TRANSCRIÇÃO DAS ENTREVISTAS E CARACTERIZAÇÃO DA POPULAÇÃO-ALVO
1. O que faz, normalmente? Pode-me descrever o seu dia-a-dia?
- Faço muita coisa.
- Faz? Então como é que é o seu dia-a-dia?
- Olhe, fiz aquela manjedoura para a ovelha comer, para não estragar a palha e comer. Sentado, lá estive aí entretido…e muito mais coisas. Fiz tudo o que precisava.
- Mas agora, recentemente, hoje em dia, o que costuma fazer? - Sempre a mesma coisa… [silêncio]
- Então fez ali a manjedoura para a sua ovelha não é…
- A gente dantes tinha, não sei se viu ali na sala, está lá uma foto com umas vacas, as últimas vacas que eu tive aqui no pátio que um rapaz da Gafanha que é muito meu conhecido, apareceu aí e tirou-me duas fotografias: uma lá na terra, que andávamos a arrancar batatas naquela altura, e depois aqui, com um netinho deste tamanho, hoje já é um grandão. E enfim…era assim a vida…
- E o que é q faz mais durante o dia? Vai até ao café?
- Não, não, nunca frequentei, nunca frequentei e vou lhe dizer porque…o filho mais velho nas escola, depois pus o outro e passaram sempre de classe e depois não pus a rapariga e fiz muito mal porque não haviam transportes e daqui para Aveiro e não ficávamos à vontade…e aparecem muitas misérias hoje com as meninas por aí...e ficou em casa na costura. Aprendeu a costurar, sabe costurar mas não usa...ela é habilidosa. E depois é claro…já perdi o fio à meada mas não faz mal…
- Pronto…mas também fala com os seus vizinhos ou não? Vai até a casa deles, encontram-se ali…
- Falo. Muito a casa não vou porque não posso andar, mas vou até ali ao banco e eles vêm até ali e vêm até aqui, conversemos…ainda ontem esteve aqui uma Sra. que é sobrinha da minha falecida mulher e vem cá muitas vezes…e tem mais…há outros…uma família comprida, mas cada um tem a sua vida…
- Atarefada quase sempre não é?
- Tem toda a gente que trabalhar, toda a gente tem que trabalhar, porque se não trabalharem as coisas não caem do céu.
- Para além disso, o Sr. Agostinho também vê televisão, ou não gosta de ver televisão? Ouve rádio…
- Vejo, vejo. Antes de ontem deu um programa muito lindo quase todo o dia de Bragança, e ontem já deu um grande incêndio lá. Ontem deu um grande incêndio e antes de ontem é que deu esse programa e eu até estive muito tempo a ver…gosto de ver.
- Também ouve rádio…ou já não é tao ligado à música? - Sou, sou ligado à música. Até andei a aprender música. - Foi? E gosta?
- Mas o meu pai que Deus tem não me comprou o instrumento. - Qual era Sr. Agostinho, já agora?
- Eu queria um saxofone para fazer serenatas às cachopas mais os meus colegas. A gente… havia um Sr. que até está acamado, coitadinho, tocava muito bem violino, e íamos para a quinta do Loureiro, vínhamos aqui para a Póvoa do Passo e eramos de Vilarinho, a pé naquele tempo, fartos de trabalhar…mas quem corre de gosto, não cansa. E então íamos lá tocar duas ou três modas à porta delas. Umas levantavam-se, outras não se levantavam; ou se se levantavam, vigiavam só. Depois fui aprender - primeiro há o solfejo. Fui até à lição 100. Íamos duas vezes por semana de Vilarinho para Sarrazola. Cheguei à lição 100 e o mestre disse-me: olha Agostinho, o teu pai que te compre o instrumento. - Achou que tinha dom para a musica…
- E eu gostava. Solfejava muito bem e até cantava…agora não. - Mas então porque perdeu essas vontades Sr. Agostinho?
- Os pulmões já não têm a força que tinham quando somos novos. - Canta baixinho, para se animar…
- Ah pois...você sabe aquela do…ai estou-me a esquecer…ahh…um dia o meu… deixe-me primeiro falar do meu pai. O meu pai que Deus tem, um dia estávamos à ceia e tal e disse: -“oh pai, o mestre disse para você me comprar um instrumento.” –“Então e que instrumento queres rapaz?”
-“ Quero um saxofone ou uma trompete. E diz ele: -“compro-te um bandolim que o dinheiro é pouco e olha que as vacas não dançam.” Ele tinha quatro vacas de trabalho…
- O que ele queria dizer é que o melhor era trabalhar não é Sr. Agostinho?...para deixar a música para lá…
- Ora nem mais. Não é como agora. Os pais fazem tudo aos filhos agora. Tudo. Compram tudo o que eles querem…não há explicação. O amor da profissão, li esse romance…e há lá uma parte, dois versos, que nunca mais me esqueci: “quem me dera ter um dia, ter amor ter afeição, ser honesto a dar a vida por um eterno coração.”
- Decorou os versos…
- E ele diz lá o Baltazar…o Baltazar não, é o Simão.
- Se tu queres amor belo, dar-te-ei amor belo e puro se me juras ser só minha […] será belo o teu futuro. Mas depois não foi porque depois o pai…os ricos queriam os ricos com os ricos para depois continuar o mundo. E depois ela foi para um convento e ele foi para África, morreu a caminho do mar...enfim coisas do mundo que a gente…o mundo é lindo para quem o sabe gozar. Quem não o souber gozar, não presta o mundo. Fazem andar os outros tristes porque… muitos saem dos trabalhos e não vão direito a casa ter com a família, vão de caminho para os cafés. Dantes era tabernas, agora é cafés, é a mesma coisa. Depois gastam o dinheiro, depois os filhos e a mulher é que sofrem e depois há
desavenças. E elas também acontece. Há raparigas, não ofendendo ninguém, a fumar. O tabaco é caro. O dinheiro de um maço de tabaco, 30 dias já é muito dinheiro. Dá para a despesa da casa e a despesa da casa é certa e hoje há mais despesas que havia no meu tempo: há o telefone, há os quartos de banho que se toma banho e paga-se a água, paga- se a luz. Há despesas que noutros tempos não havia.
2. Para além da profissão que exerceu, que outras coisas gostava de fazer fora do