3. INSERÇÃO DOS PRECEDENTES JUDICIAIS NO BRASIL
3.2 CONCEITO DE PRECEDENTE JUDICIAL
3.2.2. Ratio Decidendi e Obter Dictum
Para o exame da eficácia vinculante dos precedentes judiciais é imprescindível a sua identificação a partir da decisão judicial do caso concreto. A adoção legislativa da doutrina do stare decisis introduziu novas formas de realização dos valores democráticos na tradição jurídica civilista. Identificar os motivos determinantes da decisão e diferenciá-los de considerações acessórias, secundárias e ditas en passant é crucial à correta incidência da tese jurídica ao caso concreto sobre o qual incidirá. Logo, saber reconhecer a tese jurídica a partir dos motivos determinantes da decisão declinados em sua fundamentação é exigência que se impõe como condição de realização dos valores que presidiram sua introdução no sistema jurídico brasileiro.
Os precedentes judiciais no direito brasileiro, a partir de sua introdução no Código de Processo Civil Brasileiro, atribuem relevante importância e consideração ao caso concreto. A relevância atribuída ao caso concreto é um fator de identificação ou aproximação da civil law à common law, pois desloca o eixo do sistema da abstração da legalidade estrita para a concretude do case law. Com efeito, a fundamentação da decisão a partir de referências ao precedente judicial exige a demonstração da relação de pertinência entre os fundamentos fáticos e jurídicos determinantes da decisão paradigmática e a solução do caso concreto sobre o qual incidirá. Não será, portanto, considerada fundamentada e, portanto, nula, a decisão judicial que não explicitar as razões que presidiram a incidência do precedente ao caso, ou que presidiram a sua não incidência ao caso que aparentava semelhança. Importa, pois, identificar os motivos determinantes, a ratio decidendi do precedente judicial.
A identificação dos motivos determinantes da norma concreta de solução do caso concreto pressupõe o conhecimento da estrutura da sentença judicial, a sua forma jurídica legalmente determinada. Segundo o disposto no art. 489 do CPC, são elementos essenciais da sentença, o relatório, que conterá os nomes das partes, a identificação do caso, com a suma do pedido e da contestação, e o registro das principais ocorrências havidas no andamento do processo; os fundamentos, em que o juiz analisará as questões de fato e de direito; e o dispositivo, em que o juiz resolverá as questões principais que as partes lhe submeterem. É no elemento correspondente à fundamentação que o juiz declina a ratio decidendi, os motivos
determinantes da sentença constituídos pelos fundamentos fáticos e jurídicos da decisão. Assim, a homenagem e o respeito àquilo que foi decidido deve ser buscado na ratio decidendi de uma decisão judicial que fica localizada na fundamentação. O significado de um precedente judicial, então, deve ser encontrado nas razões pelas quais se decidiu daquela maneira. É possível, contudo, que além das razões de decidir o juiz decline razões acessórias, colaterais, ditas en passant como reforço persuasivo do raciocínio jurídico judicial, questões periféricas que, por não consistir nas razões de decidir propriamente ditas, configuram obter dicta de caráter meramente retórico sem eficácia vinculante, portanto.167 A ratio decidendi é o elemento da decisão judicial que, ausente, produziria resultado completamente diferente.
A localização da ratio decidendi na fundamentação da decisão não autoriza, contudo, confundi-las como sinônimas. Ratio decidendi, embora inserida na fundamentação, com ela não se confunde, pois guardam uma relação de conteúdo e continente. Há na fundamentação, além da ratio decidendi, referências a elementos acessórios, adjacentes, periféricos, ditos de passagem. Os obter dicta, embora componham a fundamentação da decisão, não constituem razões de decidir, nem tem eficácia vinculante, mas meramente persuasiva, como reforço retórico argumentativo do raciocínio jurídico. A fundamentação decorre de exigência constitucional de motivação expressa de todas as decisões jurisdicionais, artigo 93168, inciso IX da Constituição Federal Brasileira. Decorre dos princípios constitucionais do devido processo legal, pois permite o exame de adequação da decisão judicial ao contraditório, à ampla defesa, ao duplo grau de jurisdição e o controle democrático da função jurisdicional. Nesse contexto, o CPC dispõe que a ratio decidendi é estabelecida a partir da identificação dos fundamentos determinantes (art. 489, § 1º, V). É a fundamentação da decisão e a declinação das razões de decidir que permitem ao julgador do caso seguinte identificar a norma do precedente que deverá incidir nos casos semelhantes exigentes da mesma solução jurídica em razão dos valores democráticos.
167DUXBURY, Neil. The nature and authority of precedent. New York: Cambridge University Press. 2008. Pág. 67. “Ratio decidendi pode significar tanto “razão para a decisão”, como “razão para decidir”. Não se deve
inferir disso que a ratio decidendi de um caso precise ser um raciocínio jurídico (judicial reasoning). O raciocínio jurídico pode ter um papel importante para a ratio, mas a ratio em si mesma é mais que o raciocínio, e no interior de diversos casos haverá raciocínios judiciais que constituem não parte da ratio, mas obter dicta.” 168CR/88 Art 93, inciso IX “todos os julgamentos dos órgãos do Poder Judiciário serão públicos, e fundamentadas todas as decisões, sob pena de nulidade, podendo a lei limitar a presença, em determinados atos, às próprias partes e a seus advogados, ou somente a estes, em casos nos quais a preservação do direito à intimidade do interessado no sigilo não prejudique o interesse público à informação; (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 45, de 2004)”.
Tudo que, na fundamentação da decisão, não constituir razões de decidir, será razões periféricas ditas como reforço retórico do argumento jurídico, sem efeito vinculante.169 Assim, “ao contrário do que se acredita, nos países de civil law, a única parte do precedente que é vinculate é a ratio decidendi, ou a razão de decidir. Assim, se algo é parte de uma decisão, mas não é parte de sua ratio decidendi, é, por definição, um dictum ou obter dictum, e consequentemente não vinculante”170.
A introdução de elementos provenientes de outras tradições jurídicas representa no sistema jurídico brasileiro a inserção de virtudes que, devidamente aplicadas, incorporam efetividade de valores democráticos fundamentais. Constitui, pois, exemplo das virtudes progressistas do positivismo jurídico como técnica de emancipação e civilização, como ocorrera no pós-guerra com a constitucionalização dos princípios do direito natural e dos direitos sociais a prestações como direitos fundamentais. Percebe-se, hoje, certo consenso doutrinário e jurisprudencial sobre as categorias referentes aos precedentes. O regime de precedentes vinculantes do CPC/15, portanto, elegeu categorias da doutrina do stare decisis como forma de adaptação do processo civil para a efetiva tutela jurisdicional dos direitos e garantias constitucionais.171
Consiste, por evidente, em um approach pragmático, mas de grande relevância, pois altera o estado da arte, cabendo agora a doutrina adequar-se às novas categorias dogmáticas construídas. Completa-se um processo de recepção, dando continuidade à evolução do direito caminhando à sua medida na velocidade e liquidez das sociedades contemporâneas172.