 2010)
Necrose do miocárdio
(Chvala et al., 2004; Garigliany et al., 2017; Steinmetz et al., 2011)
Rins
Necrose do epitélio tubular renal
(Garigliany et al., 2017; Höfle et al., 2013)
Necrose epitelial renal (1 em 4
aves) (Rijks et al., 2016)
Infiltrado inflamatório linfoplasmocitário
(Bakonyi et al., 2007; Manarolla et al., 2010)
Infiltrado perivascular de linfócitos de leve a moderado (12 em 39 aves)
(Chvala et al., 2004) Degenerescência vacuolar das
células epiteliais tubulares renais
(Bakonyi et al., 2007)
Pulmões
Congestão ativa leve (13 em 36
aves) (Chvala et al., 2004)
Congestão ativa moderada (17
em 36 aves) (Chvala et al., 2004)
Edema ligeiro (5 em 36 aves) (Chvala et al., 2004) Edema moderado (8 em 36
aves) (Chvala et al., 2004)
Pneumonia necrótico-
linfoplasmocitária (3 em 4 aves) (Rijks et al., 2016) Regalos linfoplasmocitários
perivasculares (Manarolla et al., 2010)
Trato digestivo
Inflamação da camada muscular do intestino delgado (7 em 21 aves)
(Chvala et al., 2004) Proventriculite (5 em 17 aves) (Chvala et al., 2004) Enterite aguda (Bakonyi et al., 2007) Dermatite da cloaca (Rijks et al., 2016) Túnica muscular do papo e
proventrículo com infiltrado de células mononucleares moderado a severo
(Chvala et al., 2005)
Em murganhos infetados experimentalmente com USUV denotaram-se alterações necróticas no cérebro, tal como nas aves referidas na tabela anterior, mas apresentaram ainda desmielinação. Esta alteração não foi observada em infeções de nenhum outro flavivírus (Weissenböck et al., 2004).
As lesões observadas no sistema nervoso central são características de encefalite severa tendo sido um achado bastante frequente nos animais afetados pelo USUV. As observações patológicas feitas em cadáveres de Melro-preto na Hungria (Bakonyi et al., 2007)
39 e na Áustria (Chvala et al., 2004), demonstram replicação do USUV em diversos órgãos e tecidos apontando para a falha multiorgânica como a causa de morte.
Os sinais clínicos neurológicos e/ou morte súbita com sinais patológicos com hepatomegalia e esplenomegalia, necrose neuronal e alterações necróticas no fígado e coração, são indicativos de infeção por USUV. Mas normalmente, nem todas as lesões referidas estão presentes, sendo necessário confirmar o diagnóstico por métodos convencionais ou moleculares ou ainda pela deteção de sinais virais nas secções de tecido (Steinmetz et al., 2011).
As maiores observações patológicas: hepatomegalia, esplenomegalia, necrose neuronal com glia reativa, alterações necróticas do fígado, baço e coração, são indicativas, se todo o espetro de lesões presente, de infeção por USUV (Chvala et al., 2004).