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Não há “muralha chinesa” entre as esferas da cotidianidade e da moral.

(HELLER, 1972, p. 25)

Parto de referenciais de análise sobre a cotidianidade, para refletir sobre o cotidiano institucional, que é uma de suas dimensões.

De acordo com Heller (1972, p. 17), “a vida cotidiana é a vida de todo homem”, isto é, ninguém está fora dela, independentemente da classe social e da divisão sociotécnica do trabalho todos os homens dependem do cotidiano para existirem. A autora afirma também que “a vida cotidiana é a vida do homem inteiro” (HELLER, 1972, p. 17), pois o homem interage

na cotidianidade, com todas as faces de sua individualidade, envolvendo-se com todas as suas habilidades e sentidos, porém, não em sua plenitude.

Netto (NETTO; CARVALHO, 2011, p. 65 a 67), embasado pela ótica lukácsiana, afirma que a vida cotidiana é ontologicamente “insuprimível”, pois não há vida social sem cotidianidade. Por isso, aponta três determinações fundamentais do cotidiano, as quais comparecem em cada situação, sem considerar as relações que as vinculam. A primeira é a heterogeneidade, por ser constituída de interseções de atividades que formam um núcleo de objetivação do ser social; a segunda é a imediaticidade, pois a atividade cotidiana expressa a relação direta entre o pensamento e a ação; e a terceira é a superficialidade extensiva, por compreender que a mobilização do homem na cotidianidade demanda “todas as atenções e todas as forças, mas não toda a atenção e toda a força”, todo ser social exerce as suas emoções e os seus sentimentos, porém de maneiras diversificadas e com intensidades variadas.

Mas afinal, o que se compreende por vida cotidiana?

É aquela vida dos mesmos gestos, ritos e ritmos de todos os dias: é levantar nas horas certas, dar conta das atividades caseiras, ir para o trabalho, para a escola, para a igreja, cuidar das crianças, fazer o café da manhã, fumar o cigarro, almoçar, jantar, tomar uma cerveja, a pinga ou o vinho, ver televisão, praticar um esporte de sempre, ler o jornal, sair para um “papo” de sempre, etc. (NETTO; CARVALHO, 2010, p. 23)

Assim, a vida cotidiana é construção diária e ininterrupta. É a vida de todos os dias e de todas as horas. Local de encontros e desencontros. Espaço do lugar e dos “não-lugares” (MARC AUGÉ, 1994).

Tais perspectivas não estão separadas nas relações do homem com a sociedade, com outros homens e consigo mesmo. A vida do homem é movimento; nada é inerte na vida cotidiana, todos estão ligados a algo ou a alguém, a todo o momento. Não há, na vida cotidiana, o início e o fim exato de qualquer movimento. O cotidiano se produz e se reproduz por meio da história, que é o elemento central do seu desenvolvimento (HELLER, 1972).

Aqui, a história não se refere somente a fatos históricos, mas ao desenvolvimento do processo humano e social, pois “não há vida cotidiana sem espontaneidade, pragmatismo, economicismo, andologia, precedentes, juízo provisório, ultrageneralizações, mimese e entonação” (HELLER, 1972, p. 37). Essas categorias, num contexto institucional, passam por transformações, sendo, então, um “cotidiano controlado” por reduzir as espontaneidades das ações e por demandar atenção aos níveis de relações tecidas.

Heller (1972, p. 18) afirma que “o homem já nasce inserido na cotidianidade” e que a

cotidianidade é construída na história, daí a importância desta, como uma das categorias centrais para análise e compreensão do cotidiano.

A vida cotidiana não reúne todos os seres sociais ao mesmo tempo, no mesmo local, fazendo as mesmas coisas e com os mesmos desejos e interesses. Está onde o homem está. O homem não vive sozinho e ainda que ele se sinta ou tente essa vivência solitária, não obterá êxito, pois mesmo na vida solitária, na solidão, na falta de vínculos afetivos e sociais, é preciso a participação do outro para compor essa condição de vivência.

No caso do adolescente em cumprimento de medida socioeducativa de internação, é importante ressaltar que a unidade não é o mundo em si, e nem pretende sê-lo. Por mais que haja grades, camas de alvenaria e horários controlados, existe um mundo que parece estar do lado de fora da unidade, mas não está: a unidade está dentro desse mesmo mundo, porém, ocupando dimensões e vivenciando condições particulares.

O cotidiano institucional é uma das múltiplas dimensões da vida cotidiana; não há como fragmentar a cotidianidade35. É constituído por pessoas, por regras, por normas e por relações de poder36. A segurança de uma unidade não está somente sob a responsabilidade dos agentes socioeducativos, mas de todos que ali trabalham. Todas as atividades socioeducativas visam a produção e a manutenção da segurança institucional. Essa dimensão do cotidiano tem a vida do outro como “vida nossa”, por causa da responsabilidade institucional quanto aos cuidados e à atenção às demandas do adolescente. A vida cotidiana não acaba para o adolescente quando ele vive o cotidiano institucional, pois todas essas dimensões constituem o seu “mundo da vida” (BAPTISTA, 1998), que é o cotidiano.

Nesse sentido, a exemplaridade é aspecto fundamental. Educar – particularmente no caso de adolescentes, – consiste em ensinar que se é. Portanto, a forma como o programa de atendimento socioeducativo organiza suas ações, a postura dos profissionais, construída em bases éticas, frente às situações do dia-a-dia, contribuirá para uma atitude cidadã do adolescente. (SISTEMA NACIONAL DE ATENDIMENTO SOCIOEDUCATIVO, 2007, p. 86)

35 O cotidiano

“grita do lado de fora”, um ponto de reflexão no espaço privativo. Isso, por compreender o “lado de fora” e o “lado de dentro”. Essa divisão dá a impressão de que o tempo da medida é um “tempo morto”, que a vida está parada.

36 As relações de poder podem estar em qualquer nível de relação institucional. Mattos (2009, p. 15),

em estudo realizado em uma unidade de atendimento em Belo Horizonte, apresenta um discurso do corpo diretivo: “O menino tentou fugir, foi excesso de confiança da nossa parte. Estamos relaxando com nosso serviço. Eles estão começando a mandar de novo. Nós temos que provar que quem manda aqui somos nós... Temos que ser rígidos com quem fizer isso [referindo-se a adolescentes que estavam se armando com chuço de arame das grades protetoras das lâmpadas]. O último adolescente que morreu aqui dentro foi furado com isso... Bate. Bate, mas não deixa marca (Informação Verbal)”.