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LEGISLAÇÃO SOBRE RDS NO ESTADO DO AMAZONAS

4.2 REALIDADE DAS RDS NO ESTADO DO AMAZONAS E SEUS ENTRAVES

A realidade pode ser interpretada de várias maneiras, dependendo da percepção, do prisma e do interesse do indivíduo que busca descobri-la. Neste sentido, Berger & Luckman (2004, 35-36)175 afirmam que:

A vida cotidiana apresenta-se como uma realidade interpretada pelos homens e subjetivamente dotada de sentido para eles, na medida em que forma um mundo coerente. [...] O mundo da vida cotidiana não somente é tomado como uma realidade certa pelos membros ordinários da sociedade, na conduta subjetivamente dotada de sentido que imprimem as suas vidas, mas é um mundo que origina o pensamento e na ação dos homens comuns, sendo afirmado como real por eles.

No presente estudo, a realidade descrita a respeito da RDS no Estado do Amazonas é aquela apresentada pela literatura e documentos oficiais referentes à RDS Mamirauá e RDS do Piranha, que proporcionou uma caracterização de cada uma dessas Reservas, que serão analisadas sob a ótica jurídica, com a finalidade de levantar os entraves a partir desta relação entre a realidade do Estado do Amazonas e as normas jurídicas sobre RDS.

A descrição das Reservas selecionadas para o estudo nos revelaram as diferenças entre as duas UCs, por vezes sinalizando dificuldades na concretização da norma jurídica sobre RDS no Estado do Amazonas. Preliminarmente, vamos destacar as diferenças entre as Reservas para, em seguida, apontar os problemas que afetam ou impedirão a concretização deste instrumento de proteção ambiental.

A primeira diferença entre as RDS descritas no capítulo 3 é a forma de criação de cada uma. A RDS Mamirauá inicialmente surgiu no cenário Amazônico como Estação Ecológica, ligada à conservação da biodiversidade daquela área. Posteriormente, após a mobilização e organização das populações locais pela Igreja Católica, além da percepção do aumento dos recursos ambientais, por exemplo, o pescado. As populações residentes e usuárias dos

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recursos ambientais se tornaram aliados fundamentais na proteção dos recursos naturais. Percebeu-se que a categoria era inadequada àquela realidade local, pela existência de moradores no interior da Reserva. Portanto, precisava ser adequada àquela situação, daí decorre a sua transformação em RDS, criando um novo paradigma de UC.

A RDS do Piranha, segundo documentos oficiais, teve sua criação devido ao movimento pro-Reserva de moradores e usuários da área, em conseqüência da exploração inadequada e da escassez dos recursos ambientais, por exemplo, o pescado. Este movimento pro-Reserva recebeu apoio da Prefeitura Municipal de Manacapuru, que propôs a instituição por lei da RDS do Piranha.

Neste sentido, temos outra diferença entre a RDS Mamirauá e do Piranha, sendo que esta foi criada mediante lei pelo Poder Público Municipal de Manacapuru, e a outra foi transformada por lei pelo Governo do Estado do Amazonas. Por ser de âmbito estadual, a RDS Mamirauá tem uma maior visibilidade, e consegue articular convênio com instituições nacionais, assim como cooperação internacional. Fato que é mais difícil de ser feito no âmbito

municipal, pela pouca visibilidade do Poder Público local, no cenário nacional e internacional. Uma outra distinção que podemos ressaltar é a participação das populações residentes e

usuárias das Reservas, que em Mamirauá está evidenciada na realização do plano de manejo, nas atividades executadas no interior da RDS e suas respectivas avaliações e fiscalização, sendo o resultado do envolvimento dos residentes e usuários da UC e do seu entorno. Em contrapartida sobre a RDS do Piranha, há trechos da literatura em que se percebe a ausência da participação, ou um grau de participação que demonstra a falha no processo de envolvimento da população local. Isso talvez seja o fator que acarreta outra diferença nos tipos de atividades que são desenvolvidas nas Reservas. Além disso, Mamirauá apresenta um conjunto de programas relacionados à pesquisa científica e à participação dos residentes e usuários da área e do entorno da UC, abordando diversos aspectos, como a educação, saúde,

geração de renda, profissionalização, valorização da cultura etc., administrado pelo Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá em parceria com o órgão ambiental estadual, o IPAAM, em uma área focal. Na literatura pesquisada sobre a RDS do Piranha não se observam pesquisas científicas vinculadas às ações na área da Reserva. Por outro lado, constatou-se que existem algumas atividades de ecoturismo, pela existência do hotel de selva no interior da Reserva e a criação de peixes em tanque-rede, como geração de renda e subsistência da população residente na área. A administração da Reserva é responsabilidade do órgão ambiental municipal, a SEDEMAT, que atua em parceria com a Associação dos Moradores do Piranha na área da Reserva.

Estas são as distinções identificadas entre as Reservas que fazem parte do presente estudo. A partir desta síntese da literatura somada à descrição fática do capítulo 3, elencaremos os entraves gerados pela realidade no Estado do Amazonas, verificados nas RDS selecionadas, são eles:

A ausência de serviços do Estado, como educação, saúde etc; a extensão da área da Reserva; o difícil acesso em algumas regiões e também em determinadas épocas do ano; falta de levantamento fundiário nas duas Reservas; a falta de regularização fundiária; a falta de infra-estrutura, recursos humanos e financeiros do Poder Público no âmbito municipal e estadual; a falta de articulação entre o Poder Público do município de Manacapuru e o Governo do Estado do Amazonas; a inexistência de acordos, convênios e cooperação entre instituições nacionais e internacionais; a ausência de pesquisas científicas atreladas às atividades desenvolvidas na Reserva; e o envolvimento das populações locais na implementação e gerenciamento da Reserva.

A realidade das RDS no Estado do Amazonas nos apresenta entraves que repercutem, e continuarão a implicar na aplicabilidade e na efetividade da norma jurídica, se não forem resolvidos adequada e urgentemente. Alguns desses problemas demonstram a falta de

políticas públicas direcionadas a estas populações locais, por muitas vezes esquecida. A seguir, descreveremos as dificuldades vivenciadas por residentes e usuários das RDS.

4.3 DIFICULDADES IDENTIFICADAS PELOS RESIDENTES E USUÁRIOS DAS RDS