3. FORMULANDO A TEORIA DO PIBID
3.1 Definindo o modelo de ação
3.1.2 O processo de implementação do Pibid
3.1.2.2 O processo de consolidação do Pibid, de 2010 a 2014
3.1.2.2.4 Reflexos do Pibid em outros normativos legais
Um momento importante da trajetória do programa diz respeito ao Decreto presidencial nº 7.219, de 24 de junho de 2010, publicado pelo então Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, que dispôs sobre o Pibid, estabelecendo que a Capes seria responsável pela implantação, acompanhamento, supervisão e avaliação dos projetos institucionais. Esta publicação, enquanto decreto presidencial, representava simbolicamente um reconhecimento maior ao programa que poderia estar regulado apenas pelas portarias internas da Capes ou do MEC.
Um segundo fato referente à menção do Pibid em um instrumento legal mais amplo refere-se à Lei nº 12.796, de 4 de abril de 2013, que alterou o texto da LDB, Lei nº 9.394/1996, apresentando nova redação ao art. 62:
§ 4º A União, o Distrito Federal, os Estados e os Municípios adotarão mecanismos facilitadores de acesso e permanência em cursos de formação de docentes em nível superior para atuar na educação básica pública.
16 Entrevista concedida por Hélder Eterno da Silveira. Entrevista IV [17/06/2017]. Entrevistador: Fernanda
118 § 5o A União, o Distrito Federal, os Estados e os Municípios incentivarão a
formação de profissionais do magistério para atuar na educação básica pública mediante programa institucional de bolsa de iniciação à docência a estudantes matriculados em cursos de licenciatura, de graduação plena, nas instituições de educação superior (BRASIL, 2013).
O Pibid aparece na LDB, referenciado com uma estratégia para incentivar a formação de professores para atuar no magistério. A notícia foi divulgada, por e-mail, com entusiasmo pela coordenação-geral aos coordenadores de projeto:
Considero que este é mais um avanço da institucionalização do Pibid e de seu reconhecimento enquanto importante política pública e de estado para formação de professores no Brasil. Estamos caminhando e conquistando, cada vez mais, novos espaços e novas oportunidades para formação de professores. Mas, ainda há um longo caminho a percorrer: criar instrumentos de avaliação e acompanhamento, articular-nos melhor com os entes federados, ampliar o acesso ao programa, melhorar os mecanismos de gestão administrativa e pedagógica do programa, garantir que os alunos se envolvam nas atividades do programa com equidade e excelência na execução das ações, captar e ampliar os recursos do programa, melhorar nossos cursos de licenciatura, envolver novos atores no trabalho de aperfeiçoamento da docência, entre outras questões relacionadas à formação de professores.
Passo a passo! Assim que eu acredito. E, nessa caminhada, manifesto meu reconhecimento pelo intenso trabalho de todos os meus colegas das IES brasileiras que atuam no Pibid: professores, educadores e idealistas! Parabéns a todos por esta conquista que é fruto da dedicação de cada aluno do programa, de cada supervisor e de cada coordenador que atua no Pibid (CGV/DEB, 2013).
Os gestores do Pibid, na ocasião das entrevistas, enfatizaram a preocupação de que o programa se consolidasse enquanto ação permanente na Capes e, por isso, a estratégia de respaldá-lo em instrumentos legais que pudessem fortalecer o programa.
Foram importantes ainda os reflexos da Portaria nº 96, de 18 de julho de 2013, que aprovou o novo regulamento do Pibid na Resolução do Conselho Pleno do Conselho Nacional de Educação (CNE), publicada em 1º de julho de 2015, que define as diretrizes curriculares nacionais para a formação inicial em nível superior e para a formação continuada.
Na Portaria que regulamenta o Pibid, o artigo 6º da Seção I, do Capítulo 2, que trata das características dos projetos e subprojetos, define que:
Art. 6º O projeto institucional deve abranger diferentes características e dimensões da iniciação à docência, entre as quais:
I – estudo do contexto educacional envolvendo ações nos diferentes espaços escolares, como salas de aula, laboratórios, bibliotecas, espaços recreativos e desportivos, ateliers, secretarias;
119 II – desenvolvimento de ações que valorizem o trabalho coletivo, interdisciplinar e com intencionalidade pedagógica clara para o processo de ensino-aprendizagem;
III – planejamento e execução de atividades nos espaços formativos (escolas de educação básica e IES a eles agregando outros ambientes culturais, científicos e tecnológicos, físicos e virtuais que ampliem as oportunidades de construção de conhecimento), desenvolvidas em níveis crescentes de complexidade em direção à autonomia do aluno em formação; IV – participação nas atividades de planejamento do projeto pedagógico da escola, bem como participação nas reuniões pedagógicas;
V – análise do processo de ensino-aprendizagem dos conteúdos ligados ao subprojeto e também das diretrizes e currículos educacionais da educação básica;
VI – leitura e discussão de referenciais teóricos contemporâneos educacionais para o estudo de casos didático-pedagógicos;
VII – cotejamento da análise de casos didático-pedagógicos com a prática e a experiência dos professores das escolas de educação básica, em articulação com seus saberes sobre a escola e sobre a mediação didática dos conteúdos;
VIII – desenvolvimento, testagem, execução e avaliação de estratégias didático- pedagógicas e instrumentos educacionais, incluindo o uso de tecnologias educacionais e diferentes recursos didáticos;
IX – elaboração de ações no espaço escolar a partir do diálogo e da articulação dos membros do programa, e destes com a comunidade. X – sistematização e registro das atividades em portfólio ou instrumento equivalente de acompanhamento;
XI – desenvolvimento de ações que estimulem a inovação, a ética profissional, a criatividade, a inventividade e a interação dos pares (BRASIL, 2013. Grifo nosso).
Identificou-se que os incisos deste artigo aparecem transcritos de maneira quase literal na Resolução do CNE. No art. 7º, do Capítulo III deste documento, são enfatizadas as habilidades que o egresso da formação inicial e continuada devem possuir. O parágrafo único deste artigo enfatiza que o Projeto Pedagógico de Curso (PPC) dos cursos de formação docente deve abranger diferentes características e dimensões da iniciação à docência, entre as quais:
I - estudo do contexto educacional, envolvendo ações nos diferentes espaços escolares, como salas de aula, laboratórios, bibliotecas, espaços recreativos e desportivos, ateliês, secretarias;
II – desenvolvimento de ações que valorizem o trabalho coletivo, interdisciplinar e com intencionalidade pedagógica clara para o ensino e o processo de ensino- aprendizagem;
120 III - planejamento e execução de atividades nos espaços formativos (instituições de educação básica e de educação superior, agregando outros ambientes culturais, científicos e tecnológicos, físicos e virtuais que ampliem as oportunidades de construção de conhecimento), desenvolvidas em níveis crescentes de complexidade em direção à autonomia do estudante em formação;
IV - participação nas atividades de planejamento e no projeto pedagógico da escola, bem como participação nas reuniões pedagógicas e órgãos colegiados;
V - análise do processo pedagógico e de ensino-aprendizagem dos conteúdos
específicos e pedagógicos, além das diretrizes e currículos educacionais da educação básica;
VI - leitura e discussão de referenciais teóricos contemporâneos educacionais e de formação para a compreensão e a apresentação de propostas e dinâmicas didático-pedagógicas;
VII - cotejamento e análise de conteúdos que balizam e fundamentam as diretrizes curriculares para a educação básica, bem como de conhecimentos específicos e pedagógicos, concepções e dinâmicas didático- pedagógicas, articuladas à prática e à experiência dos professores das escolas de educação básica, seus saberes sobre a escola e sobre a mediação didática dos conteúdos;
VIII - desenvolvimento, execução, acompanhamento e avaliação de projetos educacionais, incluindo o uso de tecnologias educacionais e diferentes recursos e estratégias didático-pedagógicas;
IX - sistematização e registro das atividades em portfólio ou recurso equivalente de acompanhamento (BRASIL, 2015, grifo nosso).
Dos 11 incisos do regulamento do Pibid, nove deles (a não ser o IX e o XI) foram traduzidos, com pequenas alterações, na norma do CNE.
Este episódio merece atenção como um fato importante na história do programa pois, de alguma forma, a definição de características e dimensões da docência que deveriam pautar a formulação dos projetos Pibid foram reconhecidas e referendadas para orientar as diretrizes nacionais para a formação inicial e continuada, em um instrumento normativo legal mais amplo, cujo propósito é orientar todos os cursos de licenciatura do país.